Coluna da Giselle Pacheco
Entre a Névoa e a Pedra
Coluna da Giselle Pacheco
(TB de 27mar2026)
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Entre a Névoa e a Pedra
Na região de Barra do Corda, as cachoeiras da Fumaça e da Cachoeira Grande parecem mais do que paisagens: são vozes antigas que ainda insistem em falar.
A primeira se dissolve no ar, formando uma névoa leve, quase etérea, como se anunciasse sua própria fragilidade.
A segunda, rígida e imponente, observa em silêncio o passar do tempo e das pessoas.
Mas há algo que não se vê de imediato. Antes de serem pontos turísticos, esses espaços já pertenciam aos povos indígenas Guajajara, que os reconhecem como territórios de memória, espiritualidade e vida.
Para eles, a natureza não é cenário: é relação, é pertencimento.
Hoje, no entanto, o que se percebe é um contraste inquietante. O fluxo de visitantes cresce, mas não é acompanhado por políticas públicas eficazes de preservação ambiental. Falta sinalização, fiscalização e, sobretudo, educação ecológica.
A paisagem é consumida, mas pouco compreendida.
A fotografia que guardo, feita em uma visita com minha família, revela mais do que um momento afetivo. Ela denuncia o tempo estagnado: ao retornar, anos depois, quase nada havia mudado. A mesma ausência de cuidado, os mesmos sinais de abandono.
Como se o lugar tivesse sido esquecido pelo poder público, mas não por aqueles que o vivem e o lembram.
A Cachoeira da Fumaça, ao se desfazer no ar, parece alertar: o que não é cuidado desaparece.
Já a Cachoeira Grande permanece, silenciosa, como testemunha de uma história que insiste em não ser esquecida.
Entre a memória e o descaso, a paisagem resiste, mas até quando?
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Giselle Pacheco é professora e escritora, mora em São Luís (MA)
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