Artigo

Sakineh lá e cá
jornal Turma da Barra

A poetisa Luciana Martins apresenta aos leitores do TB
a escritora e publicitária Vânia Barros
que mora em São Luís

*Vânia Barros


            Já havia dias eu andava pensando em escrever um artigo buscando algumas relações sutis entre a questão Sakineh, permitida por uma lei definitivamente arcaica, para não dizer absurda, inqualificável, e o que acontece com nossas mulheres, e que não atingem, nem de longe, a mesma comoção da iraniana, embora não se distanciem, tanto na origem da causa como na gravidade da mesma: em ambos os casos, elas continuam sendo mortas porque trariam problemas de alguma ordem aos homens. Seja no quesito "lavagem de honr
a", seja por possíveis perdas financeiras (pra que perder dinheiro, se fazer uma mulher perder a vida sai muito mais barato?).
            Dor coletiva feminina e humanitária pela pobre Sakineh à parte, me interessa também muito no meio disso tudo um fenômeno que passa quase despercebido aos nossos olhos. Embora não seja teórica em Comunicação, não consigo me furtar de refletir sobre um fato que a internet potencializou aos extremos. (Aqui cabe uma ressalva: há tempos tentam, de forma radical, culpar os mass media por todos os males do mundo, quando na verdade eles são instrumentos, “meios”, e quem está por trás – ou à frente, como se queira – são os homens e seus interesses. O mesmo se aplica à net, da qual sou adepta.)
            Refiro-me à disparidade do interesse e mobilização nacional que causa um tema, um fato, que ocorre “LÁ”, em algum outro-lugar-qualquer que não seja na nossa vizinhança. Ou poderíamos usar a metáfora, em se tratando de nosso país, do que acontece dentro de nossa própria casa.
            Isso me parece um pouco como uma cortina de fumaça emocional. Uma espécie de catarata ocular causada pelo corriqueiro, pela banalização. Só nestas plagas maranhenses, ocupando as páginas policiais e ganhando apenas dois dias na mídia, não são raras as notícias de mulheres assassinadas. Mas não a pedradas ou no cadafalso. O exótico também dribla a banalização: choca mais do que as facadas ou o tiro certeiro que tanto se dá por aqui.
            Há ainda o drama silencioso das que fugiram, como minha conhecida Ivanete, deixando o filho pequeno com a avó para escapar do marido que ameaçava dar cabo dela se o abandonasse. Essas sobreviventes se exilam em São Paulo (como ela), ou em qualquer cafundó, trabalhando de doméstica, sem poder visitar o filho -  e sem nenhuma ajuda do governo, Secretaria da Mulher, nada que o valha.
            Por todos os deuses, sei que o caso Sakineh, que mobilizou meio mundo, DEVERIA TER MOBILIZADO O  MUNDO INTEIRO, e devemos fazer de tudo para que esse destino sórdido não se cumpra e esses governos (e “culturas”, por que não?) sejam enfraquecidos, sofram embargos e punições. Assim como cabe mobilização semelhante o fato de na Jordânia jovens entrarem em consultórios médicos para exames de virgindade e dali saírem direto para o necrotério: não “mereciam” mais viver.
            NÃO se trata de minimizar isso, mas de cuidarmos para não desviar tanto o olhar do que está ao nosso lado. E cobrarmos de nossas autoridades e imprensa que dêem mais ressonância a essas vozes que se calaram, bem como desenvolver mecanismos mais eficazes, institucionais e de comunicação para que isso cesse. Pois o que acontece com as nossas Sakinehs é, se não igualmente, mas imensamente grave, vergonhoso e abominável.

*Vânia Barros é publicitária e escritora, mora em São Luís

(TB26ago2010)