Delícias da Barra do Corda dos anos 50
Coluna do Américo Ribeiro, Delícias da Barra do Corda dos anos 50
Coluna do Américo Ribeiro
(TB 24abr2026)
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Delícias da Barra do Corda dos anos 50
Nossa geração flutuou naquele abençoado pedaço de chão.
Falo no coletivo, porque não fosse os companheiros naturalmente que nossa saga não teria o mesma sabor.
Saúde a gente tinha, era preciso extravasar, gastar a energia que a água do rio Corda nos dava sobrando.
Então, era alugar um casco [canoa] e subir o Mearim de águas turvas.
Água escura exige um pouco mais de respeito, na cega a gente não sabe o que está lá embaixo.
Lá pelos fundos da Colônia Agrícola [Incra] nosso instinto presepeiro dava um jeitinho de malinar nas tantas frutas que por lá se perdiam.
Menino carece de frutas, de vitaminas, afinal é um bichinho em desenvolvimento.
Devia ser permitido por lei um menino catar a fruta que está sobrando, principalmente num pomar público.
Subir varejando o rio Corda, aquela doce brincadeira, lavadeiras mexendo com a gente, a gente bulindo com elas.
Água clarinha, diferente do Mearim. De longe se via o piau aracu correr para moita, com sua camisa listrada, parecendo zebra.
A arte de varejar é uma sensação boa, a gente rompendo a corredeira à custa da nossa perícia, da nossa força. Aquilo tem um quê de primitivo, de indígena.
Era assim que enganávamos o calor daquelas tardes tórridas de agosto a setembro.
Boca da noite, sozinho, eu pescava pirambebe de linha de mão, na confluência do Mearim e Corda.
Por vezes a linha chegava a zunir. Só que eu era prático. A levava sempre ao embornal.
Tinha a caçada de lambu, nas capoeiras do outro lado do Mearim. Eu era fera no estilingue. Sempre trazia a janta.
Bom demais recordar minha meninice por aqueles barrancos.
E lembrar que já se vão 70 e poucos anos de tudo aquilo, heim?
Depois eu conto mais sobre os anos 50.
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*Américo Ribeiro é escritor, mora em Cocalzinho (GO)
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