Carta
Carta dos bispos maranhenses
jornal Turma da Barra

O TB transcreve carta dos bispos maranhenses,
que ao final de encontro na cidade de Bacabal, para traçar rumos da igreja Católica maranhense
 divulgaram documento sobre a conjuntura maranhense e e eleições de outubro

 

"Carta da XIV ASSEMBLÉIA PASTORAL DA CNBB NE V - Regional do Maranhão

Aos agentes de pastoral, às religiosas e religiosos, aos diáconos e presbíteros da Igreja do Maranhão

“Que o direito corra como a água e a justiça como um rio caudaloso” (Am 5,24)

Nós, Bispos, delegados e delegadas de todas as Dioceses, Pastorais e Organismos da Igreja do Maranhão, reunidos na XIV Assembléia Regional de Pastoral - CNBB Regional Nordeste V - Maranhão, para traçar os rumos da ação pastoral da nossa Igreja, refletimos sobre nossa missão pastoral no momento atual que vive nosso Estado e diante das situações estruturais que atingem um número sempre maior de maranhenses, feridos em sua dignidade e lesados em seus direitos.

Constatamos com tristeza e indignação que aumentam, cada vez mais, as vítimas da exclusão, da corrupção administrativa, da miséria, da fome, do desemprego, da violência, da falta de políticas públicas adequadas que possam garantir a vida, a cidadania efetiva e a dignidade de filhos e filhas de Deus.

Encontramos, no campo e na cidade, não apenas uma situação de pobreza, mas a realidade de um crescente empobrecimento fruto de um modelo de desenvolvimento injusto que atenta à segurança alimentar e nutricional do nosso povo e devasta a floresta e o cerrado.

É o desenvolvimento alicerçado na concentração fundiária e orientado para a produção de carnes, madeira, carvão vegetal, soja, celulose e etanol, em função do mercado internacional.

Não podemos aceitar que os projetos das hidroelétricas, das mineradoras e das usinas siderúrgicas se implantem em prejuízo das populações tradicionais: os camponeses, os posseiros, os ribeirinhos, os povos indígenas, as comunidades quilombolas privados dos meios para reproduzir sua vida e cultura.   

Questionamos este modelo de desenvolvimento que obrigou e obriga milhares de maranhenses a migrar para outros estados, para o corte da cana e a colheita de frutas e verduras, para o desmatamento e a abertura de novas fazendas e para as carvoarias, submetendo-se às penosas e, freqüentemente letais condições do trabalho superexplorado e escravo, em detrimento das suas famílias

Sabemos que, infelizmente, esta ilusão de crescimento e de progresso, que não leva em conta as conseqüências irreversíveis sobre os povos e a natureza, é convicção da maioria dos atores políticos do Maranhão e do Brasil. A inexistência de uma oposição institucional que defenda modelos alternativos viáveis para produzir energia e alimentos sem ferir os direitos das gerações atuais e futuras, agrava este quadro de ameaça constante à vida como um todo e à vida dos povos.  

Este quadro nos indigna, provoca e interpela na nossa missão de anunciar o Evangelho de Jesus, colaborando, em primeiro lugar, na construção do Reino de Deus e da sua justiça (Mt 6,33), para que todos tenham a vida e a tenham em abundância (Jo 10,10).

Por isso, profeticamente proclamamos que a busca de alternativas ao atual modelo de desenvolvimento deve, também, entrar na pauta da política: daquela política que visa o verdadeiro bem comum e que, para os cristãos, é uma das formas mais nobres de viver a caridade.

As eleições municipais que se aproximam não oferecem, aparentemente, a possibilidade de enfrentar temas políticos globais como o aumento do custo dos alimentos, a questão energética, os impactos do agronegócio e o aquecimento global.

São porém, com certeza, uma ocasião imperdível para fortalecermos as comunidades, as organizações e articulações populares e o processo de formação integral dos cristãos. Precisam se mobilizar permanentemente em defesa da vida e para construir novos percursos políticos, a partir de uma consciência renovada e adequada aos novos desafios da história.

Esta é uma prioridade para nossa Igreja, chamada a viver em permanente estado de discipulado e missão, a serviço dos irmãos mais pequeninos, nos quais está vivo Jesus nosso mestre e único Senhor (Mt 25,40).

Este é o Evangelho que devemos seguir e que é a fonte e o critério dos valores que devem iluminar as iniciativas e os projetos políticos que visam à justiça e o bem comum, assegurando a cada pessoa o respeito à vida e às condições de seu pleno desenvolvimento.

Sem diminuir a importância prioritária e legítima da mobilização popular e do exercício direto do poder, conforme a Constituição Federal, sabemos que as eleições são um meio significativo para que o nosso povo possa manifestar livre e democraticamente a sua vontade. Não podemos, por isso, aceitar que o povo sofra violências e pressões e seja perseguido por exercer o direito e a liberdade de votar. Como, também, não admitimos que ele seja usado e manipulado pelas falsas promessas de alguns políticos e candidatos.

É parte integrante de nossa missão pastoral, formar cidadãos e cidadãs conscientes de sua responsabilidade de votar e votar bem, tendo presente que seu voto não tem preço, escolhendo com cuidado seus candidatos. Que sejam conhecidos e engajados na comunidade, tenham uma história de trabalho e iniciativas em prol do desenvolvimento da comunidade, sobretudo dos mais necessitados e possuam as qualidades que a memória do povo de Deus, há séculos, nos indica: “pessoas capazes, tementes a Deus, seguras e incorruptíveis” (Êx 18,21).

Combater a destruidora corrupção eleitoral é outra prioridade para as nossas comunidades e uma obrigação urgente para todos os cristãos. Nos nossos municípios, participaremos dos Comitês contra a Corrupção Eleitoral, fruto maduro e eficaz da Lei 9840/99 e colaboraremos com o Ministério Público e o Poder Judiciário para a lisura do processo eleitoral.

Quem compra votos, sempre e sem dúvida alguma, será um administrador corrupto que confunde o bem e o patrimônio público com os interesses pessoais e familiares e que, cinicamente, constrói um destino de exclusão, fome e doenças para os mais pobres.

Vender nosso voto é escolher um caminho de morte. Escolhe, pois, a vida: não entreguemos aos corruptos o poder.

Bacabal, 5 de julho de 2008"

(TB/17/jul/2008)