Escreve Francisco Brito de Carvalho: Há homens que passam pelo tempo. Outros, porém, permanecem
Há homens que passam pelo tempo. Outros, porém, permanecem. Não porque tenham construído monumentos de pedra ou ocupado os salões do poder, mas porque transformaram a própria vida em palavra, canto e testemunho
Homenagem Especial
(TB de 12jun2026)
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30 anos do adeus do poeta e escritor Olímpio Cruz (1909-1996)
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Escreve Francisco Brito de Carvalho:
Há homens que passam pelo tempo. Outros, porém, permanecem. Não porque tenham construído monumentos de pedra ou ocupado os salões do poder, mas porque transformaram a própria vida em palavra, canto e testemunho. Assim foi Olímpio Cruz, filho de Barra do Corda, poeta, indigenista, sertanista e cronista sensível das paisagens humanas e naturais da terra berço.
Ao longo de sua trajetória, construiu uma obra literária marcada pela poesia e pelo profundo vínculo com suas origens barra-cordenses. Escreveu livros, versos e reflexões que ajudaram a registrar a alma do interior maranhense. Mais do que descrever paisagens, ele captava sentimentos, memórias e identidades. Sua poesia não se limitava às palavras; era uma forma de preservar histórias e dar voz aos cenários humanos que conhecia tão bem.
Olímpio Cruz também se destacou pelo trabalho junto aos povos indígenas, sendo reconhecido como um dos maiores sertanistas do Maranhão. Conhecedor das regiões mais distantes e dos desafios da convivência entre diferentes culturas, dedicou parte importante de sua vida à compreensão e à valorização das populações indígenas. Sua atuação foi marcada pelo respeito e pela busca de entendimento, numa época em que muitas vozes indígenas ainda eram pouco ouvidas.
Trinta anos após sua partida, Barra do Corda continua encontrando em Olímpio Cruz um de seus mais ilustres intérpretes. Sua obra permanece como um convite para que as novas gerações descubram, nas palavras do poeta, a riqueza de sua própria história. Afinal, enquanto houver quem leia seus versos e recorde seu legado, Olímpio Cruz continuará vivo — não apenas na memória de sua cidade, mas no coração cultural do Maranhão.
Evocar os 30 anos de sua ausência física é mais do que recordar uma data. É reconhecer a importância de um homem que soube transformar a experiência de viver no interior do Maranhão em patrimônio cultural. É homenagear o autodidata que fez da curiosidade um caminho, o sertanista que percorreu fronteiras humanas e geográficas, o indigenista que valorizou povos e culturas, e o poeta que deu voz à sua terra.
Nos poemas de Olímpio Cruz, Barra do Corda nunca foi apenas uma cidade; foi personagem permanente. Os rios Corda e Mearim, as matas, os pássaros, os caminhos do sertão e as cores da natureza barra-cordense surgiam em seus versos com a força de quem escreve sobre aquilo que ama. Mas era na presença indígena que sua poesia encontrava uma de suas expressões mais autênticas.
Estive com o poeta Cruz nos seus últimos anos em Brasília. De lá para cá, aprendi que os poetas morrem menos que os outros. Eles continuam habitando o mundo por meio das palavras que deixam. E as palavras de Olímpio Cruz ainda ecoam, como o rumor distante de um rio atravessando a memória, ou como as penas multicoloridas e alvissareiras de um cocar dos povos originários, onde ainda cintila, intacta, a alma do poeta.
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*Francisco Brito de Carvalho é poeta e escritor, mora em São Luís (MA)