ABC
Arcádia Barra-Cordense

Leitura de domingo

 

Numa parceria com a ABC - Arcádia Barra-Cordense -,
o TB publica poemas que constam na primeira edição da Revista da Arcádia Barra-Cordense:
São de autoria de Nonato Silva, Cezar Braga, Humberto Madeira e Heider Moraes.
Boas leituras!

 

Editorial da Revista da Literatura Barra-Cordense

*Nonato Silva

Primo avulso non déficit alter: Arrancando o primeiro, não deixa de apresentar-se logo um outro (Virgílio, Eneida, lib. v I, v. 143).

            Cultura, do latim colere “cultivar”, lembra, etimologicamente, agricultura, em suas diversas fases e gênero.
            Humana e espiritualmente falando, cultura, subjetivamente, conota a ideia de um alto grau de desenvolvimento das capacidades intelectuais do homem, no vigor de suas faculdades mentais, levando-o a elaborar as grandes associações geradoras, antecipando pródigas visões de futuro, em esforço contínuo, criando fontes imperecíveis de notáveis pensadores.
            Objetivamente, cultura forma um conjunto gerativo que marca e assinala a marcha da história de um povo.
            Assim, cultura é um fenômeno essencialmente social, gerando grupos que o tempo se encarrega de transmitir em estirpes, nos efeitos das civilizações.
            Então, o mito da cultura é atribuição de um valor absoluto ao próprio trabalho do espírito. Nada de mais digno de si.
            E o que se encontra, de concreto, na base desse mito, é a força nos destinos do espírito, nas obras do espírito, e nada de mais nobre de louvor que tal coisa, forjando o elemento mitológico dessa atitude. Elemento esse que reside na atribuição de um valor absoluto, próprio do trabalho do espírito do homem. E consiste o mito em deslocar os atributos da inteligência e da potência divina para a inteligência e criação humanas.
            Que o diga e confirme a tecnologia reinante, em letras de forma.
            E dentro da redoma e do sacrário desses conceitos e atributos, localiza-se e vibra Barra do Corda, cidade genuinamente culta, sobretudo, no que concerne à arte literária, plástica, musical, em suas diversas manifestações, ramificações, estilos, normas e formas.
            A cultura literária da Cidade de Melo Uchia teve seu berço acentuado no século XIX, com o brilho e feição do jornal O Norte, nascido em 7 de setembro de 1888, pelas mãos de Rocha Lima, Isaque Martins dos Reis e Dunshee de Abranches. E, no seu encalço, vieram outros paladinos da cultura.
            Presentemente, o município conta com, além de dezenas de escolas de ensino fundamental, as escolas de ensino médio ou secundário, como o Colégio Pio XI, Dom Marcelino, Centro de Atenção Integral à Criança – CAIC -, estaduais, bem como um Centro de Ensino, da iniciativa privada. E mais: a Faculdade de Letras; a UNIVIMA – Universidade de Ensino a Distância; e o Centro Federal de Ensino tecnológico – CEFET – “Ardaleão Pires”, sendo posto em funcionamento.
            Na imprensa escrita, falada e televisada contam-se SIT Rádio Rio Corda, comunitária, dirigida pelo jornalista e proprietário Nonato cruz. Rádio Alternativa, a cargo de José Júlio Pereira Cardoso. Rádio Difusora de Edson Lobão.
            Bom destaque cabe à Revista da Literatura Barra-Cordense, editada por Nonato Silva.
            E agora, a novel Revista da Arcádia Barra-Cordense, editada pela Casa que lhe empresta o nome.
            E avulta, com grande garbo, o bravo e erudito jornal Turma da Barra, eletrônico, de propriedade do jornalista Heider Moraes, atingindo o Município, o Estado e o exterior.
            Também a Casa da Cultura “Galeno Brandes”.
            O Instituto Histórico e Geográfico de Barra do Corda, em fase de instalação.
            Ao lado de tudo isso, a Revista da Arcádia Barra-Cordense destinada a enaltecer e divulgar os feitos do Silogeu. E veio para ficar, difundir cultura, registrar sucessos e cantar as glórias da Terra-Mãe.
            É que “o amanhã é a conquista do hoje” (Sônia Marina Durão).

*Nonato Silva é presidente de honra da Arcádia Barra-Cordense, mora em Brasília (DF)

A torre da igreja da minha cidade

*Cezar Braga

            A maioria das cidades pequenas do Brasil tem, quase sempre, a igreja como sua construção mais arrojada, mais imponente.
            A igreja da minha cidade é majestosa. Projetada por frei Adriano, teve sua construção iniciada por seus sucessores em 1951. Já que um ano antes o insigne frei, desgostoso com a luta mantida com facções políticas locais, que se opunham a demolição do Paço Municipal e a Igreja Matriz (construída em 1893), abandonou a cidade. Após a demolição das obras citadas, a construção da nova igreja foi iniciada e mesmo sem estar concluída o bispo da Prelazia, dom Emiliano, a benzeu, ainda em 1951, conforme notas do historiador Galeno Edgar Brandes.
            A torre da igreja da minha cidade é pomposa, soberba e de uma ubiqüidade impressionante. É vislumbrada por quase todos os cantos da minha cidade e ela - silenciosa, altiva e imponente - vislumbra a própria cidade, as casas, os fiéis, os infiéis, contempla as pessoas e suas matizes, os devotos e sua devoção, os amigos e sua amizade, os dignos e os indignos com sua dignidade e indignidade, a hipocrisia dos hipócritas, a devoção dos amantes, o desamor dos sem-alma, o descaso dos bêbados que por ela passam sem notá-la, ouve os murmúrios, lamentações e quem sabe até o pedido de perdão dos presos que lhe são vizinhos. Pois a cadeia lhe faz limite.
            E é ali, aos pés da torre da igreja da minha cidade, que a religiosidade do nosso povo se manifesta, juntamente com as manifestações profanas.
            A torre da igreja da minha cidade também abriga os sinos que anunciam a hora da missa, a hora de ter esperanças. Anunciam, também, com seu toque triste, o falecimento de alguém. A população acerta seus relógios com o seu relógio.
            O sol quando surge, a primeira coisa que faz é beijar a torre da igreja da minha cidade, para depois descer lentamente seus raios até atingir as ruas e as casas e acarinha com seu calor o povo da minha cidade. O sol às vezes espera a lua aparecer e com ela divide o mesmo céu. E de lá sorriem, homenageando a torre da igreja da minha cidade, que com altivez agradece e fica lisonjeada.
            A torre da igreja da minha cidade lobriga, onisciente, os homens simples, dignos e comuns e também os indignos. Ela contempla também e com carinho, os que vieram de fora para ficar por opção, e os que nasceram aqui e não podem ficar, pois são obrigados a saírem para tentar melhorar de vida, por falta de perspectivas aqui...
            A torre da igreja da minha cidade abriga além dos símbolos óbvios do cristianismo, uma galeria com as fotos dos mártires da hecatombe do Alto Alegre, que lá do alto derramam bênçãos e proteção ao povo deste lugar. É dela a fulguração de onde as tristezas e alegrias, esperanças e desesperanças se espalham por minha cidade.
            Minha cidade é Barra do Corda.

*Cezar Braga é engenheiro civil, mora em São Luís (MA)

 

Obrigado

*Humberto Madeira 

      Sempre achei que a palavra “gracias”, do idioma espanhol, explica melhor a intenção quando se quer agradecer algo, ou “grazie”, do italiano. No português usamos a palavra obrigado. Por que obrigado? Estamos obrigados, forçados, impostos e não apenas agradecidos?
      Com a ajuda de outros idiomas, tenho compreendido mais o nosso português, conhecido e até entendido algumas palavras e expressões que usamos. A verdade é que o português possui uma infinita quantidade de palavras (algumas quase em desuso) e, cada vez mais revela novas expressões e modismos que cada região adota, o que devemos respeitar. Palavras como alcaide [sinônimo de prefeito] e olvidar [esquecer] só conheci depois que comecei a dominar o espanhol, pois estão praticamente sem uso em nosso idioma.
      A lexicologia da língua portuguesa continua muito complicada, sobretudo para àqueles que não o dominam e não tem o português como idioma oficial.
      Aprendi que o português é um idioma complicado para alguém que não o fala, pois aglutinamos palavras, cortamos o final das expressões, usamos muitas gírias, o que dificulta a compreensão. É o caso de quem fala o espanhol, por exemplo. Ao contrário deles que não compreendem com facilidade o português, o espanhol chega aos nossos ouvidos de forma mais clara. Bem pronunciado, na maioria dos casos, o espanhol tem maior compreensão para nós brasileiros, o que faz com que aprendamos mais rápido.
      Quanto ao obrigado, esta era minha grande dúvida. Por que sentir-se obrigado e, não agradecido?
      Segundo um amigo português, a origem da expressão se deu em Portugal, no século 15. Quando alguém recebia um favor ou préstimos de outro, se dizia: “muito obrigado estou em retribuir os gestos que tu me fizestes”. Daí então, Portugal começou a navegar, a exportar a sua gente e seu idioma, mesclando, por tanto, o português com idiomas dos países que os recebiam. No nosso caso com o Tupi, sofrendo adaptações e aglutinações, levando com que reduzíssemos toda uma frase apenas para a palavra obrigado.
      Essa seria uma das explicações da origem da palavra obrigado. O português é, pois, essa mistura de raças e regiões que falam vários portugueses e nos entendemos como um só povo. Seja o “pequeno” no Maranhão, “Piá” no Rio Grande do Sul ou “maninho” no Acre, o importante é que somos todos brasileiros, muito obrigado.

*Humberto Madeira é estudante de Medicina em Cochabamba (Bolívia)

 

Frederico, o grande

*Heider Moraes

      Na história barra-cordense há poucos, muito poucos nomes em que se possa identificar como figuras exponenciais, para figurarem como verdadeiros fundadores de Barra do Corda. Um deles chama-se Frederico Figueira, um homem de máxima grandeza na acepção melhor da palavra.
      Pois bem, na Arcádia Barra-Cordense tenho-o como meu patrono, um padrinho que muito me inspira, a começar por ter sido jornalista. Anos e anos foi repórter, redator-chefe e editor do mais longevo jornal que circulou entre os barra-cordenses. Chamava-se ‘O Norte’, fundado em novembro de 1888, no final do século 19, que duraria quase meio século. Figueira o comandou por 35 anos. Uma vida.
      Na verdade, Figueira é parte de uma geração fenomenal. Uma geração de ouro, que conseguiu a proeza de unir a parte intelectual, política e econômica. Despontam, em seu tempo, além dele próprio, nomes como de Isaac Martins, Francisco de Melo Albuquerque, Epifânio Moreira e Antonio Rocha Lima, entre outros que praticamente na totalidade quase nada sabemos do que fizeram, mas o pouco é o bastante para dizer que legaram uma vasta influência cultural.
      Essa geração de ouro fundou jornais, escolas, bibliotecas, bandas de música e revelou muitos e muitos talentos, homens e mulheres da qualidade de um Maranhão Sobrinho, nosso poeta símbolo. Mas há ainda desconhecidos vates como Alfredo Assis de Castro e Mariana Luz.
        O primeiro foi um dos fundadores da Academia Maranhense de Letras, mas um e outro inexplicavelmente continuam desconhecidos até mesmo entre os barra-cordenses. E a lista é bem maior, muito maior.
      Um outro trabalho que tem a participação de Figueira é na educação. Por um bom tempo, ali no final do século 19 início do 20, Barra do Corda em termos de educação, tinha bons colégios, era um oásis no sertão maranhense, afirma Carlota Carvalho em ‘O Sertão’, livro bíblia sobre as cidades do centro-sul maranhense.
      Mas em sua vasta biografia, Figueira começa como vereador, torna-se depois promotor público, em seguida é um dos intendentes de Barra do Corda, cargo tal qual o de prefeito. Depois prossegue como deputado estadual, federal, presidente da Assembléia Legislativa e governador do Maranhão.
      Bem certo que na qualidade de governador maranhense passou pouco tempo. Foi governador interino nos idos de 1916, quando quase consegue emplacar a ferrovia que redimiria o sertão. Dos 584 quilômetros projetados para a ferrovia, 40 ainda foram iniciados entre Coroatá, que passaria por Barra do Corda, até Carolina.
      Diz-nos a história que Figueira era um homem magro, pequeno no físico e na altura, tinha pouco mais de 1m50, mas adquirira uma bela cultura, era persistente e detalhista em seus ideais tal qual um gigante na luta pelo desenvolvimento de Barra do Corda.
      Das longas viagens entre a capital Rio de Janeiro até Barra do Corda, entre navios e lanchas, uma certa feita trouxe mudas e mudas de palmeiras imperiais, certamente parentes daquelas que dom João VI plantara no Jardim Botânico na então capital brasileira. Figueira plantou-as em volta da praça Melo Uchoa.
      Há seu tempo foi um homem preocupado com ecologia. Por toda cidade barra-cordense plantara árvores. Além das palmeiras imperiais, tinha preferência por mudas de figueiras, árvores que atraem diversos tipos de passarinhos e transforma as ruas num palco de linguajar poético.
      Sabe-se também da existência de uma boa biblioteca que havia na cidade até a morte de Frederico Figueira. A biblioteca sumiu, desapareceu e não se sabe dos resquícios de notícias do que teria ocorrido com aquele acervo. O que foram feitos dos livros?
      Da mesma forma, quanto às edições do jornal O Norte, que eram publicados em tamanho tablóide e circulava pelas cidades do Maranhão, do Pará e do Goiás, hoje Tocantins. O jornal O Norte era lido na tocantinense cidade de Porto Nacional distante quase mil quilômetros da cidade cordina.
      Na biblioteca Benedito Leite em São Luís ainda é possível encontrar algumas edições d’O Norte. Naquelas páginas foram registradas matérias memoráveis e históricas sobre o ideário daquela geração, que era a derrubada do império e a instalação do regime republicano. Há também artigos sobre o massacre do Alto Alegre, em 1900, quando Barra do Corda se tornaria notícia em todo mundo.
      Frederico Figueira podemos dizer que foi além do seu tempo. A sua doação ao jornalismo, à educação e a cultura é exemplar. Durante 35 anos o jornal O Norte manteve-o em circulação, atravessou a alta do preço da importação do papel por efeito da primeira grande guerra mundial, papel que tinha preço regulado por moedas fortes.
      Em seu tempo, a educação barra-cordense também ganhou qualidade. Nomes como do Colégio Santa Cruz, do Instituto de Barra do Corda, do Externato Maranhense, do próprio Externato Frederico Figueira e a primeira escola pública José do Patrocínio Martins Jorge ficaram gravadas para sempre na história barra-cordense.
      Frederico Pereira de Sá Figueira morreu com 75 anos. Conta-se que a cidade de Barra do Corda parou naquele 8 de julho de 1924 para se despedir do “velho paladino da imprensa”, sublinha Carlota Carvalho no livro ‘O Sertão’. “Homem extraordinário” classificou Dunsche de Abranches no livro “A esfinge de Grajaú.” O professor Galeno Brandes registra em sua obra “Barra do Corda na história do Maranhão” que Figueira era “o príncipe do desprendimento”. O governador Luís Domingues disse: “é um predestinado.”
      Ainda menino, lembro das explicações da minha avó Luzia Araújo Franco sobre aquela sepultura no meio do Campo da Paz em forma de obelisco que guarda os restos mortais de Frederico Figueira. Minha avó discorreu sobre o jornalista que com respeito máximo chamava de ‘Coronel’. Ao relatar como foi a despedida de vida de Frederico Pereira de Sá Figueira disse: “Foi um dos maiores sepultamentos que eu vi em vida”. E completou: “Foi um grande homem.”

*Heider Moraes é jornalista, mora em Brasília (DF) 

 

 

NOTA: Mais artigos, crônicas e poemas: Clique aqui