Artigo
Universidade de Coimbra
O Palácio do Saber
jornal Turma da Barra
Coimbra
Durante boa parte do mês de julho,
o professor barra-cordense e colunista do TB, Luiz Carlos Rodrigues da Silva
esteve em vários países europeus. Uma das cidades que visitou foi Coimbra, em Portugal, onde o nosso colunista conta a história daquela universidade-mãe da nação portuguesa que foi fundada no século 13, mais antiga até mesmo do que o Brasil.
*Luiz Carlos
A Universidade de Coimbra é para os portugueses a universidade-mãe, a essência da tradição universitária portuguesa, na mesma proporção da Universidade de Salamanca para os espanhóis, da Universidade de Bolonha para os italianos, da Universidade de Paris para os franceses, ou como Oxford para os ingleses.
A Universidade de Coimbra é uma das mais antigas do mundo. Do ponto de vista histórico é a segunda universidade ibérica depois de Salamanca. A sua fundação data do século XIII, mais precisamente, de 1290, durante o reinado de D. Dinis, na primeira dinastia, sendo muito anterior a outras notáveis universidades europeias, como a de Florença (1320), a de Pisa (1343), Praga (1347), Heidelberg (1383), Leipzig (1409), Barcelona (1450), Freiburg (1455), Uppsala (1477) ou Copenhague (1478). Certamente que muitas universidades foram constituídas antes da de Coimbra, mas muitas delas vieram a desaparecer, não sobrevivendo às contrariedades da história, ao passo que Coimbra, apesar de tantas vicissitudes, persistiu ao longo dos séculos e nunca extinguiu. Durante mais de 600 anos, desde 1290 a 1910, mesmo com o interlúdio da Universidade de Évora (1559-1759), foi a única Universidade do reino.
Do século XIII ao século XVI a Universidade viveu um período de instabilidade. A instituição passou por quatro transferências de localização ( entre Lisboa e Coimbra), todas durante a primeira dinastia. D. Dinis institui-a inicialmente em Lisboa, mas depois de dezoito anos de atividade o mesmo rei transferiu-a, em 1308, para Coimbra. Passados trinta anos, porém, o sucessor de D. Dinis, o rei D. Afonso IV, decidiu, em 1338, transferir de novo a universidade para Lisboa. Dezesseis anos mais tarde, em 1354, o mesmo rei muda de opinião e a Universidade regressa a Coimbra. Antes do término da primeira dinastia, a universidade voltaria a ser transferida mais uma vez em 1377, no tempo de D. Fernando, para Lisboa, permanecendo até 1537.
Certamente influenciado pelos humanistas portugueses, Damião de Góis e André de Resende, D. João III procurou promover a modernização da universidade. Era perfeitamente notório que os intelectuais portugueses continuavam a ser formados em universidades estrangeiras e não na portuguesa, em Lisboa, por não lhe reconhecerem qualidade. D. João III cedeu o seu palácio de Coimbra e contratando professores estrangeiros já tocados pela novidade humanista reformou a universidade. Determinante neste contexto foi a criação do Colégio das Artes, com os famosos humanistas bordaleses, instituindo-se assim a separação entre os estudos preparatórios e os estudos superiores. Mas o estabelecimento da inquisição em Portugal minou completamente a escola humanista, os seus professores foram perseguidos e acabou por vingar uma segunda escolástica que imobiliza o país.
Só no século XVIII o Marquês de Pombal, primeiro-ministro do rei D. José I, responsável pela expulsão dos Jesuítas de Portugal, bem como, pela limitação do poder da inquisição, impõe uma nova reforma modernizadora da universidade. Os autores que inspiraram os reformadores, na época reunidos na Junta da Providência Literária, foram os portugueses estrangeiros Luís Antônio Verney (que residia em Roma) e Ribeiro Sanches (que residia em Paris), que haviam redigido textos críticos com propostas de reforma do ensino em Portugal. O ponto imprescindível da reforma iluminista foi a emergência das disciplinas científicas em detrimento da antiga hegemonia das disciplinas livrescas ( Teologia, Cânones, Leis, Artes etc.). Aparecem pela primeira vez as faculdades de Matemática e Filosofia da Natureza, que incluía a Física Experimental, a Química e a História Natural e refunda-se a faculdade de Medicina. Novos edifícios são construídos na Alta, bairro que envolve o edifício histórico da universidade, para corresponder às necessidades dos novos currículos.
Com mais de 700 anos de existência, a Universidade continua a ser nos dias de hoje, como foi durante séculos, a instituição mais importante de Coimbra, quase se confundindo, na identidade, uma e outra. Coimbra é a cidade universitária portuguesa por excelência.
*Luiz Carlos Rodrigues da Silva é mestre em Ciências da Educação, membro da Academia Barra-Cordense de Letras, Arcádia Barra-Cordense e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Barra do Corda
Coimbra
Coimbra
(TB5set2013)