·2 min de leitura

Mauro Heider: Barra do Corda entre lamparinas e motores

Na primeira metade da década de 1960, Barra do Corda parecia viver como se a cidade ainda respirasse séculos passados. As noites eram iluminadas por lamparinas e candeeiros, e nas casas mais abastadas brilhava o Petromax ou o Alladin...

Mauro Heider Ferreira, barra-cordense, formado em Direito, mora em Teresina (PI)
Mauro Heider Ferreira, barra-cordense, formado em Direito, mora em Teresina (PI)

Crônica

Barra do Corda entre lamparinas e motores

_____

Por Mauro Heider

_____

Na primeira metade da década de 1960, Barra do Corda parecia viver como se a cidade ainda respirasse séculos passados. As noites eram iluminadas por lamparinas e candeeiros, e nas casas mais abastadas brilhava o Petromax ou o Alladin, ambos à querosene, espalhando aquele cheiro forte que se misturava ao silêncio da cidade. As ruas, de barro e areia, eram campos de futebol improvisados, onde crianças corriam atrás da bola sem medo de serem interrompidas por carros, raros como o Jeep do senhor José Arruda, o “Duque de Giz”.

Ao cair da tarde, as famílias se reuniam nas calçadas. Conversavam amenidades e sobre a vida, contavam “estórias de trancoso”, e deixavam o tempo escorrer devagar, como se cada palavra fosse parte de um ritual de convivência. Barra do Corda era, então, uma cidade de encontros simples, sem pressa, sem televisão, sem internet, nada de tecnologia, apenas o calor humano e o brilho amarelado das chamas que iluminavam a noite.

Mas a segunda metade da década trouxe ventos de mudança. Sob a gestão do prefeito municipal Galeno Brandes e do vice José Ferreira Sobrinho “Ferreirinha”, a cidade começou a despertar. Um poço cavado às margens do Rio Corda levou água canalizada às casas. As ruas centrais ganharam calçamento, e o motor a óleo instalado na Prefeitura fez a energia elétrica chegar, ainda que tímida, das 18h às 22h. Logo vieram motores mais potentes, estendendo a luz até meia-noite, até que, nos anos 70, a Hidrelétrica de Boa Esperança trouxesse energia contínua e definitiva.

As praças começaram a nascer, como a Melo Uchoa, que também ganhou um parque infantil. Era um tempo em que brincar significava correr, escalar, inventar mundos sem tecnologia. A cidade, aos poucos, deixava para trás o cenário arcaico e se abria para a modernidade, sem jamais perder sua essência acolhedora.

E assim foi Barra do Corda dos anos 60, uma cidade que vivia entre lamparinas e motores, entre ruas de barro e calçadas de conversa, entre a simplicidade do passado e a esperança de futuro. Uma cidade que, mesmo em transformação, continua bela pela sua natureza exuberante e pelo calor de sua gente.

_____

*Mauro Heider Ferreira, barra-cordense, formado em Direito, mora em Teresina (PI)