Artigo
O chá nas letras
jornal Turma da Barra

 


Da esquerda para direita, os acadêmicos Benedito Buzzar, Joaquim Campelo, 
Mílson Coutinho, Brito, Ceres Costa e Jomar Moraes

*Francisco Brito


            A origem do chá remonta ao século XVI na China pelo imperador Shên
            Nung, que depois de longas viagens sentava-se debaixo de um arbusto a beber água quente, ideal para saciar a sede por ser mais bem absorvida pelo corpo do que propriamente as bebidas frias. Enquanto ele bebia, caiam folhas dos arbustos em sua caneca proporcionando na água um aroma e sabor agradáveis. Assim, o imperador levou essa ideia para a cidade. Logo os chineses, além de adotarem em sua culinária, associaram o chá à beleza, paz de espírito e um complemento essencial do convívio.
            Em 1830 o chá foi introduzido na Inglaterra pela Duquesa de Bedford. Era a oportunidade para exibir peças raríssimas de porcelana e prata da corte real inglesa. Desde então, foram criadas regras de etiqueta para o serviço de chá e receitas que fariam parte do cardápio como: torradas, geléia, bolos e uma variedade de biscoitos finos e pãezinhos. Daí, surgiu o famoso five o’clock tea britânico.
            No Brasil conhecemos o chá como alívio para algumas perturbações físicas e para desestressar. Ou, simplesmente consumido pela high society. Existe também, o “chá das cinco” acadêmico.
            Diante de breve exposição desta saudável bebida, quero, aqui, me ater ao elegante chá na Academia de Letras. Pois bem, no último dia 22, a convite do companheiro da FALMA, escritor Álvaro Urubatan, estive participando do “chá das cinco”, que acontece semanalmente às quintas-feiras na AML. Por conseguinte, fui bem recebido pelos pares que estavam presentes àquela reunião, que para mim, ficará guardada como uma lembrança indizível.
            Desde que descobri o meu pendor para as letras, nutria o desejo de conhecer o alto sodalício maranhense e de participar deste charmoso evento, cognominado de “chá das cinco”. Conheci a Academia Maranhense de Letras, através do saudoso amigo, Antônio Almeida, quando ele ingressara em 1986 numa sessão memorável, pois, era a primeira vez que um pintor estava sendo acolhido nos luminares da AML. De lá pra cá, estive em vários eventos naquela insigne agremiação literária.
            Mas, o que realmente ocorre nesta reunião, além, é claro, regado a quitutes, cafezinho, refrigerante e sucos, são temas relacionados às questões da entidade, tais como: alvos a serem estipulados. Ideias e discussões que fazem das Academias de Letras funcionarem plenamente. Disto, infelizmente a nossa querida Academia Barra-Cordense está deveras precisando. Urge-se a necessidade da ABL sair do ostracismo. Da inércia. É inadmissível uma instituição de natureza literária, não promover sequer um evento por ano, como por exemplo: leitura na praça, concursos literários ou até mesmo lançamentos de livros.
            Ao final, satisfeito, conheci in loco um busto todo em bronze do poeta Gonçalves Dias, doado por um empresário baiano, depois de resgatá-lo de terras camonianas.
            Gentilmente, o presidente Milson Coutinho me cedeu a palavra pela qual expus minha breve biografia e citei o poeta Olímpio Cruz, o pintor Almeida, o Turma da Barra e a própria ABL, onde recebi do escritor Jomar Moraes a informação de que a AML reeditará Canção do Abandono, marco inicial da poesia de Olímpio, no dia 6 de agosto próximo nas festividades dos 102 anos de fundação da Casa de Antônio Lobo. Assegurou ainda, que fará uma doação de 200 exemplares desta reedição para a nossa Academia.
            Após as fotos de praxe, em meio aos maiores intelectuais da atualidade maranhense, ainda fui agraciado com cinco obras de poetas e escritores da AML, que oportunamente doarei para a biblioteca da ABL. Saí de lá esfuziante na certeza de que o meu desejo, pelo menos de uma hora e meia, havia se completado e com a convicção de que naquele lugar, ainda inala-se, sobejos dos odores dos Jardins de Academus.

*Francisco Brito é membro da Academia Barra-Cordense de Letras e Conselheiro da Federação das Academias de Letras do Maranhão

(TB/29jul2010)


Mílson Coutinho, Montalverne Frota, Carlos Lima,
 Benedito Buzzar, Joaquim Campelo, Brito e Jomar Moraes


Montalverne Frota, Carlos Lima, Benedito Buzzar, Joaquim Campelo,
 Ana (funcionária da AML), Brito e Jomar Moraes

 

 

 

Artigo
Comissão pró-UFMA reúne-se com o reitor
jornal Turma da Barra

*Francisco Brito

         A Comissão Pró-UFMA-Barra do Corda, formada pelos professores Edmar Marques e Aldaléa Brandes, o economista Mário Hélder, o engenheiro Cézar Braga, o poeta Francisco Brito, a mestra em literatura e língua portuguesa, Maria Inez Queiroz, o médico Marcos Pacheco, o capelão monsenhor Hélio Maranhão, e representando a classe política, o deputado estadual Rigo Teles, se reuniu na tarde desta terça-feira, no Campus Universitário daquela Instituição de Ensino Superior, com o reitor Natalino Salgado Filho, para a entrega do dossiê, constando de abaixo-assinado e depoimentos colhidos na sociedade cordina e publicados no jornal Turma da Barra, contendo ainda, uma solicitação ao Magnifíco Reitor, para a instalação de um campi avançado em Barra do Corda. 
         Aberta a reunião a professora Aldaléa usou da palavra para destacar a sua satisfação em estar participando de um evento desta magnitude, ao mesmo tempo, em que discorreu de sua trajetória na UFMA como pesquisadora tecendo elogiosas críticas a iniciativa dos companheiros deste relevante empreendimento.
         Em seguida, vários oradores se revezaram entre eles: Mário Hélder, que enfocou a importância para o ensino superior em Barra do Corda. Marcos Pacheco, por sua vez, destacou que a cidade barra-cordense, possui o maior assentamento rural da América Latina, ressaltando ainda, que ao abraçar essa luta, deixaria de lado as divergências políticas. 
         O deputado Rigo Teles reafirmou endossando as palavras de Marcos Pacheco, quanto às questões políticas. Assinalou que o prefeito Nenzin, que estava em trânsito, garantia a aquisição de um terreno para a construção do prédio do campi. 
         Mereceu destaque a oratória de mons. Hélio Maranhão que enalteceu os vultos culturais da terra cordina, enfatizando o valor inestimável com a chegada da UFMA em Barra do Corda. 
         Por fim, o Magnifíco Reitor explanou de forma realística  a viabilização concreta de um empreendimento desta envergadura. Alertou para a elaboração de um projeto onde conste, inevitavelmente, as características da
cidade para a implantação dos cursos. Assegurou que irá criar uma comissão, onde solicitará um consultor do MEC, além de designar a professora Aldaléa para integrar essa comissão para acompanhar o processo de implantação da Universidade no município. Determinou que haverá um novo encontro com a Comissão Pró-UFMA-Barra do Corda, na última semana de janeiro vindouro.

Francisco Brito é poeta e membro da Comissão Pró-Instalação da UFMA em Barra do Corda.

(TB23dez2009)

 
Cem anos de Olímpio Cruz
jornal Turma da Barra

 

* Francisco Brito



            Se vivo estivesse, Olímpio Cruz, apontado como um dos poetas mais importantes da literatura barra-cordense de todos os tempos, estaria completando nesta terça-feira cem anos de existência. Autor de Canção do Abandono, dentre outras obras, Olímpio Martins Cruz, nascido aos 20 de outubro de 1909, na fazenda Soledade, então povoado de Barra do Corda, foi indigenista, sertanista, escritor, letrista, professor, funcionário público do extinto Serviço de Proteção aos Índios - SPI, hoje FUNAI.
           
Autodidata, porém um mestre nos versos alexandrinos, não dispensava uma rima, quer seja nos sonetos ou em versos soltos,  tudo que a pena da sua caneta escrevia, estava inserida a sua alma. Muito comumente aos verdadeiros poetas do passado. Entretanto, o que destacava sua verve poética foram os arranjos formais e a preocupação com a estética na busca da “verdade absoluta”.
           
De aparência frágil, e homem simples, Cruz foi incansável e destemido “guerreiro” das “velhas tabas”, dos Canelas, Guajajaras, Timbiras, entre outras. Vivenciou e se identificou com a raça aborígene. Destas experiências, por mais de duas décadas, sorveu um vasto material que lhe valeram várias honrarias. Foi um dos ilustres maranhenses mais festejados e agraciados por tudo quanto contribuiu como escritor, poeta e, acima de tudo, como humanista.
           
É o único maranhense detentor da Medalha Nacional do Mérito Indigenista, na categoria Pacificador, concedida pelo então Ministério do Interior. O livro Lendas Índigenas, de sua autoria, está traduzido para o inglês pela universidade do Colorado, EUA. Ganhou Menção Honrosa no Concurso Literário Cidade de São Luís, na categoria Erudição, pela obra Quatro Dialetos Indígenas do Maranhão, além de vários prêmios em concursos de poesias.
           
Percorrendo as ruas da Rebelde Ilha de São Luís, visito o Centro de Pesquisa de História Natural e Arqueologia do Maranhão, por lá encontro dois livros que registram a marca do poeta cordino. No pequeno apontamento de Índios do Maranhão(1977, 19 pág.) aparece  referências suas como indigenista, ao lado de renomados sertanistas, etnógrafos e historiadores maranhenses. No segundo livro, Aspectos da Literatura Maranhense(1985), de Carlos Cunha, o vate “das alterosas barra-cordenses” tece elogiosa crítica ao grande poeta da boemia ludovicense.
            Subindo ladeira acima, na rua do Giz, depois alguns anos, retorno ao Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho, na biblioteca Roldão Lima, bastante modificada, por lá se encontram duas obras de Olímpio Cruz. O raríssimo livro Puturã, 1946, e Clamor da Selva, 1981, ambos narrando os costumes, a cultura e o cotidiano dos “irmãos” da “genuína raça brasileira”.
            Ao analisarmos a obra olimpiana, devemos senti-la como vestes de auroras, tangendo as harpas e ouvindo o marulhar das ondas consonantes dos versos expostos, incorrigivelmente, da sua ardente alma cordina que, exultantes, vemos no refrão da Canção Cordina: “...Barra do Corda, amor de minha vida,/És tudo para mim terra querida,/Teu róseo coração./Tens em teu seio um mundo de poesia,/Tens o aroma das selvas tens magia./Princesa do sertão.”
            Como também, registrando os folguedos nos terreiros silvícolas, onde sentimos o cheiro do mato e visualizamos as cenas de enlace matrimonial de Puturã e Koré: “Sertão. É noite de luar e frio,/Arde-se freme, ali pela floresta.../Bem perto a um fogo, com valor e brio,/Robustos índios dão de sinal de festa!/São eles, -os Canelas – gente mansa,/Os selvagens de amor e sentimento,/Os filhos nus da Pátria da esperança,/A festejar também um casamento...”
            Ou ainda, enternecido pelos aborígenes, exalta-os se aliando ao virtuoso sentimento gonçalvino: “Sois vós os índios de viver mais puro,/herdeiros no presente e no futuro/dos versos de ouro de Gonçalves Dias!”
            Vemos também, a tristeza inconsolável da tribo num momento da mais pura dor. A perda de um dos seus, registrado no poema Índio Morto: “Ei-lo, tão magro, morto, desprezado,/Tendo por leito esfarrapada esteira,/Ele que é tudo, o filho mais sagrado/Da genuína raça brasileira”.
           
Constatamos, que o poeta, naquela época, já se preocupava com a devastação da natureza e suas evidentes conseqüências, como nos dois tercetos do soneto, Queimada de Agosto: “É, pois do homem a mão rude e malvada,/o crime horrível de fazer queimada,/a destruição do verde e da beleza./Despertemos,é muito cedo ainda,/pode o deserto ser paisagem linda,/se cumprirmos as leis da natureza!”.
           
Em outra faceta, nos comovemos com seus versos de um sentimentalismo pungente e sensível, quando Olímpio, o filho-poeta, declara o amor incondicional, como vemos nos dois quartetos do antológico soneto maternal: “Mãe! Tu que um dia me guiastes os passos,/Os meus primeiros passos nesta vida,/Ó! Tu que me sustinhas em teus braços,/Olha... Vê o teu filho, Mãe querida!/Olha, e o verás, exausto, os membros lassos/O corpo destroçado e alma ferida,/Ferida pelos golpes e fracassos,/E as mágoas que me arrastam de vencida.”
   
         Após sua morte, há 13 anos, pouquíssimos poetas surgiram no cenário nas letras barra-cordenses. Poetas com letras maiúsculas. Porque Olímpio Cruz sabia e vivia intensamente sua lide poética. Não tinha medo de expor seus apelos do coração. Escancarar suas verdades e a sua alma. O que lemos atualmente, em termos da verdadeira poesia, sobra técnica e faltam sentimentos. Existe um exagerado academicismo na “aura” dos escolhidos de academus.
            Assim, contrariando as virtuosidades das linhas tênues da escrita, Olímpio Cruz, figura no seleto conceito do poeta Keats: ”que amava a beleza acima de todas as coisas, e se tivesse tempo se faria apenas um pouco lembrado”.

* Francisco Brito é poeta, membro da Academia Barra-Cordense de Letras e Academia Brasileira de Estudos e Pesquisas Literárias

(TB/20/out/09)