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Escritor André Milhomem escreve

Voltar às margens do Rio Corda não é apenas retornar a um lugar, é reencontrar uma versão de si mesmo que o tempo não conseguiu apagar

André Milhomem é escritor e historiador
André Milhomem é escritor e historiador

Homenagem

Barra do Corda 191 anos

(TB de 2mai2026)

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Escritor André Milhomem escreve:

A minha Barra!

Voltar às margens do Rio Corda não é apenas retornar a um lugar, é reencontrar uma versão de si mesmo que o tempo não conseguiu apagar.

Há algo de sagrado no Rio Corda, como se cada correnteza carregasse memórias que insistem em permanecer vivas, no meu rio, o mundo desacelera, e a vida volta a caber no simples, na cruviana que encosta no rosto, no barulho da água e no silêncio que fala mais do que qualquer palavra.

E, de repente, eu já não sou quem fui me tornando, sou novamente o moleque de pés descalços correndo pelas ruas de pedra, com o tempo escorrendo entre os dedos sem qualquer pressa, o corpo leve, a alma solta, e aquela coragem típica de quem ainda não aprendeu a temer a vida.

As “tibungadas” eram mais do que mergulhos, eram rituais de liberdade, cada salto na água era um desafio aceito, uma risada espalhada, um instante eterno que se repetia sem nunca se esgotar, a gente mergulhava sem saber que estava, na verdade, afundando nas raízes da própria existência.

E as brincadeiras… ou melhor, os “folguedos”, palavra que carregava mais do que significado, carregava pertencimento, era correr sem destino, rir sem motivo, inventar mundos com quase nada, porque tudo bastava.

Havia também o aprendizado silencioso, ao sentar ao redor dos mais velhos, ouvir suas histórias, seus causos, suas pausas cheias de sentido, eu não ousava interromper, não por medo, mas por respeito, aquele tipo de respeito que não se ensina, se absorve, ali em silêncio, aprendíamos mais sobre a vida do que em qualquer outro lugar.

Hoje, de volta a minha terra, percebo que nunca se tratou apenas de um lugar, viver em Barra do Corda é carregar um pedaço do mundo dentro do peito, não é só saudade, é identidade, é raiz, por que há lugares que a gente visita… e há aqueles que nos habitam.

E Barra do Corda, com seu rio, suas ruas e suas memórias, não moram em mim como lembrança, mora como essência.

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André Milhomem é escritor e historiador, mora em Barra do Corda (MA)