Coluna da Angélica Alencar: Quatro anos do adeus da Eliza Paula
Nossa cronista Angélica, abre sua participação no TB com crônica em homenagem a Eliza Paula Pereira dos Santos Brandão, que faleceu há quatro anos.

Coluna da Angélica Alencar
(TB de 10ago2026)
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Quatro anos do adeus da Eliza Paula
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Nossa cronista Angélica, abre sua participação no TB com crônica em homenagem a Eliza Paula Pereira dos Santos Brandão, que faleceu há quatro anos.
Aproveitamos para as boas-vindas à poetisa Angélica, que também atende por Angel. O TB fica mais poético com a chegada de textos humanos e profundos. Sugerimos leitura:
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Sobrepor e cronometrar os anos cravados em uma saudade talvez seja realmente um desafio que eu darei por perdido. Há muito que você sabe, e eu também, que os números embaraçam a minha cabeça, que as datas, as horas e as localizações são muito exatas para a confusão que habita em mim. Mas o sentir, esse me arrasta, me equilibra... E, nesses tantos dias que não sei contar, todos os “sentires”, “sem ti”, me habitaram, me acompanharam.
Como pode um amigo ir embora de verdade? Não pode, né? Então, nesses anos que vão se passando, você foi ficando, todos os dias, muito mais no corpo repleto de pensamentos e sentimentos do que, verdadeiramente, na fala. Quando estou só, eu pego a direção e, silenciosamente, me lanço a pensar o meu mundo, que construí para sobreviver às ausências e cultivar as presenças que não podem ir embora.
Eu sei que você levou muito de mim e deixou muito de você em mim, numa espécie de troca que não é feita para preencher lacunas, mas para formar e transformar infinitos. Estou certa de que você compreendeu isso muito antes de mim, que você sempre soube que não precisava de mim, mas que ter a minha amizade em sua vida foi uma escolha consciente, um desapego às utilidades da vida.
Tenho que confessar que ainda não evoluí a ponto de saber lidar com a falta que a tua presença física faz nesta existência. E me pego tendo pensamentos do tipo: “Se ela tivesse ido morar em outro país e eu pudesse cultivar a esperança de vê-la, sei lá, de dois em dois anos, de quatro em quatro anos... pegar um telefone, ouvir tua voz, o sorriso... Bastaria o sorriso...”
Então eu sonho. Mas o sonho não é igual. E, nessas horas, eu faço algo que você sabe bem que sou muito boa em fazer: choro copiosamente ou, às vezes, deixo rolar algumas lágrimas. Em ambos os casos, o efeito é o mesmo.
Tenho me preocupado em guardar bem nossas memórias. Você sabe que, com os anos, a cabeça da gente vai ficando branca e esquecida. Sinto pavor de um dia esquecer um momento sequer que tive ao teu lado. Mas aí vem uma sensação de consolo, como se as marcas que você deixou na minha vida fossem como uma cicatriz de infância. Mesmo que a gente não lembre da queda, ela está ali, fazendo parte do corpo, do que se é.
Penso que essa sensação é você quem me faz sentir, como se me pregasse uma peça, porque sabe que tenho um traço de melancolia quando me entrego aos pensamentos de pavor.
Acho que tem dado certo, na medida do possível, como se costuma dizer, na medida em que a vida segue seu curso, sem ilusões de que a falta e a saudade vão se adoçar, sem ilusões de que, no dia de hoje, algo possa sorrir. Hoje não. Quem sabe amanhã? Porque amanhã eu vou lembrar da tua gargalhada e do quanto era improvável não sorrir ao teu lado. E, por legado, eu sorrirei, ciente da minha insuficiência de alegrar o mundo como você fez. Mas eu não tenho medo da censura. Vou, sim, tentar te imitar.
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*Angélica Alencar é poeta e escritora
