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Escreve Rubem Milhomem

Você é cordense ou cordino?

Rubem Milhomem é poeta e escritor
Rubem Milhomem é poeta e escritor

Homenagem

Barra do Corda 191 anos

(TB de 3mai2026)

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Escreve Rubem Milhomem:

Você é cordense ou cordino?

Quem nasce em Barra do Corda nasce em Barra do Rio das Cordas. É, pois, barra-cordense - o gentílico que consta no registro oficial do IBGE. Ou, para os íntimos, é cordense - que consta no VOLP, editado pela Academia Brasileira de Letras, responsável legalmente pelo reconhecimento oficial de palavras na Língua Portuguesa no País.

No português brasileiro cordino se refere a coração, e não a corda. Para chegarmos a alguma aproximação entre cordino e corda seria preciso recorrer ao Portugués de Portugal (cordina seria algo como uma corda pequena) ou mesmo ao Italiano (cordino seria algo como cordão).

Porém, sendo bizantinas as questões de linguagem, nem todos os gentílicos surgem por derivação direta (como cordense vindo de corda). Existem os gentílicos que os especialistas chamam de arbitrários ou parcialmente arbitrários - aqueles cuja formação não remete diretamente aos nomes dos lugares (exemplos - quem nasce em Salvador é soteropolitano; quem nasce na cidade do Rio é carioca; quem nasce no Espírito Santo é capixaba).

A linguagem é dinâmica e ela própria vai se formando a partir do momento em que a necessidade aparece. Vai daí que a melhor explicação para qualquer questão de linguagem será sempre aquela que passe longe do fundamentalismo linguístico. Muitas vezes a linguagem não cabe nos dicionários consagrados, nas bíblias de filologia, nos alcorões de etimologia. Ela deve ser entendida no contexto amplo da história, da tradição e da cultura que constroem a identidade de um povo.

Nesse sentido, cordino seria um gentílico legítimo porque é uma forma prestigiada desde a literatura longeva da Barra, especialmente, mas não só, na monumental obra de Olímpio Cruz - o maior poeta da nossa terra na segunda metade do Século 20. Ele escreveu, por exemplo, a letra da gloriosa Canção Cordina, cuja música é do maestro Moisés da Providência Araújo.

Cruz, o cantor das selvas e dos sertões, o menestrel dos indígenas e dos sertanejos, foi quem traduziu o espírito do seu tempo e inaugurou uma era em que a Barra passou a ter orgulho de si mesma e os cordenses embarcaram numa onda de exaltação às suas origens e aos seus valores. A influência da obra dele marcou a cultura durante décadas e avançou sobre a música, o teatro e o jornalismo. Permanece viva inclusive até os dias de hoje.

Esse leque de vertentes ufanistas resultou, por exemplo, no nome do principal time de futebol da Barra - o Cordino Esporte Clube. E o Hino Oficial do Cordino é a síntese do discurso garboso, empostado, próprio para inflar o ânimo das multidões: “Canta, meu Cordino Esporte Clube / Canta, como amor a tua glória / Canta, com a tua voz altaneira / Que a tua bandeira / No alto tremula / O pavilhão da vitória”. Que tal?

Portanto, cordense e cordino devem ser aceitos como gentílicos legítimos. E não se fala mais nisso. A questão mais palpitante é outra - saber quem é barra-cordense “de verdade”. Essa questão você vai ler na próxima publicação. Até lá.

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*Rubem Milhomem é poeta e escritor, mora em Brasília (DF)