Artigo

Tributo a Almir Neto

jornal Turma da Barra

 

A poeta Angélica Alencar lembra em artigo que há um ano
o barra-cordense Almir Silva Neto foi cruelmente assassinado. 
Uma noite, pela tortura e requinte de crueldade, os barra-cordenses não esquecerão jamais: 
a tortura e a extrema violência desembarcava em Barra do Corda
tal qual a violência aplicada na idade feudal.
Uma noite de terror

*Angélica Alencar


            Hoje eu desejei uma manhã chuvosa daquelas que nos trazem melancolia, daquelas que nos remetem ao “mundo das lembranças”, daquelas que lançam no estranho e indecifrável “vale de lágrimas”, desejei e senti que meu desejo seria atendido, aliás meu desejo era razoável já que esta manhã são para nós tão típicas no mês de dezembro.
            Há quem diga que o poeta é sempre muito desejoso desses “dias frios” por trazerem consigo a inspiração às suas poesias. No entanto, desejei esse clima não para fazer uma poesia, que talvez diria mais do que tento dizer agora.
            Na verdade desejei uma atmosfera de morte, funesta, exatamente igual aquela da manhã do dia 23 de dezembro de 2008, quando a notícia de uma tragédia ecoava pelos quatro quantos da cidade e ninguém conseguia conceber que fosse real um assassinato tão frio, tão repleto de crueldade, que parecia ter saltado dos piores filmes de terror: com tortura, humilhação, um carro em chamas e uma vítima a se consumir no fogo. Um cenário assustador, que nada tinha de ficção, onde o personagem principal do drama fazia parte do nosso mundo real.
            Por que resgatar com tanto detalhe uma tragédia tão angustiante? Não bastaria que se falasse da saudade dos familiares, dos amigos? Não bastaria se argumentar que o principal acusado continua foragido?
            Não basta, quando temos a infeliz constatação de que todos nós estamos nos empedernindo, petrificamos nossa sensibilidade, sem perceber adquirimos uma dormência que nos leva a esquecer rapidamente o que nos fere e que nos agride, tudo aos nossos olhos se torna normal, e por mais que no momento nos cause certa indignação, rapidamente se desfaz, vivemos a modernidade da desumanização.
            Aqui não procuro heróis, vingadores, santos, esses não me servem, são por demais surreais, procuro humanos em sua essência.
            E na verdade o que de mais humano pode se notar em um homem é simplesmente a capacidade de notar a dor do outro.
            Não falo e nem tenho nada a dizer aos familiares e amigos de Almir Silva Neto, e confesso na mais pura sinceridade que não faço parte do rol destes, mesmo porque o amor e a saudade de um verdadeiro amigo há de ser raro, tão quanto o olhar de uma mãe e calor de um abraço de um irmão.
            É para os seres humanos, que não precisam ser nem amigos e nem parentes de alguém que tão cruelmente teve sua vida extirpada, para sentir no peito a revolta, para “sentir” de qualquer forma que seja, e demonstrar também de qualquer forma que seja que as coisas estão erradas, e que a gente não existe pra ser assim.
            Às vezes, e muitas vezes sinto vergonha de me autointitular cristã, como muitas e muitas vezes sinto vergonha de dizer que faço parte de uma sociedade cristã.
            Onde está o sentimento que faz com que nos olhemos como irmãos?
            Onde está o sentimento que me move a dar um passo em direção ao outro?
            Temos medo de um planeta que caminha para a beira do aquecimento!
            Temos medo de doenças que não tem cura!
            Mas será que temos medo de descobrimos que estamos dia-a-dia perdendo a capacidade de sermos humanos?

*Angélica Alencar é poeta, membro da Arcádia Barra-Cordense

(TB31dez2009)

 

 

Poema
Pedaço

jornal Turma da Barra

 

No Dia Internacional da Mulher,
o TB publica o poema Pedaço, de Angélica Alencar
poeta da nova geração barra-cordense,
que alia sensibilidade com reflexão profunda da vida

 


Você é meu pedaço
Meu braço
Parte viva de mim.
Você é minha asa
Minha alça
Onde paro pra ser feliz.
Tudo que desejo é teu peito
Meu leito.

Sossego é ter você aqui...
Vem e enche este quarto de brilho,

Causa-me arrepios!
Teu riso é tudo que quis pra mim.
Nossas vidas já foram atadas
Já nos vejo de mãos dadas

Fazendo inveja ao pôr-do-sol
Vem, que há vidas que não te vejo
E essa, estar se consumindo em desejo
De conhecer esses olhos teus
Há quem diga que isso é só loucura
Que minha vida não pode ser assim tão tua
Que não é nossa essa rua que leva a perfeição
Mas o que pode ser dito quando o corpo da gente perde a razão?
Quando minha alma dormente se deitar no colo teu?
Eu até renuncio as palavras
Só pra sentir a calma
Do teu peito sobre o meu,
Eu nem quero ter rima
Se teu corpo em cima do meu descansar
E sentir o gosto do peso do teu rosto
Colado sobre o meu...
E pedir baixinho pra ter teus carinhos:
Não, não vá agora!
E ter a certeza que no entra e sai da vida,
Nunca irás embora,
Te ver de joelhos
Revelando segredos,
Me ensinando a amar,
Vem ser meu pedaço
Sem você não me acho
Falta o teu abraço
Pra me completar

*Angélica Alencar é poeta, mora em Barra do Corda