Memória
O adeus da dona Isaura
Rainha da Punga
jornal Turma da Barra
Isaura
Por Álvaro Braga
Faleceu na terça-feira 15, por volta de 9h da manhã, de morte natural, em sua casa, a senhora Isaura Medeiros, nascida em junho de 1930 em Codó MA, às vésperas de completar 80 anos.
Isaura, como era conhecida, era uma daquelas figuras que se tornaram lenda ainda em vida. Chegou em Barra do Corda com seu filho em 1973 e logo despertou a atenção dos brincantes da Punga de Barra do Corda, fundada por Othon Mororó Milhomem, por idéia de Ranulfo.
Este repórter em 2007 perguntou à ela se havia conhecido Mororó. Ela respondeu:
Brinquei e dancei para o Mororó, que era um pai pra mim e pra muita gente. Naquele tempo me convidaram para brincar a Punga e eu fui dançar na beira de um campo que tinha onde hoje é o Caic, com a Coqueirão, a Zabelona que era a rainha e o João da Irinéia.
Quis o destino que Isaura fosse chamada pelo Criador dois dias depois do último dia da Punga, o dia 13 de maio de 2012, que também comemorava a data da libertação dos negros escravizados no cativeiro no Brasil.
Cativeiro este que Isaura passou a maior parte de sua existência, pois apesar de ser festejada como Rainha da Punga, a sua precária condição econômica e de saúde a levou a morar no lixão, no lugar Abacaxi ao redor da cidade, em meio aos urubus, em grotesca tapera que nem merece este nome por eram apenas alguns paus cobertos de papelão.
A humilhante situação de Isaura, desconhecida por grande parte da população atingiu a sensibilidade de um jovem chamado Reinaldo Andrade, que se emocionou ao ver o seu local de morada. Ele disse: - Meu Deus ela não pode mais ficar nesse lugar!
E a retirou de lá, alojando-a numa casinha humilde, mas digna, que ele conseguiu para ela no final da rua Projetada, na Vila Nair. Todos os dias o Reinaldo mandava a filha deixar o café da manhã e refeições para ela.
Isaura deixa um filho e muitas saudades pelo seu jeito sempre alegre de brincar e dançar as umbigadas da Punga ao som dos tambores roncadores que se calaram em respeito à sua Rainha.
Trecho do poema Navio Negreiro, de Castro Alves, que dedicamos à Isaura:"Auriverde pendão de minha terra,
*Álvaro Braga é escritor, mora em Barra do Corda (MA)
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...
Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais!...
Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!"(TB16mai2012)