Conexão Mídia 'TB'

Nesta página, o 'TB' publica matérias várias.
Do mundo literário, artístico, social, filosófico, comportamental,
político, histórico e econômico. Da própria mídia em si.
Tudo que leve ao debate e a reflexão crítica.


Mearim de dádivas e tragédias


 

*Allan Roberto Costa Silva


            Os rios e suas cheias sempre foram muito importantes, até imprescindíveis, para a sobrevivência humana e o desenvolvimento das civilizações. Analisando a história da humanidade, vemos que a Mesopotâmia (termo de origem grega que significa “entre rios”), região do Oriente Médio situada entre os rios Tigres e Eufrates, que deságuam no Golfo Pérsico, de extensas planícies e vales, foi o berço das mais ricas civilizações humanas dos primórdios da humanidade; lá habitavam os assírios, sumérios, caudeus, babilônios e outros povos que sobreviviam dessas férteis planícies das quais tiravam sua alimentação e riqueza, e que chegaram a tal ponto de desenvolvimento que ali foi inventada a roda, a escrita, o comércio e lá surgiram também as primeiras cidades e impérios e os primeiros arremedos de organização de Estado/Governo tal qual conhecemos hoje. Tudo isso só foi proporcionado pela fertilidade do solo local que era oriunda das grandes cheias anuais desses dois rios, pois as enchentes traziam material orgânico que revitalizava o solo anualmente. Hoje essa região corresponde ao Iraque.
            Já no antigo Egito, civilização deveras importante e que até hoje é enigmática pelo elevado grau de desenvolvimento que atingiu e influência para o restante do mundo pelo elevado conhecimento adquirido, surgiu, por exemplo, o calendário e a agricultura; e as cheias do Rio Nilo eram que proporcionavam a fertilidade do solo de seus imensos vales, de onde saiam o alimento e a riqueza daquele povo heróico que ajudou o mundo a atingir o desenvolvimento que tem hoje. O calendário foi inventado pela necessidade de eles precisarem exatamente a época das enchentes para o preparo das plantações. Concluímos, então, que dessas enchentes nesses berços antigos de civilizações donde descendemos e devemos nossa evolução humana e de sociedade é que se deriva a nossa sobrevivência como espécie animal e social tais e quais as concebemos. A história nos comprova que se não fossem essas grandes enchentes anuais não haveria o mundo como conhecemos hoje.
            Mas se analisarmos o nosso Mearim (termo de origem tupi que significa “rio do povo”), a situação fica extremamente ambígua. O Mearim constitui a maior bacia hidrográfica genuinamente maranhense, nascendo na Ribeira da Água Boa entre a Serra Negra e a Serra Branca, próximo a Serra da Menina, no município de Formosa da Serra Negra, perto de Barra do Corda. Tem extensão de 930 km e deságua na Baía de São Marcos entre os municípios de São João Batista e Bacabeira. Banha importantes municípios maranhenses como Barra do Corda, Esperantinópolis, Pedreiras, Trizidela do Vale, São Luiz Gonzaga, Bacabal, São Mateus, Arari, Vitória do Mearim e outros. E já foi um grande bastião do desenvolvimento do Maranhão, escoando a produção dessas cidades desde quando ainda não existiam como tal e transportando nosso povo nos seus 645 Km navegáveis. O crescimento e desenvolvimento de nosso estado devem muito à fertilidade das terras de suas margens e vales e ao seu poderoso leito caudaloso e piscoso.
            Mas há muito tempo suas cheias não trazem mais somente fertilidade e riqueza. Traz também desabrigo, doença, fome, miséria, morte e dor. Há uma prédica dos mais antigos que recomenda cuidado com a enchente do Mearim nos anos terminados em quatro. E vê-se que em 1964, 1974 e 1984 houve cheias imensas que maltrataram nosso já tão sofrido povo. Nesse ano, sabe-se lá se é por conta do aquecimento global, do El Nino ou de outras mazelas mais perpetradas contra o nosso meio ambiente, num ano terminado em oito (mas múltiplo de quatro), o Mearim volta a trazer transtornos vários à saúde física e econômica de nosso povo. Em Pedreiras e Trizidela do Vale a situação é alarmante. As imagens colhidas nesses locais, seja pessoalmente ou pela internet ou televisão, assustam pela grandiloqüência do volume d´água e pelo sofrimento infringido à nossa população já tão carente.
            O Mearim maltratado, assoreado, de margens desmatadas, que em alguns pontos está quase morto, sem profundidade e largura, tudo isso provocado pela mão cruel do homem que dele durante muito tempo e até hoje tira o seu sustento, ressurge caudaloso pelas fortes chuvas, lépido e violento, arrastando a tudo e a todos. Em São Luiz Gonzaga foram encontrados boiando no rio um guarda-roupa e um colchão de um morador de Pedreiras, ainda com as roupas e os documentos do dono e a quantia de vinte oito reais, tal a rapidez e força das águas. As roças dos lavradores ribeirinhos se foram na violência da cheia. O prejuízo econômico é enorme para o comércio, o transporte, a agricultura e outros setores da economia formal e informal. Para os atingidos pela agressão das águas, o prejuízo do desabrigo, da fome, das doenças de pele, afecções respiratórias, verminoses, infecções intestinais e tantas outras patologias mais. Quanto sofrimento e dor! Quanto prejuízo material em regiões já tão necessitadas de alento econômico! E a meteorologia prevê chuvas ininterruptas em todo o estado em abril e maio, portanto a tragédia pode se tornar ainda maior.
            E estando em ano eleitoral com uma calamidade pública dessa proporção, outras cenas tristes se somam às tristezas já intrínsecas ao fato. São os pré-candidatos às eleições vindouras disputando desabrigados para socorrer. É caçamba, caminhão, 3x4, Toyota, tratores e carroças destes disputando alagados para socorrer. É candidato dizendo para o outro: “Alto lá! Esse alagado é meu!”; ou “Esse é meu eleitor! Sou eu quem vai levar para o galpão que arrumei”; “Esses trapos molhados, eu é que vou levar para a comadre ali que é minha eleitora!”. E o povo sofrendo... e candidatos vendo a oportunidade de condicionar o favor ao voto do miserável alagado. A grande maioria deles não apareceria se não fosse ano eleitoral. Vê-se solidariedade, sim, mas percebe-se a hipocrisia da maioria dos altruístas caçadores de sufrágio. E acho até que Deus mudou os anos das enchentes para que coincidam com ano eleitoral, assim o abandono do povo será menor pela filantropia dos interessados em prestar favor em troca de voto. Então, é esperar e confirmar se esse ciclo de grandes cheias coincidirá com outras eleições municipais. E o Mearim é assim: dá e toma, provê e depaupera, alimenta e impõe fome. Talvez assim queira se vingar de ter dado tanta riqueza e em troca ter recebido tanto desprestígio e maus-tratos. Assim, a história de nosso rio não coincide com a história dos outros rios citados no início, nos quais suas cheias eram somente para trazer benesses e ajudar a desenvolver a humanidade. As cheias trouxeram o desenvolvimento, o homem não valorizou a natureza e ela se vinga da mesma forma rude como é tratada.

*Allan Roberto Costa Silva é m
édico, ex-presidente da Câmara Municipal de Pedreiras, membro da Academia Pedreirense de Letras e da Associação de Poetas e Escritores de Pedreiras.

(TB/13/abr/08)

 

 

Prefeito ladrão


 

*Edmilson Sanches

 

"Está aberta a temporada de caça a um dos piores animais da fauna humana: o político desonesto, o governante cínico, o administrador público corrupto, o prefeito ladrão. Se o Supremo Tribunal Federal, daqui a alguns anos, transformar em sentença e cadeia a acusação que hoje pesa sobre os 40 envolvidos no escândalo do “mensalão”, a cidadania brasílica terá tido seu primeiro desafogo, como início da restauração do império da lei sobre o contorcionismo da malandragem com o dinheiro público, sobre a manipulação interesseira das leis, sobre a absoluta falta de respeito com os demais brasileiros, que pagam impostos para verem retornar sob forma de obras e serviços de qualidade.

II
A caça aos corruptos (bem menos freqüente do que deveria ser) é uma lei da selva, adaptada e trazida para a sociedade: quando crescem exageradamente os bandos (isso mesmo: bandos) de determinados animais, deve-se reduzi-los, eliminá-los -- na selva, com abate; na sociedade, com combate. Porque, se não for assim, se não forem reduzidos a um máximo suportável, os animais socialmente peçonhentos terminam ocupando todos os espaços, minando o direito de outros e tentando sufocar, inclusive por asfixia financeira (causada por desvio de recursos), as justas pretensões do povo.

III
O político que rouba é o mais predador dos animais. Sua fome de dinheiro e sua sede de beber da fonte farta e fértil dos recursos financeiros públicos condenam uma comunidade ao subdesenvolvimento ou a uma baixa velocidade de desenvolvimento. Por causa disso, pessoas verdadeiramente são mortas por deficiências na área de saúde, mentes de professores e alunos no setor da educação são atrofiadas e a consciência crítica coletiva se empobrece e o progresso econômico se anestesia e entorpece.

Com os olhos (e as mãos) voltados apenas para pensar como surrupiar parte do dinheiro fácil e fluido das transferências, ficam engavetados planos, propostas e projetos estratégicos que possam alavancar minimamente o desenvolvimento de uma cidade. Transparência? Frescura. Leis? Besteira. Os malandros (eles se dizem “profissionais”) da política e da administração pública só respeitam certas (im)posições quando a faca já está rente ao pescoço, apontada para a veia jugular. Aí cedem, e percebem que não estão acima da lei coisa nenhuma, que nem fortuna nem poder nem esperteza adiantam. E se eles se julgam tão elevados assim, imaginem o tamanho da queda, a dor do tombo. Um dia as leis os pegam. Um dia eles pagam.

IV
O político corrupto e corruptor é o maior assassino da humanidade, é o grande genocida de toda a História: por sua obra e desgraça, milhares de pessoas em todos os municípios, milhões de gente em todos os países, bilhões de seres humanos em todo o planeta estão condenados à fome de alimentos, à miséria física, à indigência material, ao subdesenvolvimento mental, ao esgoto social, onde apodrecem e se liqüefazem todos os sonhos de uma vida digna, na medida da centelha divina que há em cada um de nós. E os recursos governamentais, em todo o planeta, são mais do que suficientes para extinguir da face da Terra a pobreza, a fome, a falta de educação etc. Mas a prioridade dos políticos é a ampliação do poder pessoal ou grupal e o aumento da roubalheira para que esta volte a financiar o aumento do poder, num círculo vicioso, criminoso. A falta que Nuremberg faz...

V
Como fruto da desonestidade, da deficiência moral, um dia as “caixinhas” da corrupção haverão de se transformar no caixão de enterro dessa matilha de hienas políticas (porque riem enquanto se alimentam da podridão). A cova será rasa, para esses políticos e suas quadrilhas de assessores e apoiadores, na verdade sanguessugas marginais, parasitas oligofrênicos, deficientes morais, leiloeiros da própria personalidade, defensores da ética de Caim, a espancarem e matarem, direta e indiretamente, seu irmão Abel, o povo.

VI
Todos os analistas, cientistas políticos e a população em geral são unânimes em concluir: nos dias de hoje, tudo o que um prefeito diz que faz ele poderia ter feito mais e melhor, apenas com os recursos que tem. Bastaria que ele, prefeito, e seus hematófagos, não usassem de tantos expedientes enviesados para se apropriar de uma parte do dinheiro que deveria se transformar, todo ele, em obras e serviços. Com isso, o prefeito fica (mais) rico e ainda aumenta seu poder de fogo para a próxima campanha. Com esse dinheiro, sobretudo em cidades do interior, adubam-se jornais e jornalistas – os quais, em nome da sobrevivência física, não vêem dificuldades em elaborar dribles mentais para justificarem a si mesmos frente ao tribunal de sua própria consciência.

VII
Não é de hoje que alguns veículos de Imprensa mais, digamos, corajosos vêm discutindo e divulgando sobre o avanço da corrupção e da urgente necessidade de se moralizar a administração pública no Brasil, a partir, principalmente, dos municípios, cujos recursos têm maior potencial para agregar melhoria nas condições de vida do povo. A correta aplicação dos recursos causa impacto direto nas comunidades, e isso só não se dá maiormente e melhormente face à sanha monetária e sanguissedenta da corja de maus-caracteres que estão respondendo, com procedimentos vis e roubos mis, aos votos mis e arroubos mis...eráveis dos que acreditaram nos que foram eleitos.

VIII
Documentalmente comprovadas e penalmente classificadas, as denúncias se sucedem -- e mais vem por aí. De São Paulo ao Maranhão, muitas “pittadas” de corrupção -- e mais vem por aqui. Ainda assim, apenas “pittadas”, porque o que está vindo a público é, com certeza, tão-somente migalhas ante a fartura de recursos postos de mão beijada na mesa já farta dos administradores públicos corruptos. As denúncias ultimamente levadas a público são tão-somente gotas ante os “rios” de dinheiro que deságuam no mar de corrupção onde ainda navegam aparentemente tranqüilos esses comandantes de naus piratas. Não é a toa que a bandeira que esses descarados empunham também leva uma caveira...

IX
Muita gente está longe de intuir, de imaginar o quanto de “milagres” poderia fazer o dinheiro que chega aos cofres municipais, se administrados com absoluta honestidade e completa transparência. Os cínicos, ao lerem isto, armam aquele ar de sabe-tudo e proclamam: “Em política isso não existe!” Então, quer dizer que todo político é (ou tem de ser) desonesto, todo prefeito, ladrão?

X
Se é assim, não é de surpreender, portanto, que cada dia mais os políticos e “sua” “política” saem da “nobreza” da página 3 dos jornais para a safadeza das páginas policiais. Talvez por aí se justifique a perigosa proximidade gráfica, o “parentesco” entre POLÍTICA e POLÍCIA. A curta distância entre essas palavras pode ser facilmente vencida, sobretudo por quem já possui desvios de caráter, vícios de personalidade, fraqueza de espírito (alguns teimam em transparecer católicos praticantes ou evangélicos pregantes, mas, por trás da Bíblia, corre solta a voluntária degradação, a consciente malversação. Nestes casos, a Bíblia não é espelho, mas espólio).

XI
E como os políticos e administradores desonestos roubam? Por que alguns (poucos) deles já perderam o cargo e até foram para a cadeia? Por que alguns (poucos) vereadores já se suicidaram ou igualmente foram em cana? São muitas as formas mas pouca a nomenclatura para os diversos atos de improbidade administrativa desses prefeitos gatunos e seus vereadores, apoiadores e assessores metidos a espertalhões.

XII
Alguns prefeitos oferecem cotas de cargos na prefeitura para os vereadores, que põem lá seus protegidos; estes devolvem aos vereadores parte da remuneração mensal que recebem. Por sua vez, os vereadores retornam parte do dinheiro para a “caixinha” do prefeito. Notas fiscais são compradas ou são preenchidas com valor bem acima do que efetivamente é repassado à empresa vendedora. Funcionários-fantasmas têm seus salários depositados periodicamente em contas bancárias que têm procuradores para sacar todo o dinheiro... que também vai para o prefeito e seu grupo. Amigos e “laranjas” ou “testas-de-ferro” têm empresas em seu nome para “completar” o número mínimo em certos e incertos processos de licitação -- gráficas e construtoras são criadas em profusão logo após a confirmação da vitória do candidato eleito. Conclusão: qualquer que seja o vencedor, só haverá um ganhador: “o homem”, a “turma”, o “grupo”. Contratos recebem aditivos desnecessários para uma obra ou serviço... mas necessários para o rachachá da corja.

XIII
Muitas viagens, às vezes fictícias e nem sempre de interesse da cidade, levam administradores públicos para fora do município ou do Estado e, mesmo, para fora da região e do país -- e o acúmulo de diárias, as elevadas despesas de transporte vão engordando o butim dos malandros e seus asseclas, isto é, assessores. Verbas exclusivas de gabinete são usadas sem qualquer critério ou controle, e os gastos são convenientemente alterados/adulterados, para a felicidade de safadões de riso fácil ou de falsa (im)postura. Recepções, almoços e jantares são realizados à farta, para recepcionar quase todo tipo de gente quase todo santo dia, a fim de se desviarem centenas de milhares de reais com a fraude das despesas desses comes-e-bebes, cujo consumo é bem menor do que o valor da nota ou recibo. Convênios, concessão de linhas de transporte, coleta de lixo, grandes compras de remédios, equipamentos médicos, material e alimentos escolares... tudo vem com uma “pitada” (na verdade, uma “mãozada”) de superfaturamento. Quanto mais míni for a moral, mais súper será a nota fiscal. Há prefeitura com mais nota fiscal na tesouraria do que grãos de arroz na despensa da escola.

XIV
O Brasil, como um todo, só mudará para melhor quando – e se -- os prefeitos quiserem, isto é, quando os prefeitos que roubam quiserem parar de roubar. Nem Presidente nem Governador dão jeito. O Ministério Público? A Justiça? São tantos os problemas para tão pouca gente e recurso... Sobra a população, que é aquela que vota, aquela que bota lá em cima... e que pode jogar lá em baixo, ao rés do chão e no pó da terra, esses defeitos de fábrica, essas indecências de carne e osso e pouca alma, esses espectros de personalidade, esses avantesmas sociais chamados políticos desonestos, prefeitos ladrões.

XV
“A onda de repulsa pública provocada pelo mar de lama revelado pela ex-primeira-dama da capital paulista, Nicéa Pitta, não deve impedir que, nas urnas de outubro, o paulistano aproveite a oportunidade para fazer uma verdadeira faxina nas suas instituições políticas, em particular na prefeitura e na sua Câmara de Vereadores. (...) À medida que as denúncias viram pizza, as instituições políticas a cada dia se desacreditam mais diante da opinião pública. (...) Nossa geração quer mudar tudo isso. (...) E não é uma tarefa fácil. (...) Será preciso que a nação toda entenda que não dá mais para continuar aceitando passivamente toda essa bandalheira. (...) Para conseguir isso, é fundamental que as instituições que formam a opinião pública -- (...) em particular a mídia -- mostrem que há políticos corruptos e políticos honestos, administradores vendidos e administradores sérios (...).” (LUIZ MARINHO, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, no jornal Folha de S. Paulo, 23/03/2000).

XVI
“Denunciar irregularidades administrativas é dever de todos os cidadãos. Se as falhas, de indivíduos ou de grupos, ferem o interesse público e social, caracterizá-las e torná-las públicas equivale a proporcionar sua apuração regular. O aperfeiçoamento do convívio social reclama a proclamação da verdade. (...)”. (JOSAPHAT MARINHO, ex-senador, professor emérito da Universidade de Brasília e da Universidade Federal da Bahia, no jornal Correio Braziliense, 25/03/2000)."

*Edmilson Sanches é jornalista e escritor, mora em Imperatriz - MA
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(TB/4/nov/07)

 

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O Maranhão de Sarney e Zé Reinaldo



O TB sugere a leitura destes dois artigos:
Um do ex-presidente, ex-governador, atual senador José Sarney,
publicado pelo jornal O Estado do Maranhão, domingo 31 de dezembro de 2006.
O outro do ex-governador, do ex-ministro dos Transportes José Reinaldo,
publicado pelo O Imparcial, domingo 7 de janeiro de 2007.
O tema é o Maranhão. O foco é a traição política.

 

O FIM DO FIM

*José Sarney

Amanhã temos uma data grandiosa para o Maranhão: deixa a cadeira de governador que desonrou e vai para a sua insignificância o judas José Reinaldo. Nunca, na história do Maranhão, viu-se um governante de tamanha miséria moral. A começar pelo exemplo familiar. Não se trata de entrar na privacidade de ninguém. Mas o certo é que quem governa tem de oferecer o exemplo e honrar os valores da decência pública.

O Palácio dos Leões, que deve ser a vitrina da correção familiar, foi transformado em boate, objeto de murmúrios que um governador do Estado, com o menor senso do decoro, não podia permitir. O Sr. José Reinaldo deu exemplo de mau filho, mau esposo, mau pai, mau parente e degradou-se na submissão conjugal, sem o mínimo respeito pela nobreza da função governamental, de onde deve sair o exemplo.

Entretanto, mergulhado no ódio e na insensatez, perdeu a sensibilidade de todos os valores humanos. Fez questão de enlamear-se na traição. Se
tivesse ficado só aí, o que já seria execrável, igualar-se-ia apenas a tantos que a história registra.

Porém, foi mais longe: apodrecido pelo complexo de Macbeth, quis transformar a traição em virtude, a indignidade em ideal, o despudor em decência. Ei-lo a justificar-se insultando-me.

Insincero e vil, saiu a condenar os quarenta anos de política por mim exercidos no Maranhão, período em que ninguém mais do que ele se aproveitou. Foi, na verdade, o maior beneficiário desse período. Há cinco anos estou fora do poder, mas ele continuou lá e agora vai tentar beneficiarse de Jackson Lago.

Em 1967 levei-o para o DER, em 1970, o fiz secretário de Planejamento. Briguei com o professor Pedro Neiva porque queria fazê-lo governador em 1974. Obtive sua nomeação como diretor do DNOS, então uma das maiores autarquias do Brasil. Com Geisel o fiz presidente da Novacap e secretário de Obras do Distrito Federal.Presidente da República, nomeei-o superintendente da Sudene e depois ministro dos Transportes, onde me fez pagar durante anos a concorrência da Norte-Sul. Isso porque muitos, inclusive o general Ivan de Sousa Mendes, do SNI, quiseram que eu o
demitisse. Não aceitei o conselho por carinho, lealdade e afeto e para não vê-lo liquidado com a pecha de corrupto. Em 1990, o elegi deputado federal, em 1994, vice-governador. Repeti a dose em 1998, embora todos me advertissem de que ele não era mais o mesmo depois de um casamento
que todos sabem o bufônico fim que tomou. Lutei para fazê-lo candidato a governador, cargo que ocupou duas vezes.

Foram estes 40 anos de sinecuras por ele usufruídas pelas minhas mãos generosas, que ele resolveu amaldiçoar. Nunca passou um dia na vida fora de um cargo que não tivesse sido dado por mim. Assim, o maior beneficiário desses 40 anos foi ele. A minha indignação e revolta é confortada pelo fato de que todos sabem que sua briga comigo foi provocada por motivos subalternos.

Petite histoire de um capricho de mulher que nada teve de patriótico ou qualquer sentimento de defesa do Maranhão.

Ele teve a desfaçatez de falar em liberdade. A única liberdade que chegou ao Maranhão foi sua saída. Saiu o governador mais corrupto de nossa história como bem sublinhou a revista “O Poder”. Não fez nenhuma obra. Não teve uma idéia. Estabeleceu o caos na máquina administrativa.

Criou para fazer politicagem 53 secretarias de Estado! Fez, entre 1º de janeiro e 31 junho de 2006, 1.817 (um mil, oitocentos e dezessete) convênios e contratos, no valor de R$ 665.364.591,15 (Seiscentos e sessenta e cinco milhões, trezentos e sessenta e quatro mil, quinhentos e noventa e um reais e quinze centavos) com Prefeituras e Ongs fantasmas para gastar e corromper as eleições. Foi a depravação administrativa.

Deixa os cofres públicos vazios e sai de bolso cheio. Como dizia o padre Vieira sobre os vice-governadores das Índias - “Chegavam pobres nas Índias ricas e saíam ricos das Índias pobres”.

A um prefeito que se recusava a votar em Jackson sob a alegação de que seus inimigos no município eram do PDT, ele disse: “Vote e deixe por minha conta. Jackson não tem condições de governar o Maranhão. Sou eu que vou mandar no Estado e Vidigal na área federal”. Eu tenho a gravação da conversa.

Jackson tem uma história, política e familiar, respeitável, ao contrário de José Reinaldo, que quando jovem era já conhecido como Zé do Éden, e agora como Zé Noel. Este não tem história nenhuma. Mandar em Jackson seria a tragédia do estado.

Deixou o Maranhão mais pobre ainda. Falou tanto em IDH. Roseana deixou o IDH-renda em 0,576 e Zé Reinaldo deixa em 0,570. Renda per capita: Roseana 192,96; José Reinaldo, 184,23. Eis o desmentido de que ele ia combater a pobreza. Esta, na verdade, aumentou. Veja o povo como foi
enganado.

Vou ajudar o Maranhão, como sempre. Já comecei, concluindo o projeto de gás que há mais de quatro anos tentamos viabilizar e que o presidente Lula aprovou.

Agora, sim, o Maranhão está, de fato, livre. José Reinaldo confundiu licenciosidade com liberdade. O Maranhão está livre de José Reinaldo. Amanhã, o Estado terá um governador que esperamos saberá dignificar suas funções, com uma esposa digna, honesta, respeitável, como sempre foram as famílias do Maranhão.

Daqui a cem anos este artigo será lido e meu nome estará onde sempre esteve na história do Maranhão, enquanto esse malandro entrará como
Lázaro de Melo: réprobo, renegado, exemplo de traição e crapulice.

Escrevo este artigo com dever de político, criticando, censurando, procurando sanear o que de pior existe na política: a ignomínia, a corrupção, a indignidade, a malversação e o aproveitamento da coisa pública.

Afinal, se me dessem a oportunidade de uma sugestão eu diria: lavem com sal grosso o Palácio dos Leões para limpar a sujeira.

Vade retro.

*José Sarney é senador
(artigo publicado no O Estado do Maranhão em 31 de dezembro de 2006)

 

O COMEÇO DO COMEÇO

*José Reinaldo Tavares

Quem José Sarney pensa que é?

Aos olhos de si próprio, um iluminado. Soberano a reinar sobre todos os maranhenses. Senhor de carreiras profissionais e destinos humanos. Elege e deselege políticos Transforma medíocres em homens brilhantes. Pela sua vontade – e só por ela - pessoas são honestas ou desonestas. Boas ou más. Dignas ou indignas. Investe sobre reputações, enlameia a honra alheia, invade lares espargindo seu ódio sobre famílias, desrespeitando mulheres e crianças. Acha que pode tudo.

É assim que o coronel Sarney pensa que José Sarney ainda é.

O que o cidadão José Sarney parece não saber é quem ele é hoje.

Um derrotado em sua própria terra. Para ter assento no Senado, foi socorrer-se do Amapá onde usa métodos pouco recomendáveis para conquistar o mandato que o povo daqui, por conhecê-lo bem, lhe negaria. Um velho "coronel" que viu sua oligarquia perversa ser derrotada nas urnas pela vontade do povo que mostrou não ter mais medo do "leão da Metro".

Sou vítima da sandice e da ira do decadente Sarney. Do seu coronelismo arcaico, do seu ódio destruidor, dos seus delírios que hoje têm seus limites imperiais contidos pelos muros da mansão do Calhau e do enclave familiar acintoso da ilha de Curupu, onde sua família ostenta em mansões a riqueza que o poder lhes deu e que empobreceu nosso estado e nossa gente.

Quem Sarney pensa que é para investir contra a honra alheia? Por que não vem a público explicar como, na calada da noite, retirou seus milhões do Banco Santos, enquanto os pequenos depositantes viam suas economias de vidas inteiras indisponíveis? Ou, por que sua filha, Roseana, portava um despudorado cartão de crédito internacional, sem limites, com as suas despesas pagas pelo sr. Edemar Cid Ferreira que presidia aquela instituição? Também não explicou até hoje porque não foi visitar, na Casa de Detenção de São Paulo, o mesmo Edemar, festejado amigo e padrinho de casamento da sua filha Roseana.

Quando Sarney vive seu ocaso não se apercebe do ridículo em que transforma todo o seu passado. Apontou o seu dedo duro para mim e minha família sem lembrar-se de si nem dos dramas vividos no seio de sua. Não vou falar aqui de casamentos desfeitos e refeitos porque não pretendo descer ao mesmo nível do velho oligarca. Nem das razões por que isso aconteceu. Nem tão pouco vou falar dos seus périplos noturnos por Nova York, nem de outros problemas domésticos graves que o afligem.

O "coronel", em mais um dos seus rugidos de leão desdentado, diz que tudo que fui devo a ele. Hoje, não enxerga mais em mim qualquer competência para assumir os cargos por que passei ao longo de minha vida pública. Ora, se assim é, ele foi um irresponsável que, como presidente da República, fez de um incompetente superintendente da Sudene e depois ministro. E, se fez isso, agiu de forma desonesta e leviana para com o povo brasileiro. Ou, se foi honesto, nomeou-me por ter reconhecido em mim as qualidades e aptidões necessárias para ocupar os cargos que ocupei.

O julgamento do coronel não me importa. Importa sim o julgamento do meu povo que nas urnas aprovou meu governo elegendo meu candidato e derrotando a filha dele.

Quem José Sarney pensa que é para vir falar de traição? Pensa que o povo esquece do seu gesto de apoio a Jango para, passadas poucas horas, transformar-se em serviçal da ditadura, apoiador do arbítrio, presidente do PDS? Pensa ele que o povo esqueceu quando, depois de ter servido e se servido da ditadura, mudar-se, serelepe e oportunisticamente, para o PMDB, partido que demonizava, olvidando seus Vade Retro serviçais de outros tempos?

Quem José Sarney pensa que é para vir falar de convênios com prefeituras quando promoveu a mais farta distribuição de concessões de canais de rádio e televisão em troca de um mandato de cinco anos que a Constituinte lhe queria negar? Esquece-se o "leão da Metro" que isso se deveu à sua insensibilidade, ao seu modo impiedoso de fazer política, perseguindo até o seu próprio Estado e sua gente mais pobre. Foi graças a ele que um empréstimo de US$ 30 milhões do Banco Mundial para combater a pobreza ficou adormecido em sua gaveta porque, dessa forma, imaginava que poderia me dobrar. Mas enganou-se. Com o apoio do povo, obriguei-o a desengavetar o empréstimo, que foi votado e aprovado, impingindo-lhe uma derrota humilhante.

Quem José Sarney pensa que é para taxar meu governo de corrupto? Logo ele que teve a honestidade do seu mandato presidencial contestada pela CNBB em carta pública dos bispos brasileiros e pela "CPI da Corrupção do Governo Sarney".

Nunca político algum teve tantas oportunidades quanto José Sarney de transformar o Maranhão num Estado desenvolvido, com um povo feliz por ter emprego, moradia digna, saúde de qualidade, educação para todos. Foi governador, presidente do partido da ditadura, presidente do Senado e presidente da República. Mas que fizeram ele e sua oligarquia? Transformaram o Maranhão no Estado mais atrasado dentre todas as unidades de federação. Deixaram 55 por cento da nossa população vivendo em condições subumanas - morando em casas de palha ou taipa -, Maranhão ostentando a vergonhosa posição de ter 83 dos 100 municípios mais pobres do Brasil. Semearam a desesperança, o que fez com que quase um milhão de pessoas emigrasse, nos anos 90, em busca de uma vida melhor. Abandonaram a educação, deixando 159 municípios sem escolas de segundo grau. Deixaram ainda a mortalidade infantil como uma das mais altas do país. Este é apenas um fragmento da enorme tragédia que José Sarney e sua oligarquia perversa legaram ao Maranhão em seus 40 anos de domínio e exploração do povo humilde.

Um novo amanhã começou a brotar com a eleição de Jackson Lago. Um homem sério, independente, comprometido com as causas sociais e que dará seqüência a nossa luta contra o atraso e a pobreza. Graças a Deus, receberá um Estado já bem diferente daquele. Não somos mais os campeões da miséria nem do atraso. Os 83 municípios mais pobres foram reduzidos para 56. Construímos mais de 18 mil casas de alvenaria, com banheiros e água tratada.

Todos os 217 municípios do Estado agora têm escolas de segundo grau. Reduzimos a mortalidade infantil, a incidência de doenças, recuperamos a agricultura familiar, recriamos as casas do agricultor, a Emapa, incentivamos o campo a produzir safras recordes de grãos, levamos os campi da Uema para o interior, iniciamos a ponte sobre o rio Tocantins em Imperatriz, fizemos o maior número de assentamentos rurais, construímos o centro de convenções. Foram mais de mil obras só nos dois últimos anos do meu governo. E elas só foram possíveis depois que rompi Sarney e seu grupo.

Mas a maior de todas as conquistas, e da qual tenho muito orgulho, foi, pela vontade da maioria do nosso povo, libertar o Maranhão da pior oligarquia do Brasil. Ao contrário do que diz, Sarney será lembrado como o político que, apesar de todas as oportunidades que teve, usou suas mãos de forma generosa em benefício da sua família e em prejuízo dos mais necessitados.

O Lázaro de Melo ainda está vivo e tem endereço na suntuosa mansão do Calhau. Talvez o povo, um dia, lave o seu piso - este, sim - com sal grosso. O "leão da Metro" vai continuar rugindo nas páginas do seu jornal e na tela da sua TV. Ele não assusta mais. Agora, como o da Metro, já não tem mais dentes.

*José Reinaldo Tavares é ex-governador do Maranhão
(artigo publicado no
O Imparcial em 7 de janeiro de 2007)
(TB/14/jan/2007)

 

 

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Nesta página, o 'TB' publica matérias várias.
Do mundo literário, artístico, social, filosófico, comportamental,
político, histórico e econômico. Da própria mídia em si.
Tudo que leve ao debate e a reflexão crítica.


O inferno da poesia



“Por quantos dias levarei esta cruz?/ 
Por quantos dias sofrerei estes sóis?/ 
Céu azul, ó céu azul, rogai pelos nus/ 
pelos pobres, por mim e todos nós”.

Nauro Machado, em Ouro Noturno.

Antonio Carlos Lima

            Da rua da Alegria, onde morava com meus pais, acostumei-me a ver, quase  todas as manhãs, aquele senhor de barbas precocemente brancas que, surgido da Viana Vaz, descia a pé a Afogados, em silêncio, às vezes falando sozinho, sobrançando um livro ou um guarda-sol fechado, em direção à praça João Lisboa. Recém-chegado do interior e calouro do Curso de Comunicação da UFMA, logo soube de quem se tratava. Era o poeta Nauro Diniz Machado, de quem já conhecia superficialmente a poesia e a respeito do qual ouvia relatos sobre porres homéricos que ele promovia na Praia Grande e no Desterro.
            Naquele início dos anos 70, Nauro Machado era então o poeta consagrado, detentor de vários prêmios desde a estréia na literatura com o livro Campo sem base, em 1958, no Rio de Janeiro. Acabara de publicar A vigésima jaula (“Sou ímpar em mim e par em Deus”) e sua poesia vigorosa, vazada de angústia e revolta, numa linguagem que soava hermética e incompreensível para a maioria dos seus conterrâneos, despertava a atenção dos meios acadêmicos e da elite intelectual brasileiros e conquistava os corações dos jovens poetas e artistas da Ilha que acresciam às suas inquietações existenciais o inconformismo com a situação então vigente no país, no auge do regime militar, sob repressão e censura.
            O Poeta Maior, o erudito, o ensaísta exemplar, o filho extremoso, o pai amoroso, o amigo querido que depois descobri naquele poeta que, na minha visão de adolescente, parecia um personagem bíblico vagando pelas ruas do centro histórico, todos esses personagens sempre conviveram também com o poeta marginal. A figura do intelectual respeitado e admirado por todos não conseguiu obscurecer o lado decadente de sua entrega imoladora a esbórnias etílicas que antecedem os seus momentos de iluminação criadora ou com eles coincidem, e dos quais fui muitas vezes testemunha.
            Na véspera de seu aniversário de 71 anos, quando a crítica o reconhece como um dos maiores poetas em língua portuguesa, herdeiro de uma tradição da lírica ocidental a que pertencem Dante, Baudelaire ou T. S. Eliot, Nauro Machado recebeu do filho único, o cineasta Frederico Machado, um presente que nenhuma outra pessoa ousaria oferecer-lhe. Contra o recato e o respeito com que todos sempre observam o calvário do poeta, Frederico Machado decidiu meter o dedo na ferida. Em Infernos, belo e surpreendente documentário cinematográfico de 15 minutos, exibido no início da semana num cinema local, ele expõe o pai em peregrinação pela cidade, em bares e prostíbulos, ruminando as suas dores e sua angústia desmedida, em poemas de desespero e sofrimento.
            Foi uma porrada contra a hipocrisia dominante. A imagem do poeta bêbado, que tomba e fica estendido no chão recoberto de paralelepípedos, na Praia Grande, sob a indiferença dos circunstantes, é de um realismo assombroso, o que não impediu a aclamação consagradora do filme por uma platéia perplexa e de certo modo escandalizada. Rodado em preto e branco, sem roteiro pré-definido, com uma trilha sonora grandiosa e envolvente (que lembra a música de Mahler), de Joaquim Santos, o filme de Frederico Machado parece saído do Cinema Novo ou de uma produção de Fernando Meireles, e pode ser o seu passaporte para o mundo das grandes realizações cinematográficas.
            A exibição do filme marcou o meu reencontro com o poeta de barbas brancas, com quem tive o privilégio de perambular pelas ruas do Centro, falando sobre literatura e política, numa manhã de sol do último abril. Na ocasião, referimo-nos, a propósito das injustiças que vem sofrendo como funcionário público, no atual governo, a um poema de seu livro Do eterno indeferido, em que ele lamenta: “E me mandam pro inferno, se inferno houvesse/ pior que este inumano existir burocrático/ E depois há o escárnio da minha província”.
            Com o seu belo filme, Frederico Machado faz um recorte na vida e na obra do pai, para mostrar, sem meias palavras – ou falsas imagens – a sua natureza mais íntima, conhecida mas observada com reserva e respeito por quem, como eu, tem o privilégio da sua convivência e da sua amizade, deste os tempos da rua da Alegria. Como recorte, a obra de Frederico Machado sobre o pai está, portanto, incompleta. Como na Divina Comédia, ele precisa, para fornecer uma imagem mais abrangente e justa do poeta e de sua obra, descrevê-lo no Purgatório e, finalmente, no Paraíso – que é a morada de homens bons, puros e iluminados como Nauro Machado.

*Antonio Carlos Lima é jornalista
antoniocglima@uol.com.br

 

 

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Esqueceram Celso Antonio



 


 

Um dos maiores escultores modernos do Brasil e o maior do Maranhão no século XX, o caxiense Celso Antonio de Menezes é tema de livro que pode salvá-lo do esquecimento. Mas os artistas maranhenses continuam à margem da história.

por Antonio Carlos Lima

O Maranhão, que, com justa razão, orgulha-se da sólida contribuição oferecida à cultura brasileira e à formação da nossa nacionalidade, valorizou os seus escritores, poetas, historiadores, jornalistas e filólogos, mas, nos últimos duzentos anos, ignorou solenemente os seus artistas. Pintores, desenhistas, músicos, artesãos, escultores e gravadores contemporâneos de Sotero dos Reis, João Francisco Lisboa, Gonçalves Dias, Odorico Mendes, Celso Magalhães e os demais que os sucederam até a primeira metade do novo século, foram todos, ou quase todos, condenados a um inexplicável esquecimento. Um livro publicado há dois anos, Cronologia das artes plásticas no Maranhão (Lithograf, 2004), do pesquisador Luiz de Mello, lançou luzes sobre parte desse universo obscuro da vida cultural maranhense, denunciando, indiretamente, a ignorância quase generalizada sobre a contribuição artística, mínima que fosse, dessa região do país habitada e visitada, a partir do século XIX, por arquitetos, pintores, artesãos, atores, músicos e cenógrafos, procedentes das grandes cidades européias, que haveriam de aqui exercer alguma influência.

A Cronologia, que veio somar-se ao álbum Arte do Maranhão, 1840-1990, editado há dez anos pelo Banco do Estado do Maranhão, num admirável esforço de restauração da memória artística, e um livro prestes a ser lançado nacionalmente - Celso Antonio, a condenação da arte (Editora Casa da Palavra, Rio, 2006) - da jornalista e escritora carioca Leneide Duarte-Plon, demonstram que essa maldição estendeu-se no tempo, e dela não escapou nem mesmo um artista maranhense que, no auge do movimento deflagrado a partir da Semana de Arte Moderna, chegou a ser aclamado como o maior escultor brasileiro vivo.

Celso Antonio de Menezes, esse condenado, é vítima não apenas da desatenção dos seus conterrâneos, mas de um tipo raro de amnésia nacional, como demonstra o oportuno ensaio-reportagem. Em 1984, quando morreu, pobre e abandonado num subúrbio do Rio de Janeiro, já quase ninguém mais se ocupava daquele que, durante três anos, em Paris, estudara com Antoine Bourdelle, que, em carta, o compara a Rodin. Nascido em Caxias em 1896, Celso Antonio ganhou também elogios públicos de Le Corbusier, o arquiteto e urbanista franco-suíço que ficou conhecido como “propagandista da mordernidade”. Mas, nem mesmo a comovedora crônica que Carlos Drummond de Andrade escreveu logo após a sua morte, classificando-o como “uma das expressões mais fortes da cultura brasileira”, foi suficiente para despertar a atenção que ele, merecidamente, antes provocava.

A reprodução dos registros em jornais de manifestações das artes plásticas no Maranhão, num período de quase cem anos (1842 a 1930), objeto da investigação de Luiz de Mello, e observados no livro-ensaio, capta a iniciação artística de Celso Antonio: aos 12 anos, ainda vivendo em Caxias, arrancando aplausos em Barra do Corda, com um retrato em nanquim do jornalista e político Frederico Figueira. Em artigos e notas de jornais, ali transcritos, é possível acompanhar parte da trajetória desse artista predestinado: a saída de Caxias, ainda adolescente, a passagem por Belém e a chegada, em 1913, ao Rio, onde, logo depois foi saudado na imprensa como a grande promessa da escultura brasileira.

As previsões otimistas dos conterrâneos de Celso Antonio, como ficará demonstrado, confirmaram-se. A impressão causada por suas obras despertou a admiração da nata da intelectualidade brasileira. Suas esculturas ocupam lugares de honra em praças e museus do Rio de Janeiro e São Paulo e constam dos acervos de colecionadores brasileiros e estrangeiros. Bandeira escreveu que “os três expoentes da arte moderna brasileira são Portinari, na pintura, Lúcio Costa, na arquitetura, e Celso Antonio, na escultura”. Juízos como esse não impediram, porém, a geral indiferença.

Disposta a investir contra o que considera uma injustiça e uma omissão inadmissíveis, Leneide Duarte-Plon entregou, há duas semanas, à editora, os originais do seu livro, que, com certeza, vai dar o que falar (e pensar). Com a obra, escrita em Paris nos intervalos de sua atividade como jornalista e tradutora, ela pretende despertar a atenção do mundo intelectual e acadêmico e dos interessados em artes em geral para o significado da presença de Celso Antonio na cultura nacional. Ela mergulhou no passado do artista, principalmente no período de sua permanência no Rio, até a morte, seus estudos em Paris, observou a riqueza de seu acervo, espalhado por várias capitais brasileiras e no exterior, para chegar a uma conclusão definitiva: ele foi um dos maiores artistas brasileiros modernos e, sem a menor dúvida, o maior escultor do Maranhão no século XX.

O livro editado há dez anos pelo BEM, a pesquisa mais recente de Luiz de Mello e, agora – e principalmente -, o ensaio de Leneide Duarte-Plon ajudam a restaurar a imagem de um brasileiro genial e injustiçado, e revelam, para espanto geral, que a contribuição do Maranhão para a cultura brasileira não se restringiu ao campo da literatura ou da lingüística, abarcando um universo em que também pontificavam os seus artistas. Um mundo no qual Celso Antonio de Menezes não foi uma exceção, mas parte de um processo histórico em que o Maranhão se distinguiu pela inteligência e pela criatividade de homens e mulheres que obteriam algum reconhecimento em vida, mas depois seriam impiedosamente esquecidos.

Não foi por acaso que, para epígrafe de seu livro, Leneide Duarte-Plon tenha escolhido uma frase terrivelmente reveladora, de Carlos Drummond de Andrade. (Leia a entrevista ao lado) sobre a “condenação” da arte.

O fato é que, condenados à solidão e ao esquecimento, artistas maranhenses, como Celso Antonio – e artistas anônimos de todo o Brasil -, continuam, como se cumprissem uma maldição, à margem da história, à espera de iniciativas como essas, que ajudam a compreender melhor o mundo em que viveram, a partir do conhecimento das formas, cores, sons e sentimentos com que o interpretaram.
antoniocglima@uol.com.br

 

Uma dívida do Brasil

Em 1989, quatro anos depois da morte de Celso Antonio, o escritor Otto Lara Rezende (1922-1992) redigiu e deu ampla divulgação ao seguinte manifesto:

Como simples testemunha do meu tempo, considero um absurdo que até hoje, no final de 1989, um artista do valor e da importância de Celso Antonio não tenha tido ainda o reconhecimento que merece. É sabido que a morte impõe um período de silêncio, como se entre a posteridade e o morto ilustre fosse necessário fazer uma reflexão para reavaliar o que significou de fato a sua contribuição para a cultura nacional.

Quem quer que tenha interesse pelas artes e pelas letras no Brasil sabe a importância de Celso Antonio. Nem é preciso ter sido seu contemporâneo, ou ter acompanhado, mesmo à distância, o itinerário que o artista percorreu. Não lhe faltou sequer o sal da grande controvérsia, quando sua arte foi vítima da incompreensão e da burrice.

Celso Antonio, tendo vivido e trabalhado num momento de renovação cultural em todas as frentes, foi um grande artista inovador. Com um temperamento discreto, alheio ao marketing das celebridades de quinze minutos, o grande artista teve ao seu lado as melhores inteligências e sensibilidades do seu tempo. Bastaria citar três grandes nomes, entre os seus fervorosos admiradores: Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Rodrigo M. F. de Andrade.

Tudo o que se fizer em favor de Celso Antonio, a partir de agora, é justo e oportuno. Chega tarde, mas ainda chega a tempo de saldar uma dívida que o Brasil tem para com esse extraordinário artista, que conheci, admirei e defendi, quando foi vítima da agressiva estupidez dos que se trancam na rotina e no ar viciado do academicismo.

(Arquivos Leneide Duarte-Plon).

 

ENTREVISTA
Leneide Duarte-Plon

Retrato de um
grande artista

Ela foi repórter e redatora dos jornais Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil, O Globo e da revista Veja. Vive desde 2002 em Paris, onde atualmente é correspondente do jornal virtual Observatório da Imprensa, e tradutora, do francês para o português, dos Evangelhos, Ide André Chouraqui, Meus demônios, de Edgar Morin e da ópera Carmem, de Bizet. De férias no Rio de Janeiro (Amanhã, na Livraria Argumento, no Leblon, ela autografa novo livro, um ensaio sobre relacionamentos entre personalidades da elite intelectual francesa), Leneide (foto ao lado), que é carioca, conversou com Antonio Carlos Lima:

Por o interesse pela vida e obra de Celso Antonio?

Leneide Duarte-Plon - Conheci Celso Antonio pessoalmente no fim da década de 50, sendo eu ainda criança. Tive a oportunidade de vê-lo e visitá-lo algumas vezes, pois ele era meio-irmão de minha mãe, nascida em Caxias do Maranhão, como ele. Quando adulta, já jornalista, pude conhecer sua obra e sua importância na história da arte moderna brasileira. Um dia, entrevistando para a revista Veja o restaurador e artista plástico Cláudio Valério Teixeira, do Museu Nacional de Belas Artes na época, ouvi da parte dele a sugestão de escrever um livro sobre Celso Antonio. Algum tempo depois, comecei a fazer a pesquisa para uma obra biográfica, que concluí em dezembro de 2002.

O que explica o fato de um artista dessa dimensão estar praticamente esquecido? O seu temperamento, como homem reservado e individualista, teriam contribuído para o silêncio em torno de sua obra?

Leneide - As razões para o ostracismo de Celso Antônio são múltiplas. Esse temperamento reservado, avesso ao marketing, deve explicar em parte o esquecimento a que ele foi relegado. Mas sua obra é de grande importância e foi reconhecida por críticos de arte e colecionadores da década de 20 até a década de 60. As principais enciclopédias de arte do Brasil registram a vida e a obra de Celso Antonio, aluno e auxiliar do grande escultor francês Antoine Bourdelle, de 1923 a 1926, em Paris. Celso Antonio foi convidado por Lucio Costa para ser professor de escultura na Escola de Belas Artes, na década de 30, e posteriormente foi chamado por Costa para ser o escultor de muitas obras do Ministério da Educação e Saúde (nome do ministério à época de Getúlio Vargas), um marco da nossa arquitetura moderna. O projeto arquitetônico teve como consultor especial Le Corbusier e autoria de seis jovens arquitetos brasileiros, entre eles Lucio Costa e Oscar Niemeyer.

Que fatos novos o seu livro traz sobre o artista? O que você espera com essa publicação?

Leneide - No livro reconstituo a história da construção do Ministério da Educação e Saúde, depois chamado Ministério da Cultura, a partir de entrevistas que fiz com Lucio Costa. Além disso, pesquisei os documentos e cartas trocados por Gustavo Capanema, Lucio Costa e Mário de Andrade, entre outros, para tentar entender o que se passou durante a execução do Homem brasileiro, escultura encomendada por Le Corbusier para os jardins da entrada do prédio. A escultura de Celso Antonio, ainda em fase de execução, desabou um dia diante de convidados de Capanema. A polêmica em torno dessa escultura retrata os preconceitos racistas de Gustavo Capanema e dos “cientistas” que ele consultou para atestarem as “verdadeiras características raciais” do homem brasileiro, um típico ariano, segundo esses senhores, bem diferente do mulato retratado na escultura nunca concluída de Celso Antonio. Além disso, escândalo inaceitável, o Homem brasileiro concebido pelo escultor tinha um pênis enorme. O artista tornou-se um nome maldito das artes brasileiras ao tentar impor suas idéias e sua concepção do homem brasileiro ao poder instituído que, influenciado pelas idéias nazistas, queria promover um homem ideal de raça branca como sendo o típico representante do Brasil. Espero com o livro reabilitar a obra de Celso Antonio e resgatar a memória de um grande artista.

Que destino tomou a polêmica escultura O homem brasileiro? Onde estão as obras mais importantes de Celso Antonio?

Leneide - O Homem brasileiro, que estaria na entrada dos jardins térreos do MEC, foi destruído ainda em fase de acabamento num acidente que teve todas as características de um ato criminoso deliberadamente montado para boicotar a conclusão da obra. Outra importante e polêmica obra de Celso Antônio, O trabalhador, também representado por um homem de feições mulatas, foi alvo de grande polêmica na década de 50. A escultura acabou sendo retirada da frente do Ministério do Trabalho, no Rio, por uma campanha de imprensa dirigida por pessoas que julgavam inaceitável que além de mulato o trabalhador fosse representado de mãos para trás. Mais uma vez Celso Antonio foi incompreendido. As obras mais importantes do artista são: O trabalhador, que se encontra num parque público de Niterói; A moça reclinada e Moça ajoelhada, que se encontram no prédio do atual Palácio Gustavo Capanema (ex-MEC e ex-MES); o busto de Getúlio Vargas, que se encontra na entrada do Palácio Gustavo Capanema; a cabeça de Manuel Bandeira, que está em Recife, diante da casa em que morou o poeta; a cabeça de Graça Aranha, que está na Academia Brasileira de Letras; a Maternidade, na Praia de Botafogo, no Rio; uma mulher de cabeça baixa que está no cemitério da Consolação de São Paulo, no túmulo de Lydia Piza Rangel Moreira. Além desses trabalhos, o artista deixou uma dezena de pequenas esculturas de mulheres nuas, extraordinariamente belas. No Museu Nacional de Belas Artes há duas outras esculturas do artista: Cabeça de moça e a cabeça da filha de Roquettte Pinto..

Dez anos depois da morte de Celso Antonio, ocorrida em 1984, o Banco do Estado do Maranhão publicou o livro A arte no Maranhão,, no qual, pela primeira vez, se reconhece a importância do artista. Qual foi a sua participação nesse trabalho?

Leneide - Participei como consultora no tocante à obra de Celso Antonio. Fiz uma assessoria ao então secretário de Cultura do Maranhão, Eliézer Moreira.

Por que você deu ao livro o título de A condenação da arte?

Leneide Duarte-Plon: O título do livro é uma expressão de Carlos Drummond de Andrade. Durante a entrevista que me concedeu sobre a obra de Celso Antonio, Drummond disse que “a arte é uma forma de condenação”, justificando a dificuldade de Celso Antonio de ser compreendido e aceito pelos seus contemporâneos. Talvez por que estivesse muito à frente deles e pela concepção intransigente que tinha da arte e do artista.

(TB/11.jun.2006)

 

 

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Os pobres de Portugal




*
Antonio Carlos Lima


Reclama atenção de estudiosos o fato de que, há quase quatrocentos anos, ao tentar convencer os portugueses a colonizar o Maranhão, “o melhor do Brasil”, tenha o capitão Simão Estácio da Silveira dirigido a sua Relação sumária, publicada em Lisboa em 1624, não aos financistas exploradores das riquezas e maravilhas que jurava possuírem esses “imensos espaços de terras incultas” - mas “aos pobres de Portugal”. Os mesmos pobres que, nos anos iniciais da colonização, seriam notados por viajantes menos deslumbrados com o paraíso descrito por Silveira em sua peça de propaganda e que, três séculos depois, ainda recheiam planilhas, estatísticas e teses acadêmicas, e dão substância a discursos demagógicos em período eleitoral.
Em 1770, quando a Companhia do Comércio, aqui instalada pelo Marquês de Pombal, havia muito, introduzira o Maranhão no mercado internacional, com a sua nascente agricultura de exportação, o lavrador Valério Xavier Campelo, rico plantador de algodão nas margens do Itapecuru, fez uma representação ao próprio monarca, o Rei Dom José I, de Portugal, denunciando o enorme descompasso entre o progresso da colônia e as multidões de despossuídos. Campelo descreve a nossa realidade social e econômica, mas quem melhor o faz, anos depois, é o Secretário Geral da Província, Joaquim José Sabino, na Memória redigida em 1786 à Secretaria de Estado da Marinha e Ultramar. Ele fornece regras de “bem administrar o Maranhão” e não esquece os pobres que aqui, “faltos de toda instrução”, conviviam com negociantes portugueses, ingleses e franceses, envolvidos nos negócios do algodão e no “no comércio de artigos de luxo.”
Os manuscritos da representação desse obscuro lavrador e da Memória do capitão Sabino foram descobertos casualmente nos arquivos da Biblioteca da Ajuda, em Portugal, pelo historiador e diplomata gaúcho Milton Torres da Silva. A leitura desses documentos foi o ponto de partida de uma tese de doutorado que defendeu há trinta anos na Universidade de São Paulo e de um livro fascinante que acaba de publicar sobre importante período da História do Maranhão (O Maranhão e o Piauí no espaço colonial. Instituto Geia, 2006). O livro, que transcreve os manuscritos, constitui precioso ensaio sobre a vida maranhense entre os séculos XVIII e XIV, no contexto de uma realidade econômica transnacional, em que o Estado colonial do Norte é visto no universo da expansão do capitalismo europeu e da consolidação do domínio português na América.
Amparado em rica bibliografia e flagrante erudição, Milton Torres focaliza a experiência do Maranhão, naqueles tempos, como mercado exportador em larga escala, com a ressalva de que a riqueza proporcionada pela Companhia do Comércio, responsável pelo primeiro surto de desenvolvimento da colônia, na verdade escondia o quadro de miséria extrema em que se debatia a grande maioria da população.
Os manuscritos de Campelo e Sabino e outros documentos citados por Milton Torres têm em comum conselhos vários sobre como bem governar o Estado - o que torna oportuna a publicação desse precioso ensaio em período eleitoral, quando políticos sem plataformas costumam citar os pobres. Na carta que escreveu a Joaquim de Mello e Povoas (o sobrinho que fizera governador do Maranhão), o Marquês de Pombal ensina “a arte de um feliz governo”, e prescreve: “Não consinta violência dos ricos contra os pobres; seja V. Exa. defensor das pessoas miseráveis, porque de ordinário os poderosos são soberbos e pretendem destruir e desestimular os humildes. Esta recomendação é das leis divinas e humanas”. O próprio Sabino já admitia que muito do que prescrevia às autoridades poderia ser útil a qualquer tempo. “Ao presente, é necessário, e, para um distante futuro, ficam os políticos vindouros para poderem considerar e formar os planos então necessários.”
Além do prazer que proporcionará a leitores exigentes, o livro de Milton Torres poderia, por esse e outros exemplos, prestar-se a serventias imprevistas, como oferecer a políticos sem plataforma a chance de encontrar, nos conselhos aos governantes dos missivistas coloniais, as bases de um programa administrativo que, definitivamente, promova o desenvolvimento e elimine a pobreza. O risco é o de que, após uma consulta apressada, essa categoria de leitores venha a apontar como verdadeiro culpado por tão persistente situação ninguém menos do que Simão Estácio da Silveira. Haveriam eles de deplorar o fato de que, ao redigir a sua Relação Sumária das cousas do Maranhão e terras circunvizinhas, na qual promete aqui o paraíso terrestre, tenha o velho capitão dedicado-a justamente aos “pobres de Portugal”. Mas essa é outra história.

*Antonio Carlos Lima é jornalista

 

 

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Sem perder a ternura




*
Antonio Carlos Lima

 

         Era uma garota que amava os Beatles, os poemas de Neruda e a música brasileira. Principalmente, amava o seu país, com o seu povo simples e valente, da linhagem do araucano, o índio que nunca se deixou subjugar. Nos anos 60, animada com a promessa de uma pátria socialista, entrou na militância política e tornou-se médica pediatra, para ajudar a melhorar as condições de vida dos mais pobres. Um dia, anos atrás, aos terremotos que não raramente exibem ali o seu poder destrutivo somou-se outra tragédia em seu país: o surgimento da mais sangrenta ditadura do continente, a do general Pinochet. O pai dela foi preso e morreu em conseqüência de torturas. Ela própria e a mãe foram mandadas a um campo de concentração, onde, durante um ano, ficaram isoladas do resto do mundo.

         Mais de trinta anos depois, Michelle Bachelet Jeria, a garota que tocava guitarra na Universidade e acreditava na construção de um país mais justo, assumiu, ontem, a Presidência da República do Chile, na condição de primeira mulher eleita, por mérito próprio, para um cargo semelhante em toda a América do Sul. A cerimônia foi assistida por seu algoz, Pinochet, de sua prisão domiciliar, onde responde a processos por corrupção e assassinatos.

         Conheci Michelle Bachelet em 2004, quando ela era ainda a Ministra da Defesa. Como diretor do Centro de Estudos Brasileiros, na Embaixada do Brasil em Santiago, vi-a mais de uma vez em cerimônias públicas e atos oficiais. Bachelet era a comandante das mesmas Forças Armadas que a torturaram e mataram o seu pai e dezenas de amigos. A imagem que ela me transmitia era a de uma mulher valente e ao mesmo tempo serena, equilibrada, capaz de superar traumas pessoais, responsável em grande parte pela reconciliação de sua pátria, dividida pelo ódio e pelo ressentimento causados pela ditadura.

         Aquela mulher de sorriso largo e cativante tinha ainda, para mim, a peculiaridade de haver freqüentado, nos anos 60, o organismo que eu agora dirigia. Ao Centro de Estudos Brasileiros ela ia, então, como simples estudante de Português, língua que passou a dominar para melhor comunicar-se com os brasileiros. Eu, que vivera a experiência de trabalhar ao lado de uma mulher que por muito pouco não se tornara a primeira presidenta do Brasil, sentia orgulho de saber que aquela ex-aluna do CEB, com sua faixa presidencial, aprecia tanto o Brasil e admira tanto os brasileiros.

         Ontem, o mundo inteiro dirigiu as atenções para esse pequeno país - potência emergente sul-americana -, para observar, com espanto e admiração, a posse de uma mulher – divorciada, três filhos de dois casamentos, agnóstica - que conseguiu eleger-se Presidenta da República pela vontade da maioria da população daquele que talvez seja o mais conservador país do continente.

         Pela TV, eu também assisti com emoção à cerimônia prestigiada por chefes de Estado de todo o mundo. Mas quem eu via, e principalmente admirava, era aquela garota dos anos 60, com seus óculos à John Lennon, que amava as crianças, o Brasil e a revolução, recebendo, sem renunciar aos seus sonhos de justiça, a faixa de mulher mais importante ao Sul do Equador. Com seu doce sorriso, a socialista Bachelet anunciava não um ajuste de contas com o passado, mas una mirada para o futuro. Em nome de um programa revolucionário de justiça social, prometeu endurecer. Pero, sin perder la ternura, jamás.

*Antonio Carlos Lima é jornalista

NR: Este artigo foi originalmente publicado n'O Estado do Maranhão, de domingo 12 de março
(TB/12/mar/2006)

 

 

 

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Carta dos bispos maranhenses
Caminhando com os Santos
e ao encontro de Jesus




Caríssimos irmãos e irmãs,

         Nós, bispos católicos do Maranhão, reunidos em Santa Inês, nos dirigimos, mais uma vez, a vocês para lhes desejar muita paz ao longo do novo ano e lhes enviar uma mensagem fraterna.

         Celebramos hoje a festa dos Santos Reis. Esta festa é chamada de “Epifania” que significa manifestação de Jesus a todos os povos, representados pelos Santos Reis. O Evangelho de Mateus (Mt 2,1-12) relata que uma estrela os levou a fazerem uma longa e perigosa viagem à procura do recém-nascido “Rei dos Judeus”, até encontrá-lo e adorá-lo em Belém.

         Nós, cristãos e comunidades cristãs, somos chamados a ser hoje as novas estrelas que brilham e levam a Jesus. Somos convocados a propor, pelo exemplo e pelo entusiasmo missionário, o caminho difícil do encontro com Jesus que não se esgota nas expressões emotivas de sentimento religioso, mas exige o alimento constante da Palavra de Deus, da vivência sacramental e do compromisso ético.

         Jesus nos diz: “Vós sois a luz do mundo! Brilhe a vossa luz diante das pessoas, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,14).

         Graças a Deus, há muitas boas obras na nossa Igreja. Podemos oferecer, como presente para o Menino de Belém, o testemunho de tantos cristãos, com suas pastorais e iniciativas sociais e comunitárias.

         Reconhecemos entretanto que, às vezes, nossa luz se apaga ou se torna muito fraca, pela incoerência e pela falta de testemunho autêntico do Evangelho. Fatos recentes têm revelado a presença terrível do joio no campo da Igreja.

         Como bispos, sentimos a obrigação de vigiar e dar mais atenção ao discernimento vocacional, à formação e ao acompanhamento dos nossos presbíteros. Neste sentido, estamos tomando algumas medidas que esperamos sejam eficazes. Podemos sempre contar com a graça do Senhor que nos chama à conversão e a retomar o caminho do discipulado.

         Os Santos Reis perderam o contato com a estrela quando chegaram perto do palácio de Herodes. O palácio é símbolo da morte e da idolatria do dinheiro e do poder opressor. É a negação do projeto de Jesus que é proposta de vida plena a partir dos empobrecidos. Os Santos Reis só voltaram a enxergar a estrela quando se afastaram da casa de Herodes e se aproximaram de Belém.

         Em Belém, houve para eles uma grande surpresa. Não encontraram um Deus vestido com trajes de rei ou um menino em berço de ouro. Encontraram um Deus vestido de pobreza e de simplicidade, um Deus que aceitou partilhar a vida dos mais pobres. Eles viram e acreditaram. Por isso, voltaram por outro caminho.

         Os Santos Reis nos ensinam como ser cristãos na atual realidade.

         Hoje, o palácio do rei Herodes continua presente onde, por falta de reforma agrária e agrícola, camponeses e índios são impedidos de viverem em paz em suas terras; onde o agro-negócio e os grandes projetos prevalecem como expressão do modelo econômico hegemônico. Neste contexto, continuam no campo a exclusão, o trabalho escravo e a destruição da natureza. Crescem na cidade a miséria das periferias, o desemprego, a violência e a desumanização dos presídios. Preocupa-nos a situação de Alcântara com seu projeto espacial, objeto de interesses econômicos internacionais. Mais de trezentas famílias ficaram sem terra, sem direitos e sem segurança. A elas expressamos nossa solidariedade e nosso apoio em sua luta.

         Hoje, o palácio do rei Herodes continua presente também na corrupção, na disputa de grupos políticos em prejuízo do bem comum e no desvio dos recursos públicos para interesses particulares. Um problema sério, causado por esta desonestidade, é a situação precária de estradas  como as BR-230 e BR-316.

         Caminhar com os Santos Reis é percorrer outro caminho, o caminho de Jesus:

         - denunciando, em nome do Deus da vida, as injustiças dos herodes de hoje contra os pobres;

         - somando forças, articulando movimentos populares e pastorais sociais no mutirão para a construção de um novo Brasil e de um novo Maranhão;

         - incentivando políticas públicas, criando escolas de formação política e comitês de cidadania contra a corrupção;

         - sendo, como Igreja, estímulo de espiritualidade libertadora, reserva de esperança pascal, casa e escola de comunhão e participação, de fraternidade e partilha, antecipação do Reino definitivo.

         Ajudam-nos neste caminhar as conclusões da Assembléia do Povo de Deus – São Luís, 29.01 a 01.02.2004 – que serão retomadas e incentivadas na Romaria da Terra que se realizará em Zé Doca, nos dias 15 e 16 de julho de 2006 e na Assembléia Regional das CEBs, que se realizará em Balsas, nos dias 27 a 30 de julho de 2006.

         Jesus, Deus conosco, nos dê força para renunciar ao atalho fácil da cobiça, do egoísmo e da vaidade e para percorrer a vereda pedregosa do amor, da simplicidade e da justiça.

         Maria, estrela da evangelização, nos inspire com seu exemplo e nos ajude com sua intercessão.

Santa Inês, festa da Epifania, 6 de janeiro de 2006.

Os bispos do Regional Nordeste V
Dom Xavier Gilles, bispo de Viana
Dom Geraldo Dantas, bispo auxiliar de São Luís
Dom Franco Masserdotti, bispo de Balsas
Dom Gilberto Pastana, bispo de Imperatriz
Dom Paulo Ponte, bispo emérito de São Luís
Dom Walter Carrijo, bispo de Brejo
Dom José Belisário da Silva, arcebispo de São Luís
Dom Carlo Ellena, bispo de Zé Doca
Dom Reinaldo Pünder, bispo de Coroatá
Dom Luís D'Andrea, bispo de Caxias
Dom Ricardo Pedro Paglia, bispo de Pinheiro
Dom José do Egito Santos, bispo de Carolina
Dom Franco Cuter, bispo de Grajaú
Frei Heriberto Rembecki, administrador diocesano de Bacabal

(TB/5/fev/2006)

 

 

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Maranhão
A força que vem do interior



Ernesto Batista
O Imparcial



Impulsionados pela interiorização da indústria e o aquecimento do setor agropecuário, os municípios do interior ganharam espaço dentro da economia estadual. A capital, apesar das riquezas terem crescido num ritmo mais forte do que o estado e o país, perdeu cerca de 5% de participação no Produto Interno Bruto (PIB, soma de todas as riquezas geradas pelo estado) entre 1999 e 2003 e o interior responde, hoje, por 63,25%.
A tendência deverá se manter em 2004, por causa do aumento do volume de exportação da soja — terceiro produto da pauta de exportação do estado — e dos reflexos do aquecimento do mercado de ferro-gusa naquele ano. O Maranhão está seguindo uma tendência nacional. Em todo o país os municípios do interior têm ganhado força. Os municípios fora das capitais e regiões metropolitanas, que em 1999 produziam 46% da riqueza nacional, em 2003 saltaram para 49,7%, informou ontem o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
O PIB de São Luís teve uma taxa de crescimento nominal de 18,5% em 2003 e pela primeira vez superou a marca do R$ 5 bilhões. Este patamar significa que a capital detém hoje 36,75% do PIB maranhense, que a economia da cidade cresce num ritmo mais forte do que o estado — 5,3% em 2003 — e do que o Brasil, cujo o PIB aumentou tímidos 0,5% no mesmo período. As informações foram divulgadas ontem pelo.
A capital é a única cidade maranhense que figura nas listagens dos PIBs setorizados. Em relação a indústria São Luís ocupa a 62º e seus R$ 1,82 bilhão representam 0,29% das riquezas geradas pelo setor no país. Em relação ao setor de serviços, a capital ocupa a 33º posição e soma R$2,57 bilhões ou 0,37% do setor no país. Quando ao assunto é administração pública, a cidade aparece na 39º e com seus R$ 556,27 milhões representa 0,26% do setor.
Segundo o diretor regional do IBGE, Pedro Guedelha, o estudo divulgado ontem serve para mostrar como a economia municipal está se desenvolvendo. “O estudo traz o PIB setorizado, ou seja mostra o quanto a agropecuária, a indústria e o comércio se desenvolveram de um não para o outro e como os impostos e o setor da administração pública influenciam no desenvolvimento econômicos das cidades brasileiras. Isso é um marco”, afirmou.
Apesar da boa notícia nem tudo são flores para a capital. São Luís, apesar de somar um PIB de R$ 5,13 bilhões, perdeu posições no ranking nacional e caiu da 27º posição em 2002 para 42º no ano seguinte. No ranking nordestino, a capital perdeu duas posições. São Francisco do Conde, um município ligado a industria do petróleo, na Bahia, e Maceió, em Alagoas, superaram São Luís.
Em relação ao PIB estadual, que em 2003 somou R$ 13,98 bilhões, a capital está perdendo participação. A tendência vem se mostrando desde 1999. Na época representava cerca de 41% do PIB estadual e de acordo com o último relatório do IBGE São Luís soma 36,75%.
Um dos motivos para explicar esta perda de espaço é o aquecimento de agropecuária que vem acontecendo desde 2002 e pulverização e parte do parque industrial maranhense pelo interior do estado.
O economista Ribamar Campos disse que o levantamento do IBGE serve como uma ferramenta e administração para os prefeitos dos municípios maranhenses. “É uma radiografia da economia de cada município. A partir de um estudo como este os prefeitos podem planejar em que setor vão trabalhar e montar projetos de desenvolvimento economia e de geração de emprego e renda. A partir deste se pode buscar o desenvolvimento equilibrado”, comentou.
Um bom exemplo do cenário de desenvolvimento equilibrado é Itinga do Maranhão. Este município de 27 mil habitantes, que detém o 15º PIB do estado. A economia do município soma R$ 102,7milhões em 2003 e subiu uma posição em relação ao ranking estadual.
O município teve um crescimento nominal do PIB de 22,48% em um ano e tem a sua principal força econômica — R$ 41,6 milhões — concentrada no campo. Porém os outros setores pesquisados não estão tão distantes e apresentam um cenário de equilíbrio. “Isso foge a regra. Em geral se tem um setor da economia muito desenvolvido e que acaba sustentando os demais”, observou Campos. (EB)

PIB do MA cresce 5,3%

O PIB do Maranhão cresceu 5,3% em 2003, o melhor resultado dos últimos nove anos. A taxa de crescimento é a quinta melhor índice do Brasil e indica que o Estado cresceu num ritmo mais forte que o país. A taxa de crescimento foi suficiente para fazer que o conjunto das riquezas do estado fossem avaliadas pelo IBGE em R$ 13,98 bilhões, o que representa 0,9% do PIB brasileiro, calculado em R$ 1,55 trilhão. (EB)

Açailândia é a segunda economia do MA

De acordo com o relatório lançado ontem, no ranking estadual também houve mudanças significativas. Os destaques ficaram por conta de Açailândia, que se tornou a segunda economia do estado, e Tasso Fragoso, que dobrou o seu PIB nos últimos cinco anos e passou a figurar como uma das dez maiores economias do estado.
O primeiro, teve a economia impulsionada pelo desenvolvimento do setor industrial, com a siderurgia, e do agronegócio. Como resultado acabou desbancando Imperatriz, que tradicionalmente é vista como era a segunda economia do estado. Açailândia praticamente dobrou o seu PIB saltando de R$ 481 milhões em 2002, para R$ 822,2 milhões em 2003 e hoje representa 5,88% da economia estadual..
Por sua vez, Imperatriz, que teve um crescimento nominal forte, porém foi bem mais tímido do que o apresentado em Açailândia: apenas 27,52%, o suficiente para elevar o PIB da cidade para R$ 623,62 milhões.
Já Tasso Fragoso ganhou 20 posições no ranking. O município tem uma economia que soma R$ 137,4 milhões e teve um crescimento nominal de 150,54%. O impulso veio do agronegócio ligado as plantações de soja na região. Porém, o crescimento do setor acabou causando um distorção na economia local e o setor agropecuário supera todos os outros segmentos juntos.
Segundo o economista do IBGE, José Reinaldo Júnior, foram as movimentação do mercado internacional que favoreceram o crescimento registrado em Açailândia, Tasso Fragoso e São Luís. “Nesta época havia um aquecimento da economia exportadora brasileira e isso impulsionou a economia dos municípios que produzem itens que compõe a pauta exportadora maranhense”, explicou. “Em 2004 esta tendência deverá se manter porque foi somente este ano que esta tendência começo a se reverter”, completou Júnior.
Um outro aspecto revelado pela pesquisa do IBGE é a distribuição da riqueza entre os municípios maranhenses. Em 2003, as quinze maiores economias municipais somavam 61,68% dos PIB do Maranhão e os 70 municípios de menor PIB não somavam juntos mais que 10% da economia maranhense.
Outro dado interessante é que entre as dez cidades mais ricas do estado sete estão localizadas na região sul do estado e entre os 15 mais pobres, 12 estão localizados na região norte. (EB)

Os MAIS MAIS
As 15 maiores economias do Maranhão

São Luís R$ 5,13 bilhões 36,75%
Açailândia R$ 822,2 milhões 5,88%
Imperatriz R$ 623,6 milhões 4,46%
Balsas R$ 399,2 milhões 2,85%
Caxias R$ 252,7 milhões 1,80%
Codó R$ 218,7 milhões 1,56%
Timon R$ 200,9 milhões 1,43%
Bacabal R$140,4 milhões 1%
Tasso Fragoso R$137,3 milhões 0,98%
S.J. de Ribamar R$ 129 milhões 0,92%
Coelho Neto R$ 122,3 milhões 0,87%
Santa Inês R$119,8 milhões 0,85%
Santa Luzia R$109,1 milhões 0,78%
Pindaré-Mirim R$ 108,2 milhões 0,77%
Itinga do MA R$ 102,7 milhões 0,73

Fonte: IBGE

 

 

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Entrevista: Luiz Garcia


por José Reinaldo Marques


Para o carioca Luiz Garcia, a boa literatura ajuda o jornalista a usar as palavras e fazer do texto algo que realmente fascine o leitor. Até porque, na sua opinião, “escrever é sempre um ato de presunção” e todo emissor de informações deve estar muito atento à sua capacidade de comunicação.

Com 52 de anos de profissão, Luiz Garcia começou a carreira numa época em que os jornais eram verdadeiros guetos de partidos políticos e pouco profissionalizados. Estreou como estagiário na Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda. Mais tarde, após rápida passagem pelo Globo como copidesque, dirigiu a sucursal carioca do Estadão — “por intermediação do Odylo Costa, filho, fui convidado pelo Prudente de Moraes, neto; fiquei lá cinco anos” — e participou do lançamento da Veja, em 1968. Chefiou a redação da revista no Rio, comandou o escritório da Abril em Nova York, voltou ao Brasil e manteve-se como um dos editores-chefes da revista por quatro anos, até se transferir para a Visão. Quando esta foi vendida, em 1974, voltou para o Globo, onde está até hoje.

ABI Online — Qual é a sua formação acadêmica?
Garcia — Completei o que na época se chamava de curso Científico, mas já então trabalhava em jornal. Naquele tempo não havia o registro profissional, que veio muito tempo depois. Eu então completei o secundário como foca na Tribuna da Imprensa, onde trabalhei muitos anos. Depois consegui uma bolsa na Universidade de Columbia (EUA), para um curso que é o equivalente ao mestrado, mas, como não tinha a graduação formal, eu o completei como uma espécie de estudante especial.

ABI Online — Quando e como ingressou no jornalismo?

Garcia — Comecei pelas relações de amizade da minha família com o jornalista Carlos Lacerda, dono da Tribuna. Fomos  seus vizinhos em Copacabana. Meu pai era pediatra e tratava dos filhos dele. Então, quando decidi começar a trabalhar, pedi-lhe uma oportunidade. Comecei em fins de 1953 e fui foca na Reportagem cerca de um ano e meio, mas naquele tempo os estágios nos jornais eram inteiramente amadorísticos e eu então, como filho de amigo, não tinha a menor remuneração.

ABI Online — Era um procedimento comum?
Garcia — No início da década de 1950, os jornais eram muito mais veículos de projetos políticos do que de outra coisa e funcionavam com poucas pessoas. É difícil para o jornalista e o leitor de hoje imaginar. Uma edição completa da Tribuna da Imprensa saía com no máximo 18 páginas.

ABI Online — Mas um estreante conseguia aprender as técnicas do jornalismo?
Garcia — Apesar do improviso, naquele período já começava a se desenvolver a técnica de lead, que foi trazida ao Brasil por dois jornalistas brasileiros: o Lacerda, na Tribuna da Imprensa, onde quase não era notada por causa da linha editorial extremamente política; e o Pompeu de Souza, no Diário Carioca.

ABI Online — E quando acabou o estágio?
Garcia — Fui contratado para Reportagem Geral e, aos 25 anos, fui exercer a função de chefe de Redação. Não tinha experiência para exercer a função, mas essa bagunça era então uma característica dos jornais, que não eram empresarialmente organizados. Mesmo assim, circulavam no Rio cerca de 20 jornais diários. Fechava um, abria outro; e poucos foram aqueles de que a gente pode se orgulhar de terem dado uma grande contribuição à imprensa.

ABI Online — Quais eram estes?
Garcia — Um era o Correio da Manhã, ligado à UDN, pela sua tradição e o estilo literário das pessoas que trabalhavam lá, como o Antônio Callado e o Otto Maria Carpeaux. Posso apontar também o Diário Carioca, pela inovação, a agilidade e o bom humor.

ABI Online — Quando os donos de jornais perceberam que era preciso reformular, para não perder credibilidade e leitores?
Garcia — Acho que no fim dos anos 50, com a reforma do Jornal do Brasil, que iria se transformar no melhor de todos eles. Gradativamente, mudaram também a Tribuna e a Última Hora. O resto era estilo “banho de sangue”.

ABI Online — Como foi sua passagem pela Veja?

Garcia — Era muito amigo do Odylo Costa, filho, diretor da Editora Abril no Rio, e ele me chamou para chefiar a Redação da revista, que ia ser lançada. Isso foi em 1968. Um ano depois, fui ser correspondente da Veja em Nova York. Por isso até não sou testemunha dos anos mais difíceis que a imprensa passou sob a ditadura militar.

ABI Online — Em que função fez sua estréia no Globo, em 74?
Garcia — Cheguei sem ter uma função definida, mas comecei como subeditor-chefe, que era um cargo que podia servir para tudo. Naquela época as redações ainda não eram estruturadas por editorias. Então, um editor ou chefe de reportagem acumulava várias funções. No Globo, que era um jornal grande, havia um chefe de reportagem, Alves Pinheiro, que mandava no jornal inteiro. Somente mais tarde, talvez por influência da imprensa norte-americana e européia, é que os jornais passaram a funcionar com a segmentação das editorias, o que coincide também com o surgimento da Veja, que era subdividida por áreas de especialidades.

ABI Online — Qual foi o impacto dessa mudança na imprensa brasileira?
Garcia — Começava ali a despedida do caráter amadorístico que ela carregava desde o início. Quando comecei, a grande maioria dos periódicos brasileiros era a expressão das ambições dos seus donos. Falar no Estado de S. Paulo era se referir ao jornal dos Mesquita; no Globo, o veículo do Roberto Marinho; Última Hora, Samuel Wainer; e assim por diante. Com o desenvolvimento da imprensa em relação às suas comunidades, à indústria e à exigência dos leitores, tudo ficou mais profissional. O empreendedor descobriu que ganhava mais dinheiro fazendo do seu jornal um instrumento a serviço dos interesses dos leitores — que passariam a se multiplicar e a contribuir com o aumento de anunciantes — do que simplesmente um instrumento de uma vontade política, que funcionava como auxiliar de uma atividade empresarial.

ABI Online — Esta foi a grande descoberta do empresariado da mídia no início dos anos 60?
Garcia — Exatamente. De repente se descobriu que o jornal podia ser uma grande empresa economicamente bem-organizada e que, quanto mais credibilidade tivesse juntamente ao leitor, mais iria faturar. Essa mudança de comportamento das empresas jornalísticas coincide com a conscientização da população em relação aos direitos do consumidor e os jornais perceberam que deveriam cumprir o papel de defensores desses direitos. Foi uma revolução na imprensa, porque diminuiu brutalmente o número de jornais. Os picaretas foram todos jogados no escaninho e os que buscavam a credibilidade começaram a ter vantagem, porque passaram a prestar um serviço social mais adequado. Esses foram os benefícios quando os empresários começaram a adquirir a consciência de que deveriam ser mais associados ao bem-estar das comunidades.

ABI Online — Esta linha de pensamento se mantém?
Garcia — O Globo pratica esses princípios há muitos anos e é próspero. Já o Jornal do Brasil, que deixou de agir dessa maneira, foi para o buraco com uma rapidez extraordinária.

ABI Online — Recentemente, o senhor fez um alerta sobre as tentativas de manipulação dos meios de comunicação. Por quê?
Garcia — A tentativa de chantagem é muito fácil de acontecer. Uma pessoa chega e oferece dinheiro, em troca de uma vantagem qualquer. Mas fica mais complicado se aproximar do jornalista e ofertar uma notícia exclusiva, porque nesse caso o repórter, ou o colunista, não se sente ofendido nos seus escrúpulos e acaba cedendo em função de contar com uma informação privilegiada. Isto acontece sem que o profissional perceba que aquela nota exclusiva atende aos interesses espúrios do grupo A contra os do grupo B — e esse não é o papel do jornalista. Precisamos ter uma vigilância extrema para saber quando aceitar ou rejeitar uma informação, especialmente hoje, quando há tanto araponga por aí ganhando dinheiro vendendo matéria para jornal.

ABI Online — O Globo adotou algum mecanismo para se defender desse tipo de assédio?
Garcia — De uns tempos para cá, instituímos o seguinte: qualquer informação sensacional, espetacular que chegue de graça à redação deve ser encarada como ponto de partida de uma apuração e não como matéria pronta. É claro que, para a imprensa de modo geral, às vezes a notícia é tão saborosa que escapa. Alguns editores são mais rigorosos que outros e há os que acham que se deve publicar tudo, deixando o julgamento por conta do leitor. Eu sou da escola do maior rigor, pois entendo que qualquer denúncia é o ponto de partida de uma apuração e que incorre em grave erro o jornalista que acha que resolve esse problema ouvindo os dois lados.

ABI Online — É preciso ir mais além?
Garcia — Com certeza, porque escutar os dois lados é necessário, mas nesse caso é a forma mais preguiçosa do mundo de fazer jornalismo. O repórter tem que ouvir as duas fontes, mas deverá apurar muito bem quem está com a verdade.

ABI Online — Essa seria então a melhor linha de ação para se fazer jornalismo investigativo sem riscos e medo de ameaças?
Garcia — Devemos resistir a intimidações até por questões de sobrevivência, mas é preciso também evitar as tentativas de preencher a publicação com acusações. O dever da imprensa é defender o interesse público quando este está em jogo e o fato é comprovado. Pois notícia é: alguém disse, nós fomos checar e é verdade. O direito à privacidade também deve ser respeitado. No Brasil, os políticos raramente envolvem os parentes na campanha eleitoral, ao contrário dos Estados Unidos. Lá, se o repórter descobre que o político que posava de chefe de família exemplar bate na mulher e chuta o cachorro, isso é notícia legítima, porque ele transformou a vida particular em domínio público.

ABI Online — O senhor se lembra de algum episódio ocorrido no Brasil?
Garcia — Todo mundo respeitou, com uma única exceção, o fato de que o Fernando Henrique Cardoso tem um filho com uma jornalista. Ninguém dava a notícia porque a moral pessoal do ex-Presidente nunca fez parte de seu capital para conquistar votos. Agora, quando o Itamar Franco apareceu de porre num desfile de escola de samba, que é público, a coisa foi diferente.

ABI Online — Quanto à questão da preservação da fonte, a repórter do New York Times que foi presa agiu certo?
Garcia — Ela está absolutamente correta e é muito curioso que isso tenha acontecido nos EUA, onde a liberdade de imprensa, de maneira geral, sempre foi respeitada. Esse caso mostrou que eles têm uma lei muito retrógrada e só teve grande repercussão porque a Judith Miller é famosa. Mas todo ano vários jornalistas vão para a cadeia por decisão judicial.

ABI Online — O que o senhor acha da decisão do Governo Bush de vetar um projeto de lei que protege o jornalista da obrigação de revelar as suas fontes?
Garcia — Está perfeitamente de acordo com a personalidade do Presidente dos EUA, que é autoritário e tenta controlar os meios de comunicação e a opinião pública. É um governo de direita no sentido mais clássico e antigo que eu conheço.

ABI Online — Ser articulista de um grande jornal fazia parte dos seus planos?
Garcia — Não, porque eu morro de medo da falta de assunto. Há muito eu faço a crítica diária do jornal, mas já estou pensando em deixar uma das duas coisas.

ABI Online — Por quê?
Garcia — Porque ando meio cansado. Mas fico na dúvida, porque o que me dá mais prazer é fazer o artigo, mas é na crítica do jornal que tenho mais leitores.

ABI Online — Suas críticas são bem-recebidas pelos colegas de redação?
Garcia — Sim, porque também faço elogios e, se erro, peço desculpas. Não sei de casos de irritação. Em geral, quem não gosta me fala e briga comigo e, no fim, fazemos as pazes.

ABI Online — Numa entrevista, o senhor disse que “escrever é sempre um ato de presunção”. Por quê?
Garcia — Porque você presume uma capacidade de comunicação, que é uma coisa extremamente complicada. Às vezes, entendemos o significado de algumas palavras quando as pronunciamos. Quando as escutamos, porém, elas podem ser interpretadas de outra maneira. O valor de um texto está no receptor e não no emissor. Então, a idéia de escrever um artigo assinado é uma demonstração de presunção do autor, que acha que pode ser corretamente entendido por todo mundo.

ABI Online — O senhor sempre foi um bom redator?
Garcia — Sempre fui muito tímido e, nos primeiros anos da minha formação profissional, era uma porcaria de repórter. Então, eu me refugiava no texto para compensar minhas deficiências na apuração.

ABI Online — Ficou mais fácil escrever com o computador e a fotocomposição?
Garcia — As ferramentas acopladas à máquina, como dicionário e sites de pesquisa, ajudam o jornalista a escrever. Houve também uma mudança no estilo das matérias.

ABI Online — Em que sentido?
Garcia — Antigamente, como a paginação não era uma arte exata, os dados mais importantes não podiam ficar no pé da matéria, porque na oficina, se os textos estivessem estourando na página, o paginador os cortava e a compreensão da notícia podia ficar comprometida. Isso não existe mais. Hoje a tecnologia permite que você deixe para o fim o que o texto tem de mais de surpreendente.

ABI Online — E como ficam o lead e o sublead?
Garcia — Hoje defino o lead como aquilo que faz o leitor continuar lendo. Há poucos anos, um jornal norte-americano fez uma experiência: durante 15 dias publicou uma página contando uma história escrita em quatro estilos diferentes. Somente o primeiro texto foi construído no da pirâmide invertida, com lead e sublead. Quando os leitores foram consultados, o formato tradicional ficou em terceiro lugar na sua preferência.

ABI Online — Qual é a sua opinião sobre o ensino do Jornalismo nas universidades brasileiras?
Garcia — Imaginar que os jovens repórteres estão sendo bem-treinados nas escolas de Jornalismo esconde uma armadilha, pois isso não é verdade. Aqui no Globo, abrimos a cada seis meses um concurso para estagiários e, entre 350, apenas 15 conseguem ser classificados para o curso de trainee que criamos. Isso prova que o ensino do Jornalismo não é de alta qualidade. Inclusive, sofremos muito com a falta de pessoas de outras profissões na redação.

ABI Online — Como assim?
Garcia — Gente formada em História, Ciência Política e Literatura, por exemplo. É claro que 80% do corpo de uma redação devem ser montados com profissionais de formação jornalística básica, mas precisamos de ajuda nessa difícil tarefa de administrar, escolher e editar informações muito variadas.

ABI Online — O senhor é contra a exigência do diploma de Jornalismo?
Garcia — Sim, mas sou a favor da exigência de um diploma universitário e de maior competitividade entre as faculdades de Jornalismo, dando-lhes a liberdade de ter currículos diferenciados.

ABI Online — Por quê?
Garcia — Porque os veículos são obrigados a contratar pessoal com formação uniforme para uma profissão que lida com uma grande variedade de conhecimento. O modelo tradicional diminui a capacidade de se preparar profissionais que já viriam da universidade com um certo grau de especialização, ou seja, em História para a editoria de Política, ou em Ciência Natural para atuar no noticiário científico.

ABI Online — Em 1992 foi lançado o “Manual de redação e estilo" do Globo, que o senhor ajudou a organizar. Ele é bem-utilizado no jornal?
Garcia — Creio que sim. Ele foi criado para a ajudar o jornalista a desenvolver seu próprio estilo e não para padronizar o estilo do jornal. No entanto, como numa grande redação há um alto índice de rotatividade de profissionais, é difícil saber o grau de importância dado ao manual. Muita gente gosta e também sou procurado por advogados que recorrem ao manual para criar seus textos.

ABI Online — Em que estágio se encontra o jornalismo brasileiro?
Garcia — No sentido da ética, melhorou, mas ainda apresenta alguns defeitos. Os veículos ainda não sabem administrar bem essa questão, não conseguiram superar os preconceitos que são da própria sociedade. Ao invés de reagir a eles, acabam absorvendo-os.

ABI Online — As CPIs dos Correios e do Mensalão têm sido noticiadas com a devida isenção?
Garcia — A cobertura é boa, mas, como já disse, devido ao excesso de denúncias prontas que chegam às redações, principalmente por causa de um mercado que se tornou altamente competitivo, nem sempre há tempo para administrar corretamente o fluxo de informações. As revistas semanais, por exemplo, ao mesmo tempo em que são autoras de grandes revelações, cometem muitas gafes, porque publicam quase integralmente as denúncias que recebem.

ABI Online — De que maneira essas gafes podem ser evitadas?
Garcia — É muito simples: é só tratar as denúncias como pautas e não como matérias prontas. Esse mecanismo de tirar do fato a informação e transformá-la em notícia nós conhecemos e executamos há muitos anos, com a melhor das intenções, mas ainda de forma deficiente. A sorte é que ainda não surgiu coisa melhor.

 

jornal Turma da Barra
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Jean-Paul Sartre faz 100 anos
(1905 - 1980)


Jean-Paul Sartre, filósofo, romancista, novelista, teatrólogo e maior intelectual do existencialismo, - filosofia que proclama a total liberdade do ser humano. Foi premiado com o Nobel de literatura de 1964, que desconsiderou.

Nasceu em 21 de junho de 1905 e faleceu em 15 de abril de 1980, em Paris. Ficou órfão de pai muito cedo. O pai, oficial da marinha, faleceu ainda jovem, dois anos depois do nascimento do filho. Foi, com sua mãe, Anne-Marie Schweitzer, viver em casa de seu avô materno, Carl Schweitzer, de origem alsaciana e protestante, professor de Alemão na Sorbone, em um apartamento no sexto andar de um edifício em Meudon, nos arredores da capital, nas proximidades do Jardim de Luxemburgo. O célebre pastor Albert Schweitzer, prêmio Nobel da Paz de 1952, era sobrinho de seu avô, primo de sua mãe.


Sartre foi um dos filósofos mais emblemáticos da 2ª metade do século XX. Foi professor de Filosofia, em pequenos liceus de província, em França. Logo a seguir à 2ª Guerra Mundial aparece como um dos principais criadores do existencialismo, destacando-se também como romancista, dramaturgo e activista político. Após uma aproximação aos países comunistas, afastou-se das suas posições em 1956, aquando da revolta na Hungria. A sua ação política torna-se então mais individualista. Em 1967 preside ao "Tribunal Russel" e em 1970, assume em França a direção de algumas publicações de extrema-esquerda. Ao longo da sua vida, foi acusado inúmeras vezes de assumir posições contraditórias com as suas próprias idéias.

"A literatura é mais importante que a filosofia"

Pequeno trecho do diálogo de Sartre com Simone de Beauvoir em A cerimônia do adeus

Simone - Prefere que as pessoas gostem da sua filosofia ou da sua literatura, ou quer que gostem das duas?
Sartre - Claro que responderei: que gostem das duas. Mas há uma hierarquia, e a hierarquia é a filosofia em segundo e a literatura em primeiro. Desejo obter a imortalidade pela literatura, a filosofia é um meio de aceder a ela. Mas aos meus olhos ela não tem em si um valor absoluto, porque as circunstâncias mudarão e trarão mudanças filosóficas. Uma filosofia não é válida por enquanto, não é uma coisa que se escreve para os contemporâneos; ela especula sobre realidades intemporais; será forçosamente ultrapassada por outros porque fala da eternidade; fala de coisas que ultrapassam de longe o nosso ponto de vista individual de hoje; a literatura, pelo contrário, inventaria o mundo presente, o mundo que se descobre através das leituras, das conversas, das paixões, das viagens; a filosofia vai mais longe; ela considera que as paixões de hoje, por exemplo, são paixões novas que não existiam na Antiguidade; o amor...

Frases antológicas de Sartre:

"É sempre fácil obedecer quando se sonha comandar."
"Quanto aos homens, não é o que eles são que me interessa, mas o que eles podem se tornar"
"O que você fez, daquilo que te fizeram?"
"O desejo exprime-se por uma carícia, tal como o pensamento pela linguagem.”
"É o que posso expressar dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado porque não se criou a si mesmo, e como, no entanto, é livre, uma vez que foi lançado no mundo, é responsável por tudo o que faz."
"Um anticomunista é um cão"
"Quando os ricos fazem a guerra, são sempre os pobres que morrem."
"Ainda que fôssemos surdos e mudos como uma pedra, a nossa própria passividade seria uma forma de ação".
Sartre sobre Che Guevara: "um dos mais completos seres humanos de nosso tempo"