·3 min de leitura

Coluna do Américo Ribeiro: Fechando o ciclo

À tarde do dia 6 de fevereiro de 2016, no Guará (DF). Nossa família reunida em volta do Iuri, meu neto, comemorando o seu aniversário de dois anos.

Américo Ribeiro é escritor, mora em Cocalzinho (GO)
Américo Ribeiro é escritor, mora em Cocalzinho (GO)

Coluna do Américo Ribeiro

(TB 29mai2026)

_____

Fechando o ciclo

À tarde do dia 6 de fevereiro de 2016, no Guará (DF). Nossa família reunida em volta do Iuri, meu neto, comemorando o seu aniversário de dois anos.

Todos os [meus] ali reunidos, tão belos e felizes, naquela alegria de festa infantil. Cada um dando assistência, cuidando da correria dos pimpolhos, naquele pra lá e pra cá entre um brinquedo e outro armado no gramado do jardim.

Olhando inicialmente a cena, me dava à sensação de missão cumprida, aí eu pensava: - Taí a minha prole feliz, compacta e contente. Benza o Deus!

Não precisava de melhor família reunida num lugar sossegado que, além de belo, bem-cuidado e decorado. Convidados chegando, cumprimentando-se, no seu linguajar moderno, à moda internetez.

Agora, veja, estava diante dos meus olhos o quadro, o momento sublime com o qual sonhei a vida inteira, consequentemente eu precisava me sentir pleno de felicidade. Não era assim que eu tinha que estar? Infelizmente, não era bem isso que a minha alma sentia.

No caminho de volta pra casa [em Cocalzinho, Goiás], enquanto a minha mente repassava cenas do que vi naquela tarde, em vez de repleta de felicidade, minha alma se sentia murcha e melancólica. - Tô doido?

À noite, fui repensar melhor e descobri que o que me atormentava era notar que o meu ciclo de criar família está terminado. Passou.

Considerei o que eu e a Marta fizemos, construímos esta família, somos abençoados por vê-la tão bela, feliz, unida e compacta, como disse, mas, como é natural, eles tomaram as rédeas da vida e, a partir de agora, o que temos a dizer aos nossos filhos? Eles nos ouvem por educação, por príncípio, mas infelizmente as nossas palavras já não mudam seus passos, nem seus planos, não alteram as suas decisões, mesmo porque eles hoje pisam um terreno que não e o que eu e a Marta pisamos. Portanto, nosso mundo, nosso sistema estão ficando para trás e o nosso ciclo se fecha. É

ai que dói.

Acredito que dentro de cada pai ou mãe de família mora um bicho possessivo, e quando perdemos o domínio sobre eles, quando deixamos de ser o carro chefe do clã e vemos as nossas crias avançarem mar adentro, agora se orientando pelos próprios mapas e não pelo nosso, nessa hora sentimos como que se ficássemos olhando praia enquanto eles seguem. É nosso ciclo de criar família se fechando. Dói outra vez

- Pra mim, resta um consolo, o bicho possessivo que mora dentro de mim em breve se transformará em pássaro, como aconteceu com meu pai.

Ai, eu voltarei a rondá-los e consolá-los nas adversidades, até que eles se tornem pássaros também.

_____

*Américo Ribeiro é escritor, mora em Cocalzinho (GO)

NR: Crônica do segundo livro do Américo: 'Do que mais vi'.