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Matéria 3

 


ABC
Arcádia Barra-Cordense

Leitura de domingo

 

Numa parceria com a ABC - Arcádia Barra-Cordense -,
o TB publica três artigos que constam na primeira edição da Revista da Arcádia Barra-Cordense:
São de autoria de Alex Macedo, Francisco Brito e Eduardo Galvão.
Boas leituras!

 

 


Crônica

Eles estão eternizados em nossos corações
jornal Turma da Barra

*Alex Macedo

À Mirella Lopes Nunes, com muito carinho!


      “Que seja eterno enquanto dure!” Essa frase, repetida por muitas pessoas nas mais diversas situações, traduz o apego a algo que gostamos muito e, por tal, não queremos nos desfazer, nos afastar, não queremos fechar os olhos para o dia não passar.
            Eterno enquanto dure... Uma contradição existente por conta da dura realidade. Sim, infelizmente não temos o poder de tornar as coisas eternas, então, temos que aproveitá-las da melhor forma. Um sorriso, um abraço, um elogio, um “eu te amo” fazem certos momentos dignos de serem eternizados, nem que sejam por meros segundos.
            Essa frase foi dita pelo poeta, certamente, no calor do momento, naquela situação natural de ebriedade. Sim... A vida nos causa um certo torpor do qual às vezes não queremos nos desfazer. Mas, contrariando todas as nossas expectativas, eis que, num determinado dia, nos chacoalham e acabam com nosso entorpecimento diante daquela coisa que jurávamos ser eterna. Nesse momento, o poeta canta sua dor e universaliza nosso egoísmo.
            Somos naturalmente assim: egoístas. As coisas seguem um ciclo natural, mesmo que não concordemos. Concordo com Chaplin, seria realmente magnífico começarmos com a morte, nos livrarmos desse peso já no início de nossas vidas, para daí sim terminarmos num ótimo orgasmo. Mas ao nos voltarmos para realidade, vemos sua dureza.
            Nascemos depois de nossos pais e avós, pessoas das quais, certamente, mais gostaremos no decorrer de nosso ciclo vital. E já começamos em desvantagem, com alguns anos atrás. Apegamos-nos a essas pessoas, amando-as, devotando-as nossas mais sinceras admirações. Doamos-nos tanto nessas relações que nos “esquecemos” da diferença natural de nossas idades e que a vida nos é dada em conteúdo limitado.
            Queremos, pois, sempre mais. Passar mais finais de semanas na casa dos avós, sendo, naturalmente paparicados por eles. Ficando na certeza da segurança. Da segurança de que irão nos proteger no caso de algum ataque paterno. Pois se os avós batiam em nossos pais, chegou a hora de compensarmos e, simplesmente, curtir o conforto de seus abraços, de suas risadas e histórias infindáveis.
            E a cada reunião, a cada final de semana, no gozo de nossas sensações, tencionamos estender ao máximo todos os sorrisos presentes, os telefonemas justificando as ausências, as brigas. Nessas reuniões, nossos olhos parecem câmeras fotográficas a emoldurar cada ente presente.
            Se você sente isso também, sorria! Você conseguiu viver cada segundo como se fosse o último. Você soube valorizar aqueles que, antes mesmos de sua chegada, já esperavam ansiosos pra te premiar. Você soube compensar essa incômoda diferença de idade entre você e seus pais, entre você e os pais de seus pais. E se hoje a ausência de quem você gostava tanto te fez perceber que não conseguimos congelar esses belos momentos, não se engane: Eles estão eternizados em nossos corações...

*Alex Macedo é estudante de História da Universidade Estadual de Goiás

(TB/12/abr/2009)

 

 

Artigo

Antonio Almeida:
O poeta das cores

jornal Turma da Barra


*Francisco Brito


            Do muito que se tem escrito na grande imprensa de São Luís, sobre Antônio Almeida, desde sua partida rumo para outras paragens, enfocando sua magistral marca gravada nas artes plásticas maranhenses como pintor, escultor, tapeceiro, ilustrador, entalhador e ceramista, poucos expuseram do poeta Antônio Almeida.
            Filho do cearense Raimundo Almeida e da piauiense Catarina Alves Almeida, nascido a 27 de maio de 1922 nas matas da Lagoa do Jacaré, situada a 10 quilômetros de Barra do Corda, Almeida estudou apenas o 2º ano primário. Tamanha dificuldade “de zero letrudo virar assim letrado”. Em cima dum jegue viajava léguas para angariar alguns livros do amigo, o poeta Olímpio Cruz. Leu de Castro Alves a Camões. Certa vez, relatando suas reminiscências, atravessou o rio Mearim carregando livros numa mão, enquanto a outra dava braçadas para alcançar o destino desejado do outro lado do rio. Mas, aqueles obstáculos, quase intransponíveis, ajudaram o jovem Antônio Almeida a não desistir da árdua caminhada.
            Privado do acesso aos estudos, em 1944 ruma pra São Luís, numa longa viagem que durou mais de um mês. Chegando à capital se hospeda “numa espelunca cheio de pulgas e baratas” na rua do Ribeirão, centro. Foi por lá, mais precisamente na rua do Sol, próximo ao atual Teatro Arthur Azevedo, que se reuniam nos anos 40 a 50 as mentes mais iluminadas da intelectualidade maranhense. O “caboclo” Almeida se metia nas rodas de saraus com poetas e escritores como Ferreira Gullar, Lago Burnett, José Chagas, Nauro Machado, Arlete Nogueira da Cruz, Bernardo Coelho de Almeida, Odylo Costa, filho, além de fotógrafos e jornalistas. Daquelas reuniões boêmias surgiu o chamado Movimento da Movelaria Guanabara.
            Daqueles saraus atraiu o gosto pela literatura. Muitas de suas obras como pintor, Almeida já ensaiava as primeiras letras como autocrítico:
            “Estar bem com a minha arte, que é uma verdade em mim, e verdade é abrangência, é grandeza da qual participamos como obra de Deus que somos”.
            Ou, como, um intuitivo numa mesa de bar autocaricatura-se e sentencia:
            “Uma das minhas asas é para vôo libertário, e a outra para voar dentro de mim mesmo, me conhecendo”. Antônio Almeida não deixa uma grandiosa obra literária, considerando-se em números. Apenas vieram a público dois livros. Rastros de Procura, 1993, editado pela Academia Maranhense de Letras e Vida a Ir – Mensurando o Imensurável, 2001, publicação própria em parceria com Ediceuma.
            No prefácio de Rastros de Procura, o escritor José Louzeiro, observa: “O poder de criatividade de Antônio Almeida é de tal forma exuberante... A imperfeição dos versos, Almeida compensa com a força da emoção. As dificuldades com a língua, vence a espontaneidade de suas evocações”.  José Sarney, compadre e amigo no preâmbulo de Vida a Ir... justifica o poeta do pintor Almeida: “Veio a mão da vida e tapou seus olhos... acasalou-se sem remissão...  à literatura, sua opção vocação de vida... Este livro feito de páginas de escrita solta, pedaços de poesia e poemas formais constitui uma obra marcada na literatura maranhense contemporânea” e encerra: “...vendo tudo que os outros não vêem: o universo, com as constelações da transfiguração das palavras e cores”. Ao ver os primeiros escritos de Almeida, o consagrado poeta e crítico Ferreira Gullar profetiza: “Opaca minha poesia/ Se a iluminas, alumia/ Não comas nunca./Não durmas nunca./ Sê o vento,/ Vai com o vento.” Ao que Almeida retrucou: “Tua virtude quis louvar,/ Popular, bem do teu jeito,/ gata agreste, irrigação”
            Tanto a primeira quanto a segunda obra, Almeida expõe suas inquietações do autodidatismo no poema “Livroluz”: “Alumia/ como o dia/ mas é turva como a noite/ a estante vazia/ Pão nosso de alfabeto que incendeia..../paz que inflama e conduz, o livro é/ na estante de nós mesmos, a candeia...” a apreensão do viver na terra  numa quadra metrificada em sextilhas “O tempo rastejei/ Do ontem rastejado/ não é o hoje alcançado/ o amanhã que sonhei”, ou poematizando para se achegar à perfeita harmonia interior em “Consubstancial II” “... Gema/ somos de mesma iluminada graça/ graças! Gêmea operária poesia”. Mas, revela-se um ser finito no neológico “Semprevida” “... dia e noite, renascente/ do levante ao poente/ a luz o alimentará, tornará fruto a este chão,/ ressurreição tornará”. Acalma-se com as suas lembranças do passado distante em “Ontem Reamanhecer”: “Saudades se encontrando,/ cantigas reflorando/ de bem querer bem sonhado/ -Ah! Romântico passado prazer que juvenesce,/ -Ontem que reamanhece”, porém, o poeta-homem sabe que um dia, em sua vida virá e não terá volta, como em “Lágrimas que orvalho fosse”: “....Chore-nos, choro do céu,/ lágrimas de orvalho, seja!/ Rastros de procura... achados,/ pé na estrada, já me volto”. E, finaliza num tom profético no seu “quase epitáfio” no poema “Legado”: “No meio do caminho em que caminho/ A cova/ Em que me planto regermino sonho/ Que é vida sempre de sol a sol caminhar”.
            Olhar a obra literária almeidiana é como estar de olhos vendados. Do obscuro resplandece a luz! Da flor ingerminada aflora os eflúvios dos mais lindos nos jardins de academus. Do ruído dos seus versos procede a sonoridade única ressoando no tempo e no espaço. Assim foi e será Antônio Alves de Almeida. Porque a sua matéria se extinguiu, mas, seu legado se eternizará nas ruas, becos, casarões, avenidas e, principalmente na Rua Miguel Couto, Monte Castelo, outrora de muitas labutas, mas, também, de inventividade e alumbramento.

*Francisco Brito de Carvalho é poeta e escritor, mora em São Luís (MA)

(TB/12/abr/2009)

 

 

Crônica


Os rios e eu
jornal Turma da Barra


*Eduardo Galvão


            Os rios de minha cidade estão presentes em minha memória e é esta a razão de minha saudade crônica de Barra do Corda. Neles estão intrínsecos minha família, meus amigos e as melhores lembranças de minha infância. O rio Corda, principalmente, ele ficava no fundo da casa onde morávamos e era parte de nossas rotinas diárias, nos abastecia de água, alimentava e divertia. Enfim, para mim, imaginar Barra do Corda sem os rios não é possível.
            A lembrança primeira são os banhos e as pescarias fartas, mas ficou marcado em mim, quando tinha sete anos, a primeira viagem que fiz de canoa entre Barra do Corda e Conduru. Para mim um passeio inesquecível pelo perigo que corremos. Acompanhava meu pai e o tio Augusto, que morava naquele povoado, às margens do Mearim. Íamos a convite daquele tio visitar a minha querida e saudosa tia Lili, irmã de meu pai.
            Partimos à noitinha, saindo do porto da Sapucaia por volta das 8 horas da noite, com o céu cintilante pelas constelações celestes, que em Barra parece próxima da terra. O rio Mearim, a partir da dali, depois de absorver o rio Corda fica com a água mais limpa e refletia as luzes opacas das estrelas, que, com o rebojo, parecia mover-se sobre ela.
            Descíamos em remadas compassadas. Na claridade da noite eu me entretinha olhando as irregularidades das margens e as sombras pareciam coisas encantadas. Ia sentado no banco do meio, me sentia um herói, protegido por dois remadores fantásticos, talvez os mais fortes de todos. Naquele tempo eu acreditava em fadas boas e más, magos e princesas. Nos devaneios de minha imaginação, achava que eu seguia para uma aventura em reino distante. O coração batia apressado ao afastamos lentamente da cidade.
            A pequena canoa, depois do Caí N’água e da Serraria Velha, ajudada pela corrente, deslizava um pouco mais rápido e a cidade vagarosamente ia ficando para trás parecendo se apagar lentamente, as luzes das candeias e lamparinas já não podiam ser avistadas de muito longe.
            Aqui e acolá encontrávamos corredeiras e remansos causados pelas pontas de terra e pedras e eram contornadas por remadas mais fortes de bom remador e grande conhecedor do caminho a ser percorrido. Em alguns pontos parecia que as árvores cobriam de lado a lado as margens do rio. O cheiro característico da vegetação e o barulhinho da água sob a canoa, aumentavam minha excitação.
            Depois de mais de uma hora de viagem, aos poucos foi ficando mais escuro que o normal. A noite se tornando breu, a visão ia ficando cada vez mais prejudicada e já não era possível ver claramente as margens do rio. As estrelas se esconderam sobre as nuvens pesadas. Da direção à direita, que eu imagina o sul, se ouvia o som distante de trovões. “Vamos remando Augusto, os negros dos jacarandás estão vindo”, meu tio sorriu com a analogia dos sons dos trovões com os dos tambores, feita por meu pai. Depois de bebericar umas doses de cachaça para espantar frio, retornaram às remadas cadenciadas.
            Os relampejos cada vez mais frequentes, embora ainda distantes, traziam alguma preocupação, que eu notara pelo tom da voz: “que noite escura Virgílio, parece que nem os vagalumes saíram hoje e é perigoso batermos em alguma galha ou pau solto no rio”, falou meu tio em voz baixa. “Vamos usar a lanterna”, falou meu pai no mesmo tom. Até aquele momento ninguém dirigira atenção para mim, parecia que não estava ali. Mesmo assim, no meu assento me sentia seguro e sem medo, por achar que meu pai me protegeria de qualquer perigo.
            O vento forte, os relâmpagos mais intensos e com início da chuva, meu pai colocou um encerado sobre minha cabeça e pediu para eu segurar firme e para não ter medo, que a chuva passaria logo. Meu pai sugeriu ao meu tio que encostássemos em algum porto, e dali fossemos procurar uma casa que pudéssemos abrigar durante a chuva. Meu tio insistiu que deveríamos seguir com cuidado, pois estávamos próximos.
            Uma chuva torrencial caiu sobre nós, o barulho da mata era aumentado pelos sons dos trovões e ventos, seguidos de relâmpagos. Eu excitado, mas firme, parecia que todos os bruxos do mundo usavam suas varinhas para soltar fogo. Com os relâmpagos via as feições preocupadas dos adultos e meu pai agora mais atencioso comigo e pedia para ficar firme que tudo estava sob controle.
            Assim, continuamos a viagem e já era noite alta quando chegamos no porto da casa do tio Augusto. Todos ensopados e com frio. Em nossa chegada, tia Lili nos recebeu com um café bem quente, demonstrando grande satisfação em nos ver, pois se encontrava aflita e temia o pior debaixo daquela chuva torrencial, “ainda mais viajando nesse tempo com uma criança”, reclamou ela. Me senti um pouco ultrajado pelos comentários, por ter enfrentado a chuva e raios sem assombro. Meu tio comentou, para minha satisfação, que eu tinha agido como homem corajoso e que não tinha demonstrado medo.
            Depois dessa viagem participei de muitos passeios através de meus queridos rios, sem falar das pescarias e banhos, que me enchem de saudades. Os rios estão em mim, talvez por ter engolido muitos peixinhos para poder ser um bom nadador, conforme recomendava o meu amigo (que Deus o tenha) Anim Irineu.

*Eduardo Galvão, barra-cordense, é vice-cônsul do Brasil em Xangai (China)

(TB/12/abr/2009)

 

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