TB Especial

20 anos sem Zé Arruda
O Duque de Giz

jornal Turma da Barra

 

 


José Nogueira Arruda
Duque de Giz

 

Neste domingo, 30 de dezembro de 2007,
José Nogueira Arruda - o Duque de Giz -  completa 20 anos do seu falecimento.
Naquele final de ano de 1987, Zezé Arruda tinha 70 anos.
Atualmente, caso estivesse vivo, estaria com 90 anos.
O TB faz a partir deste domingo (23) uma imersão no tempo
para contar um pouco da vida e obra desse barra-cordense misto de empresário, historiador, jornalista, orador e poeta.
Um emérito apaixonado pela boemia, festas e carnavais.
Um filósofo do bem viver.
Casado com dona Guaracy Milhomem,
deixou dois filhos (Dênis e Ana Luísa) dois netos (Tiago e Felipe),
e o Castelo de Giz cheio de boas e lendárias histórias.
O TB convidou amigos, jornalistas, historiadores,
intelectuais e familiares para contar um pouco
do significado para Barra do Corda destes 20 anos
sem José Nogueira Arruda
- o Duque de Giz.

 

 

DUQUESA DE GIZ
"QUERIA IR PRIMEIRO"

 


            O TB esteve no Castelo de Giz com dona Guaracy Milhomem Arruda no domingo 30, exatamente no dia do falecimento, há 20 anos do seu marido, José Nogueira Arruda, o Duque de Giz.
            Ao responder a primeira pergunta sobre a dor da saudade destes 20 anos, chorou e disse: “Queria ir primeiro do que ele” (referindo ao Duque).
            Depois explicou que o sofrimento foi muito grande. O marido Zezé Arruda fez muita falta. Não apenas perdeu o marido exemplar, mas também perdeu o companheiro, o amigo, “um pai para mim”.
            Para melhor exemplificar, disse que Zezé “era tão bom”, que até o salário dela de professora, ele mesmo se incumbia de pegar no banco do estado do Maranhão e ao chegar ao Castelo, dizia: “Guaracy, aqui está o seu salário.”
            Ao falar do seu casamento, em 22 de abril de 1952, disse que foi na igreja Matriz, mas não conseguiu lembrar do nome do padre. Mas logo depois da cerimônia, dirigiram-se a casa do pai, Manoel Milhomem, em seguida houve uma surpresa: o amigo Éden Salomão preparou o Castelo para recepcioná-los, trazendo da casa da sua mãe, Emerenciana, popularmente dona Pulu, várias taças. Na saudação ao casal, os amigos quebraram as taças.
            Também explicou a origem do nome Castelo de Giz, em decorrência o nome do próprio Duque de Giz. É que havia um amigo do Zezé, caixeiro-viajante, que vendia remédios e outras mercadorias que sempre se hospedava na casa do Zezé.
            Certa feita, o caixeiro-viajante ouviu a queixa de uma ex-namorada de Zezé Arruda, chamava-se Terezinha, que amargurada pela não visita do namorado, protestou: “Ele deve estar repousando em seu castelo de giz.”
            O caixeiro-viajante então se inspirou e de outra feita trouxe de São Luís a plaqueta com o nome “Castelo de Giz”, que fora afixada na entrada do casarão. Como todo Castelo tem um nobre, logo Zé Arruda foi batizado de Duque de Giz.
            Dona Guaracy lembrou que dias após o casamento, desceram o rio Mearim até Pedreiras de lancha, e lá se hospedaram no hotel de dona Maria José. Foi naquela cidade que o casal passou a lua de mel.
            Contou da viagem até Buenos Aires, na Argentina, em 1977, que foi feita de ônibus, passando por Brasília e Porto Alegre. Observou que achou tudo muito bonito, mas o frio foi “horrível”.
            Ao falar da viagem, ela se emocionou também, porque quando estava em Juiz de Fora (MG), soube da morte da sua mãe, dona Joaninha Milhomem. Zezé confortou-a e disse: “Guaracy, eu queria que você soubesse apenas quando estivéssemos na Barra, porque você iria ficar triste.”
            Disse também que o Castelo recebeu vários hóspedes ilustres. Quando governador e depois senador, o ex-presidente da República José Sarney por várias vezes dormiu no Castelo.
            Outros hóspedes foram o ex-governador Cafeteira, o vice-governador, general Arthur Carvalho (seu primo), o senador Lobão, o deputado federal, Pedro Braga Filho e a própria Roseana Sarney fez no Castelo reuniões políticas.
            Dona Guaracy ainda relembrou as festas, das várias festas no Castelo. As poesias que seu marido gostava de declamar, provenientes de Maranhão Sobrinho, Castro Alves e de um poeta de Grajaú, Raimundo Guará. Os poemas “Flor da Jitirana”, “Sóror Teresa” e “Rosas” de Maranhão Sobrinho por várias vezes o Duque declamou-as. Não esquece de um trecho de um poema: “O amor inteiro é nobre/ vale um trono.”
            Na música, também o Duque de Giz fez peças. Compôs com o maestro Moisés da Providência a música intitulada “O amor tem seus sonhos”.
            Ao posar para uma foto, ao lado dos filhos Ana Luísa e Denys, da nora Elisa e amigos que estavam no momento da entrevista no Castelo, Pavão e Henrique Orleans, dona Guaracy observou que o Duque pedia que não queria que
nada se mudasse no Castelo. Na despedida da entrevista, novamente se emocionou: “Ele vivia para atender o que eu que queria”.

NR: Com esta entrevista, o TB encerra a página especial sobre José Nogueira Arruda - o Duque de Giz - agradecendo todo apoio dos familiares, dos amigos e dos admiradores do Duque. Particularmente, para a redação do TB, foi um momento especial, em certos momentos às vezes nos emocionava resgatar e registrar tantos fatos que estão nos anais históricos barra-cordenses, sobretudo os fatos em que o ensinamento e a alegria predominavam. Muito obrigado a todos. (Barra do Corda, 31 de dezembro de 2007)

 

 

CARTA DO FILHO DENYS
AO PAI JOSÉ ARRUDA


Barra do Corda, 30 de dezembro de 2007

Meu querido pai:
José Nogueira Arruda

            Depois que inventaram a internet há muito na pegava na “caneta” para redigir uma carta a um amigo. É que com o desenvolvimento das comunicações tudo que conhecíamos há 20 anos foi por água abaixo.
            A pedido do nobre jornalista do Turma da Barra, Dr. Eider Moraes, que nos visitou por várias vezes – como faz sempre que está em nossa terrinha, resolvi pegar a “caneta”, hoje computador, para lhe escrever esta cartinha.
            Tenho certeza que aí por onde estás não deve haver internet. Mas esta mesma certeza me leva a crer que o Criador lhe permite algumas pinceladas de informação sobre a Barra do Corda e todos os seus.
            Hoje, completam 20 anos da sua partida, quando o arquiteto do universo o convocou. Tudo mudou muito por aqui.
            Para início de história, o senhor partiu seis meses antes do seu primeiro neto nascer, o nosso amado Thiago. 13 anos depois, Deus nos mandou o estimado Filipe, também seu neto. Vieram ocupar lacuna, mesmo inocupável, que você deixou.
            Sim, esqueci de lhe dizer para ler o Turma da Barra, jornal que atualmente lhe tece uma grande homenagem pela passagem dos seus 20 anos fora da gente. São pessoas de alto conhecimento. Mas, principalmente, são pessoas de um coração infinito. Do tipo recomendado pelo Criador. Espero que gostes, porque eu amei. Se puderes se comunicar, diga a eles que estou profundamente sensibilizado, assim como minha mãe, Guaracy, minha esposa Elisa e seus netos. Tendo alguma entrevista com o arquiteto do universo, queira lembrá-lo para, com seu manto protetor, que ilumine toda Barra do Corda e em especial o Turma da Barra, sem esquecer seus colunistas. Eles são pessoas de profundo conhecimento e, com certeza, todos residem no coração do seu filho.
            Como estou redigindo esta com o Dr. Eider nos aguardando na sala do Castelo de Giz – já que estive uns dias em viagem de trabalho, não posso me estender mais. Ele precisa de uma cópia desta carta para colocá-la no Turma ainda agora.
            Outra vez eu te escrevo. Sim, meu pai. Aquele sonho que você tinha de ver a BR-226 asfaltada, foi realizado. Preste atenção: de Presidente Dutra a Barra do Corda gasta-se somente 55 minutos. Só que tem muito jumento fazendo reunião.
            Vou terminar porque Dr. Eider e equipe acabam de bater à porta do nosso escritório/quarto dizendo que o tempo exauriu-se.
            Fique com Deus meu pai querido. Nós te amamos profundamente, apesar de parecer pleonasmo para poucos.

Denys Milhomem Arruda

 

 

ALEGRIA É COISA MUITO SÉRIA

*Heider Moraes


            Decorridos 20 anos do falecimento de José Nogueira Arruda, a pergunta que vem de imediato é: Qual a contribuição que ele deixou a todos nós barra-cordenses? Sem dúvida o legado da palavra alegria em toda sua extensão.
            Estes dias em que o TB presta homenagem ao Zé Arruda é natural se ouvir nas ruas da Barra histórias e estórias que lembram alguma passagem, uma espécie de saudade boa, onde a narração de algum fato relacionado com o Duque tem um final pleno de alegria.
            Vamos a alguns exemplos. O Azevedo Filho, que adolescente se tornou “secretário” e amigo do Duque, contou-nos que todo final de tarde, em frente ao Castelo de Giz, havia o “vira-vira”. Uma reunião informal, acompanhada quase sempre de cerveja saboreada com carne assada.
            Pois bem. Os membros do “vira-vira” tinham cadeiras cativas, praticamente não se alteravam. Era o próprio Duque, o filho Denis, cabo Mandi, Serjão da Chicuta, Azevedinho, cabo Agenor, Aldetan Torres, Deurivan, Raimundinho Pacheco, dom Milton Nava e o comandante e gerente Pavão.
            Quando chegava alguém que se sabia que era apenas para filar a carne assada, o Duque sacava imediatamente a senha com uma diplomacia invejável para a exclusão do intruso. Chamava com voz altiva e educada uma das crianças da redondeza e dizia: “Serginho, vá à oficina do seu pai (Serjão) e traga o ferro de soldar”.
            O ferro de soldar, explicou-nos Deurivan Martins, ficaria ardendo nas chamas da “Infeliz Perpetinha” até quando o indesejável dava adeus ao “vira-vira”. “Infeliz Perpetinha” era o nome que o Duque batizara a churrasqueira, numa alusão ao sofrimento da personagem histórica do massacre do Alto Alegre, em 1901, a qual teria sido levada pelos indígenas, que romanticamente escrevia nas árvores frondosas: “Aqui passou a infeliz Perpetinha”.
            Ornilo Melo, que foi gerente do então banco do Estado do Maranhão, lembra do Zé Arruda visitando-o diariamente. Na sua mesa de trabalho, era também informalmente a mesa de despacho do Duque. Pavão, amigo e “secretário” do Duque entrava e saia do banco e quando concluía um negócio, dizia: - ‘Duque, aquela pendência do aluguel de fulana foi resolvida’. Ou então: - ‘Fulano pagou 20 que faltava do aluguel’. E assim, ia-se tocando a vida. Depois de passarem à manhã no banco, era sagrado o Duque e Pavão bebericarem umas quatro a seis cervejas antes do almoço.
            Cabo Mandi , por sua vez, conta uma história muito engraçada. Certa feita, uma inquilina estava dando trabalho para pagar o aluguel. Duque acompanhando do Mandi, fiel ‘secretário’, bate palmas em frente à casa da inquilina:
            - Bom dia, Maria Romério, disse o Duque.
            - Bom dia seu Zezé Arruda. Oh seu Zezé como o senhor está parecido com o cantor Roberto Carlos!...
            Essa comparação com o cantor famoso foi crucial para o Duque deixar de cobrar o aluguel de Maria Romério.
            Horas depois, o Duque explicava para a esposa Guaracy o que tinha acontecido com a Maria Romerio:
            - Guaracy, como eu posso cobrar uma senhora que me compara com o rei Roberto Carlos?!... E completava: - Até disse a dona Maria Romério: - A senhora também é muito bonita, observou o Duque.
            O atual vice-prefeito barra-cordense, Aristides Milhomem, sobrinho do Duque, cita uma passagem em que o Duque para desestimular um possível casamento do filho Denis, na época um adolescente apaixonado, alertava:
            - Casei com 36 anos. Amo minha mulher. Não me arrependi. Mas acho que assim mesmo casei cedo.
            Aristides ainda cita as aventuras do Duque com o inseparável “colega” William Fiqueira, descendo e subindo rio Mearim, à procura de festas. “Zé Arruda era um homem que adorava festas boca-livre”. E conclui: “Mas o que fica na lembrança, para sempre, era a figura humana fina e simples, preocupado com o semelhante e muito leal aos amigos.”
            Para traçar o perfil de cidadão e político, Aristides diz que o Duque foi coerente na política, direitista e monarquista. Na sua casa, não aceitava fuxico, era proibido se falar mal das pessoas. Era um excelente anfitrião. Sabia como ninguém receber uma pessoa, um hóspede. E saber receber, frisa Aristides, é uma arte.
            Governadores, deputados federais e estaduais se hospedaram no Castelo de Giz. O então governador José Sarney foi várias vezes seu hóspede. Aristides lembra que uma certa vez o Duque disse com humor e elegância: “Sarney hospeda-se no Castelo, mas só atende aos pedidos do Galeno.”
            “Duque era uma figura de um carisma e inteligência ímpar. Sempre espirituoso, não tinha inimigos”, frisa Aristides.
            Há uma outra passagem que mostra o tirocínio de um homem pragmático, que apreciava as decisões humanas. Certa feita, chama Roberto, de uns 12 anos de idade, que o Duque apelidara de ‘Profundeza’, filho do cabo Olímpio, e pede:
            - Profundeza, pegue o balde, vá ao bar do Zé Dino e traga meia dúzia de cerveja Antártica.
            Profundeza voltou de mãos vazias, dizendo que não havia cerveja Antártica, somente Brahma.
            Zé Arruda com ar pragmático, ensina: - Profundeza, quando eu lhe mandar comprar tal cerveja, se não tiver aquela, compre outra, caso não tenha a outra, compre cachaça, mas resolva o problema. Não volte ao Castelo sem ter resolvido o problema.
            Era assim o Zezé Arruda. Um dos meus tios, Carlos Augusto Araújo Franco, foi amigo do Duque desde a adolescência e essa convivência durou por toda vida. Para Carlos Augusto, as festas de natal no Castelo de Giz são inesquecíveis. Zezé Arruda em discurso de saudação de natal declamava poemas de Maranhão Sobrinho, Castro Alves e de Pedro Braga.
            Carlos Augusto também sublinha o gosto especial do Duque pelos nomes pomposos. Lembra que o dele próprio era “Príncipe das Duas Ilhas, Araticum e adjacências”. O de Sidney Milhomem era “Senhor das Terras de Belo Horizonte, Passagem Rasa Príncipe de Belém e adjacências”. Pavão: Senhor das Terras da Jitirana, Passagem Rasa, Sujapé e adjacências” Lourival Pacheco era o diretor do Castelo de Giz. E havia outros amigos com títulos monárquicos: Cláudio Roland, José Americano, Antonio Pacheco e Éden Salomão.
            Entre as frases que ficaram gravadas em sua mente, Carlos Augusto não esquece esta: “Uma palavra bonita agrada nem que seja uma palavra mentirosa.” Lamentando os 20 anos da partida do amigo, Carlos Augusto resume: “Barra do Corda sem o Zé Arruda, a metade de Barra do Corda sumiu.”
            Mas o Duque não se resumia ao mundo de Barra do Corda. Gostava de ler jornais e viajar. Na adolescência estudou em São Luís, inclusive com o ex-governador Renato Archer. Casado, passava temporadas no Rio de Janeiro e uma certa feita alcançou Buenos Aires, na Argentina, em férias em 1978 com toda família.
            No jornalismo, trabalhou no jornal O Imparcial e gostava de citar que entrevistou o presidente argentino Juan Domingo Perón quando passava pelo Maranhão rumo ao exílio no México. Nas edições do jornal ‘O Pássaro’ era uma espécie de presidente do conselho editorial, orientando o filho Denis Arruda e Antonio Carlos Lima, o Pipoca, sobre os segredos jornalísticos.
            Mas ainda quero registrar uma história que o Alcides ‘Gerardi’, o sobrenome também é obra do Duque. Alcides, filho mais velho do cabo Olímpio, também viveu sua infância no Castelo. Alcides tinha por volta de 14 anos de idade quando essa história ocorreu.
            Certa feita, o ‘secretário’ Alcides fora escalado para um passeio na voadeira “Cisne Branco” com um dos sobrinhos do Zé Arruda, o Tenison, que de Brasília estava em férias escolares na Barra.
            Pois bem. Navegando no rio Corda, perto do balneário Mete-Mete, onde as águas são rasas, Zé Arruda com voz de marinheiro-mor e capitão de mar em guerra, ordena. “Meu sobrinho, pule n’água”.
            Tenison pegou n’água e de pronto respondeu: “Tio, a água ‘tá fria, pulo não”. Imediatamente, Zé Arruda, ordena: “Marujo Alcides, lasca o remo nas costas dele”. O Alcides levantou o remo, o sobrinho pulou n’água.
            É certo que o Castelo de Giz era uma casa que transparecia sempre está em festa. As férias de julho, de final de ano, o Castelo recebia muita gente. No carnaval, nem se fala. Zé Arruda e a Duquesa de Giz recebiam muitos sobrinhos de Brasília, de São Luís, de Fortaleza que se hospedavam no casarão do Giz.
            Assim, escrever sobre o Zé Arruda é de uma riqueza de histórias sem tamanho. Praticamente todas com a característica e a simbologia da alegria. Despeço-me deste artigo, pedindo desculpas as gerações antes do Duque, os seus avós e pais, a atual sob o comando da dona Guaraci, esposa e Duquesa de Giz, aos filhos Denys e Ana Luíza, a Elisa, esposa do Denys, aos netos Thiago e Filipe, herdeiros e sucessores, para dizer que o Castelo de Giz ainda conserva na totalidade a imagem do Zé Arruda, mesmo após 20 anos da sua morte.
            O velho Castelo continua a ostentar beleza ímpar e graciosidade. E para sempre, a história do José Nogueira Arruda se confunde com a palavra alegria. Permita-me, então, caro Duque de Giz, adaptar uma das suas famosas frases: alegria é coisa muito séria. Não se pode acabar por qualquer motivo.

*Heider Moraes é jornalista

 

 

CASTELO DE SONHOS

*Lourival Pacheco


            No Castelo de Giz, de propriedade de José Nogueira Arruda, participei de várias festas, onde na época, fui nomeado diretor do Castelo de Giz.
            Tempos depois, assumi a gerência de uma casa comercial, também de propriedade de Zezé Arruda, localizada na rua Formosa, hoje rua Frederico Figueira, onde mantivemos tal negócio, por cerca de quatro anos.
            Na qualidade de diretor do Castelo, promovíamos muitas reuniões, várias homenagens a barra-cordenses, como seja: membros do castelo, despedida de solteiro, aniversários e casamentos.
            Na beira-rio do Castelo, fora inaugurado um terraço, no qual foi feito uma homenagem a Lourival Pacheco e sua então noiva, Julia, pela despedida de solteiros, comparecendo na ocasião, todos os diretores do Castelo, bem como vários convidados, cuja data fora em janeiro de 1952.
            Empreendemos várias viagens ao Sertão, com Zé Arruda e outros amigos, onde fazíamos inaugurações de beira-de-brejos, locais pitorescos, latadas, uma verdadeira contemplação às paisagens sertanejas.
           
Enfim, tomávamos conta dos acontecimentos sociais da época, tanto no Castelo de Giz, como fora de lá. Hoje nos resta apenas lembranças, lembranças saudosas e inesquecíveis desses acontecimentos e eternas saudades de um homem que deixou uma grande lacuna em Barra do Corda – JOSE NOGUEIRA ARRUDA.

*Lourival Pacheco foi prefeito de Barra do Corda

 

 

AS FRASES QUE PERMANECEM VIVAS

 


“A farra é igual casamento. É coisa séria. Não pode acabar por qualquer motivo.”
(do Duque, segundo Mandi Brasil)

“Uma palavra bonita agrada nem que seja uma palavra mentirosa.”
(do Duque, segundo Carlos Augusto Araújo Franco)

“Casei com 36 anos. Amo minha mulher. Não me arrependi. Mas acho que assim mesmo casei cedo.
(do Duque, segundo Aristides Milhomem)

“O importante não é ser rico, é ter a vida de rico.”
(do Duque, segundo Carlos Augusto)

“Deus é verbo e verbo ser.”
(do Duque, segundo Aristides Milhomem)

Sobre o dia de Finados
“Não vou ao cemitério, porque lá vou estar para sempre”
(do Duque, segundo Lourival Pacheco)

Sobre o direito ao contraditório
“Aqui no Castelo existe a sua verdade e a verdade dos outros.”
(do Duque, segundo Aristides Milhomem)

 

 

 

JOSÉ ARRUDA
O NOSSO DUQUE

 

*Carlos Augusto Franco


                            Era efetivamente um filósofo. Sempre dizia: “O importante não é ser rico, é ter a vida de rico.”
                            Assim o fez e assim viveu a vida.
                            Portanto, viver é cantar um hino à vida. Apreciando e agradecendo pela dádiva inestimável, pelo eterno fluxo que nos conduz ao conhecimento e aceitação no que interfere com nossos sentimentos.
                            Lembro-me de quando nós estávamos reunidos em alguns eventos no terraço do Castelo, todos nós éramos chamados pelo Duque, como príncipes.
                            Nas apresentações declinávamos os principados. Por exemplo: Príncipe de Duas Ilhas e adjacências. E, assim, todos respondiam declinando seus principados.
                            Que vida saudável!... Que saudade!...
                            Teria muito a mencionar, mas, para não tornar prolixo, o Duque nos deixou muitas saudades.

*Carlos Augusto Franco foi amigo dileto do Duque de Giz, mora atualmente em Brasília

 

 

O DUQUE QUE CONHECI

 

*Cezar Braga


            O Duque do Giz, alcunha do senhor Zezé Arruda, homem que conheci pouco, convivi menos ainda, mas pude observar que tinha muitos amigos e deixou saudades.
            Conheci de maneira superficial, ligeiramente no ano de 1973. Mantive algum contato mais de perto, por volta de 1985.
            Era um homem de aparência distinta, sempre elegante, alinhado, porte aristocrático e esmerada educação.
            Sempre muito bem vestido e espirituoso. Tinha gosto pela convivência com intelectuais, artistas e eventos culturais, mas sem jamais abandonar o jeito boêmio. Bom bebedor de cerveja, excelente proseador e indispensável figura numa mesa de bar.
            Bebi algumas vezes com ele no Bar do Marinones, lá na praça Melo Uchoa.
            Corria o ano de 1985, se aproximava a eleição indireta para Presidente da República, onde concorriam Tancredo Neves e Paulo Maluf.
            Um dia ele chegou ao bar, onde eu já bebia uma cerveja, desceu do jipe com a elegância dos lordes, aproximou-se, começamos a conversar sobre o tempo, que estava quente, e outras amenidades.
            De repente perguntou-me quem achava que fosse o melhor candidato, e eu lhe respondi que esperava a vitória do Tancredo Neves, ele com uma eloqüência de fazer inveja ao Carlos Lacerda, num gesto rápido dizia, ao mesmo tempo em que puxava o retrato do Tancredo com um clipe, do bolso, “Eu também eu também.”
            Depois em conversa com Mandim, pessoa que privou de perto de sua amizade, e como ninguém sabe dos causos e casos protagonizados por ele, rindo me explicava a razão do clipe no retrato do Tancredo Neves, é que na face oposta estava o retrato do Paulo Maluf, e assim se o interlocutor era adepto da candidatura do Maluf, o gesto e frase de apoio ao candidato vinham incontinenti.
            Era pragmático por excelência. Pode-se ver isso em depoimento que deu para uma bela revista que o Banco do Nordeste publicou sobre Barra do Corda, com depoimentos de pessoas ilustres e um pouco da história da Princesa dos Sertões.
            No seu depoimento falava que não entendia porque se reclamava do péssimo estado da estrada, toda na piçarra e com muitos buracos, já que há pouco tempo a vinda para São Luis era montado a cavalo, em jornada de vários dias.
           
Assim foi o Duque que conheci, se a estrada tinha melhorado, se não mais era realizado a cavalo, porque a reclamação?

*Cezar Nobre Braga é engenheiro civil, mora em São Luís

 

 

UM CORDINO MODERNO

*Eduardo Galvão


            Zezé Arruda era um cordino moderno para os padrões de Barra do Corda. Eterno “bon vivant”, que sabia viver seu tempo e aproveitar o melhor que o lugar oferecia. Num tempo em que não se falava em ecologia, era protetor do meio ambiente, tinha carinho especial pelos pássaros e amava o silêncio quando em retiro em período carnavalesco.
            Em meu tempo de criança, na rua do Giz, era nossa obrigação, eu e o Denis, ler em voz alta  para ele fazer as devidas correções. Lembro dele sentado, à noitinha, na porta de sua mansão escutando a Voz do Brasil ou entretendo seus convidados com sua conversação inteligente, agradável e interessante.
            É impossível falar do Duque sem mencionar Dona Guaracy, que é toda gentileza. Uma Lady de educação fina que corresponde a realeza. Tinha o mesmo temperamento do Duque, alegre e sabia muito bem acompanhar o marido na boemia.
            Era um casal perfeito em seu castelo. Eram lordes sem intimidar a vizinhança, com seus modos simples e sofisticados.
            É justa a homenagem do Turma da Barra para um cidadão tradicional, que muito bem representou a velha guarda cordina, com seu espírito festeiro, poeta e amante da natureza.

*Eduardo Galvão, barra-cordense, vice-cônsul brasileiro em Xangai-China

 

 

ZÉ ARRUDA
SEGUNDO GALENO BRANDES

 

            O livro "Barra do Corda na história do Maranhão", do professor Galeno Brandes, destaca José Nogueira Arruda no panteon barra-cordense. "O Duque de Giz figura no panteon barra-cordnese por ter sido um homem de cultura, que muito bem representava a terra de Maranhão Sobrinho", frisa o professor Brandes.

            Diz que Zezé Arruda nasceu em 28 de agosto de 1917, no próprio Castelo de Giz. Assim, caso estivesse vivo, estaria com exatos 90 anos. "Nesta casa, onde nasceu meu filho Dênis, nasci eu, nasceram meu pai, Eurico Euclides Arruda e meu avô José Martins Arruda." Essas informações são do próprio Zé Arruda ao professor Brandes.

            Detalhe os nomes dos familiares de Zezé Arruda, que era filho de Eurico Euclides de Arruda e de Agenora Braga. Seus avós, do lado paterno, foram José Martins Arruda e Maria Alves Albuquerque.

            Sobre o Castelo de Giz, diz que foi construído por dois irmãos: dona Lourdes e Raimundo Arruda, que construíram a casa no extremo oeste do vale, às margens do rio Corda.  "Recanto de festas familiares e de acontecimentos políticos dos mais importantes", acrescenta.

            A respeito do perfil de Zé Arruda, o livro diz que "em torno dele (Zezé), circundavam uma auréola de simpatia, otimismo e alegria contagiantes. Ao Castelo, atraía as maiores lideranças sociais, econômicas e políticas de Barra do Corda. 

            Registra que Zé Arruda foi homem de negócios, tornando-se mais tarde proprietário de casas bem-sucedido. Acrescenta que era cultor da leitura, reverente no trato e traje, orador de recursos imprevisíveis e de eloquência invejável. Defensor do meio ambiente. Intérprete dos sonetos de Maranhão Sobrinho.

            Também conta Galeno Brandes a história da família Arruda, que migrara ao Maranhão, no século 19 em decorrência das revoluções liberais, que eclodiram no nordeste, nos estados de Pernambuco, Bahia, Piauí e Ceará contra o autoritarismo do imperador dom Pedro I.

            O professor Brandes sublinha que é uma das versões sobre a história da família Arruda. Mas não há registro sobre a história dos Nogueiras e dos Bragas, sabidamente também partes do sobrenome de Zezé Arruda.

 

 


20 ANOS SEM ZEZÉ ARRUDA

A lembrança é uma ternura petrifica

*Nonato Silva

 

            Há 20 anos, Zezé Arruda fechava as pálpebras para sempre, deixando-nos uma lembrança funda e uma saudade sem limites.
            Mergulhou no ocaso o Conde do Giz, para surgir luminoso no Oriente, sem nuvens nem rusgas.
            Calou-se aquela voz que encantava a quantos dele se cercasse, em gargalhadas constantes.
            Zezé Arruda tinha o condão de transformar a sociedade de seu tempo, cuja repercussão ainda hoje se faz presente. Tinha-a cativa aos seus múltiplos e atraentes chistes.
            Detentor de inteligência incomum e primorosa.
            Era um homem acabado e retilíneo, espandindo um rastilho de luz muito forte, em foco intenso, da história épica de Barra do Corda.
            Zezé Arruda produzia alegria e transmitia a todos. Era um são Francisco cordino, no folguedo cotidiano.
            A todos imprimia camaradagem compartilhada e anestesiante, revestido de pensamentos grandes e salutares, um filósofo, consolidando sempre a união social, sua característica essencial.
            Com isso, opulentou-se, fascinou, deslumbrou, fulminou, no fascínio de sua bondade inata.
            E descanse em paz!


*Nonato Silva é o editor da Revista da Literatura Barra-Cordense

 

 

O SENHOR DA BARRA

 

*Murilo Milhomem

 

            José Nogueira Arruda, o Duque de Giz, era proprietário de inúmeros imóveis em Barra do Corda. Entre seus inquilinos se encontravam dois comerciantes da praça Getúlio Vargas, Batucada e João Bossa Nova, que viviam reclamando do preço dos aluguéis cobrados.
            Batucada alegava que João Bossa Nova pagava aluguel mais barato. Por seu lado, João Nossa Nova alegava o contrário. Duque de Giz não agüentava mais tanta reclamação. Por mais que dissesse que eram iguais, não acreditavam.
            Então Duque de Giz bolou uma brilhante idéia. De caso pensado, troca os envelopes que seriam entregues aos dois comerciantes. O de Batucada, entregou para João Bossa Nova. O de João Nossa Nova, caiu nas mãos do Batucada. Curiosos, abriram os envelopes trocados. Só assim descobriram que o valor dos aluguéis era exatamente o mesmo.
            Essa é uma das muitas histórias protagonizadas pelo saudoso Duque de Giz, que costumava usar roupa, boné e sapato brancos e morava em um castelo também todo branco. O castelo ainda existe. Além da viúva, Guaraci, lá moram seus dois filhos, Denis e Ana Luiza.
            Com o passar do tempo, Duque de Giz caiu no esquecimento de boa parte de quem o conheceu. Menos, é claro, do Turma da Barra, que durante todo o mês de dezembro, traz uma série de artigos para marcar os vinte anos de seu falecimento.
            Partiu mas deixou o velho Mandubé, seu fiel escudeiro pelas ruas da Barra dos anos sessenta a oitenta. Até hoje, apesar da idade, Mandubé continua na ativa. Não como antes, quando seu dono era vivo. Agora, já com idade avançada, apenas uma viagenzinha aqui e outra acolá, para um lugarejo chamado Oriente, onde o filho do Duque de Giz, Denis, costuma  passar os finais de semana.
            Quem não conheceu o Duque de Giz, não pense que o Mandubé era gente viva. De jeito nenhum! Era o jipe que usava como meio de transporte para fazer a cobrança dos aluguéis devidos pelos inquilinos.
            Não somente para cobrar aluguel. Também para tomar uma cervejinha gelada pelos bares da cidade. Saía de casa cedo, entregava os envelopes e...  o preferido era o bar do Zé Domingos, em frente ao Banco do Brasil. Funcionava como uma espécie de escritório.
            Contra os mal-pagadores, Duque de Giz tinha seus combatentes. Entre eles, destaco Mandin Brasil, que antes de ingressar nos Correios ajudou nas cobranças dos inquilinos.
            Outro fiel combatente era o finado Aziz da Beata. Entrava em cena quando Mandin não dava conta do recado. Chegava bem cedinho na porta do velhaco. Só saía com o dinheiro na mão. Matava pelo cansaço.
            Do bar do Zé Domingos, por volta do meio dia, se retirava, muitas vezes à francesa. Ia para o Castelo almoçar. Após a sesta, mais para o final da tarde, abria as portas para receber os amigos.
            Figuras como a de Duque de Giz cada vez mais existem menos. Faz parte de um passado que ficou registrado na lembrança dos mais antigos. Cenas que aos poucos vão sendo apagadas, na medida em que as gerações se sucedem.

*José Murilo Milhomem de Sousa é jornalista e pedagogo, mora em Brasília

(TB/30dez2007)

 

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