Memória
A casa mal assombrada
Casa de Perin Smith
na década de 50
Atualmente Cartório Eleitoral
*Álvaro Braga
Um fato intrigante vem acontecendo há décadas, na casa do Canadá, como é mais conhecida, onde atualmente funciona o Fórum Eleitoral, tendo servido outrora como casa do administrador da antiga Colônia Agrícola Nacional do Maranhão, Eliézer Moreira, e onde também funcionou a escola de música do maestro Moisés da Providência Araújo.
Em Barra do Corda muito se falou das almas penadas que apareciam à luz do dia na antiga casa do médico Otávio Lobão, batizada de Itamaraty, no alto do morro da Cruz, na Altamira, de onde se tem a melhor vista da cidade. Os meninos da época que iam atrás de cajá umbu, nas ruínas da casa corriam com medo de vozes e murmúrios. Várias pessoas sonharam com o médico implorando para que pessoas fossem desenterrar um baú cheio de moedas que ele havia enterrado no quintal da casa e que por este motivo o seu espírito estaria vagando e penando por conta do pecado da avareza. Dona Cantionília, mãe de dona Rocilda, chegou a sonhar com o médico, mas nunca teve coragem de ir atrás da botija.
Também disseram que na Igreja da Matriz, e em certo colégio tradicional se ouviam sons de piano a executar sozinho lindas melodias altas horas da madrugada. De certo invencionices da estudantada para amedrontar os alunos novatos, da década de 60 e 70.
Uma casa do centro da cidade, permanece fechada há vários anos, após uma moça morrer enforcada.
Mas o que acontece naquela casa do bairro Incra, o Canadá, se aproxima do bizarro e do escatológico.
O vigia Cícero afirma que coisas muito estranhas acontecem naquela casa. Disseram pra ele que há muitos anos (corre a lenda), no local onde está situado um dos banheiros do casarão foi encontrado um túmulo com uma ossada de pessoa desconhecida. Segundo dizem, seriam os restos mortais de um caseiro desaparecido misteriosamente há dezenas de anos.
Conta ele,que uma certa ocasião, lá pelas dez da noite escutou uma pancada de alguma coisa caindo no chão. Seria algo parecido com o som tábuas ou latas. Ele então foi averiguar e nada encontrou e na volta da cozinha aconteceu algo que lhe fez gelar o sangue: A porta que dá acesso, da sala ao interior da casa fechou violentamente. Algo inexplicável, pois a porta da frente estava fechada, a casa é toda forrada, e sendo assim, não poderia ter sido uma lufada de vento a causa do barulho. Cícero preferiu atribuir a culpa de tais fenômenos a ratos e morcegos que por certo o antigo forro deve abrigar, até mesmo para poder conciliar os seus pensamentos e desviá-los providencialmente de outras explicações demasiado macabras.
Uma senhora que não mais trabalha na casa me garantiu ter escutado barulho de correntes vindos dos quartos que tem a porta trancada.
Pesquisando em um exemplar do antigo jornal O Norte, de 28 de julho de 1923, encontrei um fato curioso, que talvez possa trazer alguma luz sobre os acontecimentos que se verificam naquela casa. Trata-se de uma poesia que Luísa Bastos ofereceu ao querido filho de Perryn Smith que havia morrido naquela casa, ainda criancinha:AO INESQUECÍVEL PERRIN SMITH FILHO
(O Norte, 28 de julho de 1923)Sem ti, Perrin, é triste o meu viver,
Convém não esquecer que o construtor da casa, o canadense Perrym Smith, o primeiro pregador evangélico de Barra do Corda, passou por muitos sofrimentos, além de perder os seus cinco primeiros filhos, por causas diversas. O local era uma mata cerrada e era comum cobras caírem do telhado dentro de sua rede à noite. Nada disso foi suficiente para abalar a fé inquebrantável que aquele homem possuía e que serviu para levar a palavra de Deus por onde quer que ele tenha passado. Até ser preso ele foi, acusado de ter matado seu caseiro, conseguindo provar a sua inocência em seguida.
Gozar, não posso mais, a minha vida,
Sem ouvir a tua voz tão maviosa,
Sem teu doce carinho, Perrin querido.
(Por tua saudosa tia, Luiza Bastos)
Acho melhor terminar por aqui, antes que algum pássaro rasga-mortalha, ou coruja, sobrevoem por aqui, pois se aproxima da meia-noite, horário meio impróprio para assunto de alma do outro mundo. Além do mais senti uns estranhos calafrios enquanto relatava esses fatos. Sinal de que a razão tem razões que a própria razão desconhece.
*Álvaro Braga é cronista e historiador e mora em Barra do Corda
(TB/10jul/2010)