Giselle Pacheco é professora e escritora, mora em São Luís (MA)
Giselle Pacheco é professora e escritora, mora em São Luís (MA)

Barra do Corda 191 anos

Para abrir essa homenagem, nossa colunista Giselle Pacheco assina o texto abaixo

Homenagem

Barra do Corda 191 anos

(TB de 26abr2026)

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O jornal TB, a partir deste domingo, passaremos a publicar artigos, poesias e fotos históricas, refletindo sobre a cidade e seu grande território quando comemora 191 anos em 3 de maio.

Mas há perguntas que não podem cair no esquecimento:

- Por que falta água potável com belos rios, riachos e lagoas a cortar o município?

- Por que ainda não temos um aeroporto com pista asfaltada?

- Por que não há ônibus circular entre bairros e povoados num município que está se aproximando dos 100 mil habitantes?

- Por que não protegemos nosso patrimônio histórico, nossa arquitetura, o Bangalô, nosso Taj Mahal, que foi ao chão e qual será o próximo casarão?

- Por que não conseguimos a instalação de faculdades presenciais da UFMA, que lutamos há mais de 50 anos?

São perguntas para o prefeito e vereadores, deputados estaduais, também para entidades de classe, associações e todos os cidadãos.

Para abrir essa homenagem, nossa colunista Giselle Pacheco assina o texto abaixo:

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O futuro que corre nas nossas águas

Há cidades que envelhecem. Outras amadurecem.

Barra do Corda, aos 191 anos, é feita de águas que contam histórias: o rio Corda, o rio Mearim, riachos, lagoas e as quedas que encantam, como a Cachoeira da Fumaça e a Cachoeira Grande. São mais que paisagens: são memória, identidade e vida.

Ao celebrar essa história, surge a pergunta que nos convoca: que cidade veremos daqui a 20 anos refletida nessas águas?

Se negligenciarmos, veremos rios mais rasos, margens feridas, cachoeiras enfraquecidas. O progresso sem cuidado cobra seu preço, e ele já começou a ser cobrado.

Hoje, em alguns trechos, já vemos o fundo do rio exposto. Atravessa-se a pé onde antes era fundo e largo.

Ali, nas proximidades do balneário “Mete-Mete”, o assoreamento avança, o lixo se acumula, e o que mais preocupa: a ausência de ação efetiva do poder público e o descuido coletivo. Não é só o tempo que transforma essa paisagem. É a omissão. Mas há outro caminho.

Um futuro possível passa por compromisso coletivo, governo, comunidade e cada cidadão. Cuidar das águas é assumir, na prática, os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável), especialmente o ODS 6, o ODS 11, o ODS 13 e o ODS 15. Não são metas distantes: são responsabilidades urgentes.

Imaginar 2046 é imaginar escolhas. Educação ambiental nas escolas, políticas públicas firmes, fiscalização, preservação das margens, respeito à natureza. Porque desenvolvimento sem responsabilidade é apenas destruição disfarçada.

Mas o futuro também nasce das memórias.

Recordo quando tomava banho com meu avô Lourival Pacheco, no porto das Pedrinhas. Levávamos shampoo, sabonete e, com a areia limpa do rio, fazíamos nossa própria esfoliação. Ríamos, vivíamos, pertencíamos. Era simples. Era puro. Era nosso.

Hoje, essa cena já não se repete como antes. E isso não é apenas nostalgia, é um sinal claro de que algo se perdeu no caminho.

Barra do Corda sempre foi celeiro de talentos. Mas talento não sobrevive sem água limpa, sem natureza viva, sem futuro possível.

Os 191 anos não são apenas celebrações. São um chamado à responsabilidade.

Ou cuidamos agora, com ação, compromisso e coragem ou, daqui a 20 anos, restará apenas a memória do que um dia foi vida. E memória, sozinha, não mata a sede de ninguém.

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Giselle Pacheco é professora e escritora, mora em São Luís (MA)