Artigo
Hora da poesia?
jornal Turma da Barra
*Allan Kardec Barros Filho
É hora de poesia? Talvez não. Ou melhor, talvez sim. Ou muito pelo contrário? O poeta de hoje é provavelmente o último dos Moicanos. Tão aí Cassas, Nauro. Uma turma boa. Mas é uma turma que, como a freira baiana Joana Angélica, se posta à frente da forma tresloucada como o utilitarismo anda tomando assento em todos os tronos do mundo. Cadê o Fernando Pessoa?
O bom da poesia é que ela nos encanta, sacia e consola. O mundo, que voa a uma velocidade assustadora nos dias que passam, não tem tempo para os colóquios, solilóquios nem monólogos. Não alimenta nem mata a sede. E, finalmente, não tem piedade de quem passa, esquecido, ao lado. É o mundo dos vencedores, dos guerreiros de Roma essa que se prostra diante dos que se alçaram aos píncaros, independentemente da forma e do porquê.
O gosto amargo da realidade penetra as narinas. A ignomínia a que se relegaram palavras que antes existiam na sociedade e que passaram para o esquecimento dos dicionários hoje tão ignorados quanto a poesia exala odor que agride o paladar. Honra, respeito. Palavras lançadas ao chão, perdidas e levadas ao sabor da realidade, despedaçadas pelas tempestades éticas.
Acredito que vivemos fases, ou melhor, épocas. Há poucas décadas, vivemos o romantismo do idealismo. Construímos castelos. Ou casas. Tudo em cima de hipóteses que hoje não necessariamente se afinam com o que se pensa. Como reação ao romantismo, apareceu o pragmatismo. Aquele que faz. Que realiza, que garante futuro. Com o pragmatismo no poder, subiu junto o conceito de vencedor. Do mundo que premia junto com a inteligência a astúcia. Junto com o discurso, a hipocrisia.
Não, não devo procurar, buscar, examinar. Talvez realmente o mundo nem precise de explicações. Talvez ele não seja feito de toda essa mecânica que exaure todas as nossas forças, que retira nosso último suspiro. Talvez e finalmente talvez - como diria um amigo meu, se tens apenas um martelo, o resto do mundo vai te parecer um prego. Gente como eu só tem a velha companhia da análise/síntese.
Junto com o pragmatismo, ou talvez como um resultado seu, também subiram no conceito as emoções fortes, no lugar daquelas construídas ao longo dos meses ou anos. Por exemplo, as notícias que vendem são as que provocam justamente as fortes emoções. O escândalo. Ao contrário do que se pensava, as emoções controlam sim a razão (tem uns caras bons como Damásio que andam defendendo isso por aí). E aí está o resultado.
Ficaram esquecidos os perdedores. Os que não se encaixam no modelo social da competição ou competitividade. Está aí a África ou mesmo os bolsões de miséria da nossa América Latina a mesma de um Borges ou de um García Márquez. E o Nordeste embaixo dágua (quem diria!). Tá na hora, é necessário incluir...
Ah, finalmente, devo pedir desculpa ao leitor pela complicação no texto. Não foi de propósito. Mas foi o que saiu. Não queria que ele tivesse sido filho do formato de hoje. Sabe, aquele enxuto, direto, conciso. Preferi ele assim meio solto, meio nebuloso: nas nuvens.
*Allan Kardec Duailibe Barros Filho é PhD, professor da UFMA
(TB/13/mai/2009)
Artigo
Águas
jornal Turma da Barra
*Allan Kardec Duailibe Barros Filho
As águas estão aí. Águas das chuvas. Torrenciais. Inundando. Casas. Ruas. Avenidas. O Maranhão embaixo dágua. Milhares de pessoas desabrigadas. Estimativa: 50 mil! Pontes caíram. Seis mortos. E a foto do jornal mostrando a pessoa carregando o que restou, com água no pescoço, água suja, barrenta, e uma trouxa na cabeça.
Lembro que já estava no Rio quando caiu também um dilúvio em Blumenau e arredores. Logo depois fui também lá em um ato de solidariedade que montaram os sindicatos. Vi a televisão, atores, mobilização. Realmente a realidade era triste. Foi triste e os brasileiros de Santa Catarina estão em franca recuperação. Como ouvi: da Bela e Santa Catarina!
Sorry, mas não consigo sopitar o ressentimento. Talvez eu não esteja lendo direito, mas não estou vendo a mesma ou algo 10% daquela mobilização de alguns setores ditos organizados. Fala-se que o tratamento tem de ser desigual para os desiguais. Mas acho que estão exagerando na desigualdade. Os órgãos oficiais se manifestaram, até estrangeiros se sensibilizaram. Os americanos já se manifestaram através do consulado em Recife. O presidente Lula foi ao Maranhão, a convite da governadora Roseana. Oposição e situação se juntaram. Mas não vi a dita sociedade organizada se organizar.
Choveu como nunca chovia antes em São Luís. Horas infindáveis. Fiquei pensando, olhando para as plantas, para o vento roçando as folhas e o festival de balé do vai e volta das gramas que dançavam com as folhas do pé de goiaba. O ritmo era compassado, às vezes, mas de repente o vento se enfurecia. Enquanto isso, cuidadosamente uma goteira cuidava de marcar o compasso mais lento. Ploc, ploc, ploc.
Olhando os jornais, televisão, noticiário, lembrei da infância época em que você é irresponsavelmente feliz quando ficava esperando pelas enchentes. Subia na ponte e lá da torre voava outra inebriada e assumida irresponsabilidade pulava mesmo e caia na água barrenta. Alguém chamava a atenção para eventuais toras na água. Quem se preocupa?. É o mesmo rosto dos pequenos que vejo saltitantes na televisão chutando água e fazendo cena para o camera-man. Enquanto os pais carregam o que podem salvar da casa: sofá, cadeira, televisão.
Ademais, nunca esqueci aquela foto. Ficava logo no final do corredor, antes de entrarmos na sala. Em cima, no alto. Da casa do vizinho, que o tempo já se encarregou de deletar o nome dos neurônios. Invariavelmente, eu perguntava, e a resposta era sempre a mesma: o rio em que aquela balsa flutuava languidamente era nada menos que o rio Grajaú. De vários anos atrás. O rio era largo. Imaginei que, para uma balsa daquele tamanho cruzá-lo, o rio teria de ser igualmente fundo.
Será que o rio subiu daquele jeito? Esse inverno continuará até quando? Mas até onde as águas chegarão? Eis a questão. Guilherme Arantes fala da água que nasce da fonte, serena do mundo e abre um profundo grotão. Serenidade e agressividade em uma mesma sentença. Quão imprevisível é o contraditório!
Fica, no entanto, o protesto contra os vários Brasis que existem e co-existem no Brasil. Esse Brasil belo e contraditório. Maranhão, Piauí, Ceará estão debaixo dágua. O sertão está virando mar. Ah, Euclides da Cunha para contar essa estória! Volta, Antônio Conselheiro! Volta!
*Allan Kardec Duailibe Barros Filho é PhD, professor da UFMA
(TB/6/abr/2009)
Artigo
Talento
jornal Turma da Barra
*Allan Kardec Duailibe Barros Filho
Talento é algo extraordinário. A internet também. Assisti a um vídeo no youtube outro dia que mostrava uma voluntária da igreja de meia-idade Susan Boyle, de 47 anos. A mulher tem uma voz de um anjo, e se tornou uma inusitada estrela da música britânica. Coisas da internet. Cliquei na notícia que motrava como a moça surpreendeu os juízes e a audiência quando cantou no concurso televisivo Britains Got Talent (A Grã-Bretanha Tem Talento).
O clipe da apresentação de Susan Boyle no YouTube foi assistido próximo a 3 milhões de vezes. A escocesa está desempregada e surpreendeu de novo quando afirmou que nunca foi beijada. Ela não foi só recebida com indiferença, mas com um certo cinismo pelo seu aspecto pouco cuidado, um vestido simples e muita simplicidade. Muita. Os juízes muito exigentes torceram o nariz quando afirmou que sua ambição era ser uma cantora profissional.
Tudo bem, você pode me dizer que talento também é uma certa balela de vários cursos que dizem ter, de fazer, de surpreender. Essa coisa meio intangível, que sabemos o que é mas não dá para definir. Defina aí o que é gene... Pois é, não tem definição, é utilizado na Ciência, e ninguém dá a mínima para defini-lo. Embora se espere que a Ciência defina tudo. Timtim por timtim.
Andei procurando saber também na internet a origem da palavra talento. Aliás, há um certo abandono nos dias de hoje do Pai dos burros. O dicionário foi relegado a apenas uma página a mais na Grande Rede. Lembro da época de infância que meu pai tinha uma enciclopédia muito legal que chamava Lello ou Lelo. Enorme para meus dedos miúdos. Com alguns desenhos muito interessantes, bem feitos. E o cheiro delicioso de papel velho. Que só sinto em bibliotecas grandes com aqueles livros antigos e de alguma forma aconchegantes a memória nossa está lá.
E o que encontrei? Que Júlio César deu 100 talentos de ouro como dote do casamento de sua filha Júlia Cesaris com Pompeu. O correspondente a quase 4 toneladas de ouro! Ou seja, talento era dinheiro. Mas acho mesmo que talento virou sinônimo de dom quando Jesus utilizou aquela parábola que ele fala dos homens que teriam recebidos talentos do senhor. Um utilizou outro guardou. Deve ter havido aí a transferência de senhor para Deus.
Afinal, o que o Ronaldo anda fazendo com a bola é graças à sua estrela ou talento? O velho Mozart o eterno e incomparável era talentoso. Desde pequeno, surpreendente. Alías, talento reconhecido. E os outros? E aqueles que estão perdidos aí no meio da selva de pedra? Às vezes me pergunto quantos desses hoje são frustrados e alcoólatras. Ou são meteoros que morrem esquecidos como o velho Camões. Faleceu em um hospital, miserável, no ano de 1580.
Uma dessas faces surpreendentes sai do mesmo programa. Fiquei me perguntando que pensava Paul Potts um vendedor de celular que ganhou o Britains Got Talent. Seria surpresa? Seria desengano? Dono de uma voz igualmente belíssima, Paul não sorriu. Diferentemente de Susan Boyle. Olhava fixamente os jurados enquanto falava. Mas tinha uma expressão de graça, de abençoado quando cantava.
É isso que deixa as pessoas talentosas? O pó mágico que os anjos pingam naquele momento exato? Ma il mio mistero e chiuso in me/ il nome mio nessun saprá!(Mas o meu mistério está fechado em mim/ O meu nome ninguém saberá!), como diria a bela Nessum dorma. Para finalizar Desvaneça, ó noite!/Desapareçam, estrelas! Desapareçam, estrelas! Pela manhã vencerei! Vencerei! vencerei! Deve ser essa a oração do talento.
Possivelmente.
*Allan Kardec Duailibe Barros Filho é PhD, professor da UFMA
(TB/22/abr/2009)
Artigo
Convenções da vida
jornal Turma da Barra
*Allan Kardec Duailibe Barros Filho
Há várias etapas, assim como diferentes tipos de reuniões de negócio. As rápidas, por compromissos das partes, e as mais longas, onde não se fala só de negócio, mas, igualmente, de banalidades. Obviamente que a parte importante é importante. Mas, depois de inúmeras negociações, várias palestras, infindáveis encontros, chega uma hora em que se falam potocas. O que, inclusive, é parte de qualquer convenção social.
Outro dia - e no fim desse mesmo dia -, devido ao cansaço, acabei não participando dessa hora. Recolhi-me e fiquei olhando os vários personagens ao redor da mesa. Todos de gravata. Interessante é que a gravata se tornou, de certa forma, uma convenção da formalidade. Dos japoneses, por exemplo, são amigas inseparáveis. Mais ainda, naquele país de tantas convenções e formalidades, os homens usam, em quase toda a sua maioria, ternos azuis marinhos. Os pretos, só em casamento ou funeral. No primeiro caso, usa-se uma gravata branca - o que fica de certa forma engraçado, porque ela desaparece na camisa branca. No segundo, uma gravata preta.
Todas aquelas pessoas estavam provavelmente tão cansadas quanto eu. Observando-as, fiquei pensando nessas convenções humanas. A gravata é uma internacionalmente engolida. Mas, não deixa de ser estranho, e não sei se você concorda comigo, aquele pedaço de tecido pendurado. Do pescoço ao cós da calça. Qual a utilidade - se existe alguma - daquilo? Seria proteger do frio? Funcionaria como cachecol?
O adolescente que é forçado a colocá-la pela primeira vez sempre pergunta: Quem foi o desocupado que inventou isso? Nada melhor do que a boa e velha Internet para responder - errado ou não - as mais várias perguntas. Fui atrás, lá no Portal das Curiosidades. Claro que, para uma coisa usada no mundo inteiro - e por quase 600 milhões de pessoas do planeta - não deixam de existir vários pais da criança. Há franceses, croatas e chineses na briga.
Conta o Portal que os guerreiros do imperador chinês Shih Huang Ti usavam um tipo de lenço dobrado ao redor do pescoço, para indicar a sua posição. Uma das versões francesas conta que em 1692, as forças inglesas fizeram um ataque-surpresa contra as tropas francesas aquarteladas em Steenkerke, na Bélgica. O jornal alemão Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung, conta que os oficiais (franceses) não tiveram tempo de se vestir adequadamente. Mas, num piscar de olhos, eles ataram os lenços do uniforme ao redor do pescoço num nó solto e enfiaram as pontas nas casas dos botões da jaqueta. Voilà, nasceu a gravata!
A mais plausível, em minha opinião, é a estória que fala dos lenços usados pelos croatas que lutavam pelo rei Luís XIV - o rei sol - da França. Durante um desfile de vitória em Paris, os franceses ficaram tão encantados com os lenços usados pelos croatas que os chamaram de cravates, alusão a Cravate - que significa croata - e também passaram a usá-lo. Dali em diante, escreve o jornal, não havia como parar a moda das gravatas, embora os soldados em Steenkerke tenham sido os primeiros a atar o lenço com um nó.
Tudo bem - alguém pode dizer - hoje não importa o lugar e o clima onde você usa a gravata. Afinal, há o ar condicionado - essa grande invenção humana, que deixa os tupiniquins tão secos quanto um dinamarquês. Mas, e antes? E na época do Império? Nas fotos, dom Pedro II aparece com aquelas gravatas borboletas. Fico imaginando essa vestimenta no Rio de Janeiro, que no verão chega facilmente a 40 graus Celsius.
Não encontrei, no entanto, nenhuma referência desabonadora à gravata. Parece-me, portanto, que a convenção se instalou de vez, e ninguém mais questiona se é normal ou ridículo aquele pedaço de tecido pendurado no pescoço.
*Allan Kardec Duailibe Barros Filho é PhD, professor da UFMA
(TB/1º/abr/2009)
Artigo
Deus: um delírio?
jornal Turma da Barra
*Allan Kardec Duailibe Barros Filho
Mais uma visita a uma livraria. Mais um livro sobre o livro de Richard Dawkins, Deus, um delírio. Assim, uma afirmação. Para provocar, basicamente dei a esta crônica o mesmo título. Tudo bem, diga aí: quanta originalidade! Realmente, você tem razão. Por isso, vou tentar argumentar de uma forma meio diferente dos outros.
Aliás, desde Nietzsche, acho bem estranha essa discussão. É a velha estória de atirar na corda para que o candelabro caia na cabeça do bandido. Ou do mocinho coisas dos filmes de ação. Com essa discussão recente revivendo Darwin que andou ganhando páginas e mais páginas de revistas especializadas ou não e o criacionismo (leia-se: republicanos americanos), Dawkins, para mim, resolveu dar um tiro audacioso. Não sei se com honestidade, mas ganhou bastante dinheiro, para dizer o mínimo.
Não, não estou aqui para defender a existência de Deus. Mesmo porque o fundamento de meu argumento é justamente esse: essa discussão não faz sentido. Pelo menos da forma que Dawkins coloca. Essa de querer provar a existência de Deus matematicamente (ou geneticamente, quimicamente, etc). Perda de tempo. Por uma questão de coerência, devo dar a mão à palmatória à sua segunda crítica: estou também perdendo tempo com o assunto.
Tem um teorema de um geniozinho que sou muito fã. Chama-se o teorema de incompletude, de Kurt Gödel. Geniozinho porque ele é conhecido como o maior lógico na face da terra depois de Aristóteles. Não foi fácil de demonstrar, nem é tão trivial a sua aplicação. Mas me baseio nele para argumentar. Gödel morreu muito novo, na posição fetal, depois do falecimento de seu grande amigo, Albert Einstein.
O teorema diz que há certas coisas que não se pode provar dentro de um sistema lógico. É aquela coisa de um mentiroso afirmar esta frase é verdadeira. Não há formas de você provar que ela seja realmente verdadeira. Ou o contrário. Quem fez uso dessa mesma argumentação foi Alan Turing e depois Roger Penrose, que a aplicou como uma suposta evidência da impossibilidade de se construir computadores que simulassem a mente humana.
Afinal, pode-se ou não demonstrar a existência de Deus? Quantos experimentos são necessários ou quantas laudas de cálculo são bastantes? Tem uma estória que contam de uma argumentação de um professor que teria escrito um quadro inteiro de fórmulas. No final, sobrou um delta. Ao que ele teria dito olha, aqui está Deus. Era o que faltava para que o cálculo fechasse.
Minha argumentação básica é que, dadas as inúmeras qualidades atribuídas a Deus sempre de maneira infinita - é impossível retornar ao início e provar a verdade ou não de sua existência. O fato é que Gödel utilizou alguns axiomas que, se você utilizar deduções a partir da lógica clássica, pode-se obter praticamente todos os teoremas conhecidos da matemática. O fato é que seu teorema da incompletude tem duas implicações simples: um dado sistema nunca deduziria todas as verdades matemáticas; e sempre existirão sentenças aritiméticas que são verdadeiras mas não podem ser provadas nesse sistema.
O que tem a ver o pescoço com a cabeça? Ou melhor, o que quer dizer o último parágrafo? Há inúmeras implicações. Mas não vai dar para escrever nessa no máximo 3800 toques que estou permitido. O fato é que, por mais completa que seja uma determinada linguagem, com todas as suas hipóteses (como são em geral as teorias científicas), elas podem ser traduzidas perfeitamente em linguagem matemática. Minha compreensão é que isso implica exatamente naquilo que o Dawkins atacou, que Nietzsche fez troça e que o professor trabalhou: dado um conjunto de hipóteses, provar que uma determinada sentença é verdadeira, levando-se as propriedades ao infinito (a existência ou não de Deus). Simplesmente não tem o mínimo sentido esse questionamento.
*Allan Kardec Duailibe Barros Filho é PhD, professor da UFMA
(TB/11/jan/2009)
Artigo
A crise
jornal Turma da Barra
*Allan Kardec Filho
O mundo mudou. Extraordinariamente. Vivemos um momento histórico. Não só em São Luís o que seria limitar o tamanho do mundo. Mas histórico na medida do que anda acontecendo com essa crise enorme que tomou conta das cabeças dos dirigentes dos países. Está-se falando de quem vai pagar o prejuízo de um trilhão de dólares de papéis podres.
Estamos falando da falência de um modelo que não agüentou o peso da História. Um mundo de um mercado anárquico, baseado na auto-regulação: privatizam-se lucros e socializam-se prejuízos. O neoliberalismo nem chegou à maioridade sei lá duas décadas? - e já deu sinais de falência múltipla de órgãos.
A anarquia da auto-regulação às vezes cai naquilo que chamamos em engenharia de entrar em loop. No fundo, é um efeito cascata ou avalanche cujo resultado pode e isso é seu principal problema gerar uma demanda que não pode ser atendida.
Neste caso específico, uma demanda de um trilhão de dólares. Ou seja é um prejuízo do tamanho da guerra Afeganistão + Iraque. Bin Laden deve estar rindo disso em sua caverna. E a relação que esta crise tem com as guerras ou invasões é a falência de um modelo. O fim de um pensamento e o começo de uma nova era. O primeiro erro é pensar que invadir um país resolve uma crise no seu. O outro é deixar o mercado absurdamente livre para se auto-regular.
O que é simbólico nessa crise toda são as recomendações do FMI. Que corroboram a divisão do prejuízo e demonstram a necessidade de intervenção estatal. Ou seja: o rei está nu. Palavras do FMI: "a restauração da estabilidade financeira se beneficiaria de um comprometimento coletivo das autoridades, que devem tratar o problema com eficiência".
A afirmação do diretor do fundo, Dominique Strauss-Kahn é profunda, fatal. "O tempo das soluções à conta gotas chegou ao fim". O que significa em inglês, português ou húngaro: intervenham senão a vaca vai para o brejo. Os bancos não agüentam tanta desvalorização. Mais Strauss-Kahn: "Eu peço aos legisladores que tratem esta crise com medidas abrangentes que restaurem a confiança no setor financeiro. Ao mesmo tempo, os governos nacionais devem coordenar de perto esses esforços para trazer de volta a estabilidade do sistema financeiro internacional."
O fato é que o mundo mudou. As relações de forças também. O famoso neoliberalismo não suportou o peso da História. A crise demonstra que os valores não podem ser agregados a papéis podres obviamente. No fundo, há um componente registrado e anotado pelas diversas economias que provavelmente será o componente abstrato importante das próximas décadas: o conhecimento.
Obviamente que a crise empana o pensamento. Ninguém quer saber de filosofia em frente de um precipício. Mas será terrível continuarmos com o mesmo modelo. Diz-se em engenharia que você pode ter várias formas de otimizar um processo. Mas primeiro você tem de definir o que quer otimizar. Pode ser, por exemplo confiança no setor financeiro, a liberdade do mercado, para que ele se auto-regule e cada indivíduo extraia sua sobrevivência a partir da relação das forças. Mas pode ser também a qualidade de vida da população.
Estamos diante de dois caminhos. Uma encruzilhada. O que nos espera é aquilo que decidirmos agora. De certa forma deveremos optar pela teoria da evolução ou pela construção a partir da nossa própria inteligência de um modelo que dê qualidade a todos. O da evolução é aquela coisa da lei do mais forte. O da inteligência se baseia em distribuir conhecimento para que o capital seja social e não financeiro. A hora é grave. E devemos nos decidir.
*Allan Kardec Duailibe Barros Filho é PhD, professor da UFMA
(TB/08/out/2008)
Artigo
A academia
jornal Turma da Barra
*Allan Kardec Filho
Uma das coisas que mais me empolgam é saber que a Academia Maranhense de Letras (AML) fundou a universidade da qual fui estudante a agora sou um dos professores. A UFMA. Viver e compartilhar com os colegas professores ou técnicos administrativos é uma oportunidade única. Empolgante. Regozijante. Estimulante.
Na última sexta-feira, nascia a Academia Maranhense de Ciências (AMC). Gestada e pensada por várias pessoas. Mas implementada pelas mãos generosas de meu amigo Sofiane Labidi, presidente da Fapema. Quantas vezes conversamos? Quantas vezes sonhamos? Quantas vezes elucubramos? Quanta emoção!
Fazer ciência no Brasil não é fácil. Imagina no Maranhão! Temos irmãos maranhenses que ainda hoje fazem agricultura ou pecuária que não dariam inveja a ninguém da época do nascimento do cristianismo. Ou mesmo fazem uso de tecnologias que lembram a Idade Média!
Democratizar o conhecimento é uma das tarefas mais importantes de hoje. Ele não pode, não deve, e não é direito de um punhado de cabeças pensantes. O conhecimento é uma jóia rara. É um tesouro que já deu muita riqueza a vários países. Claro, você já sabe, mas não é nunca lembrar do Japão ou da Coréia. Ou mesmo Israel, cujos solos sabemos não serem tão férteis quanto os nossos. Temos de democratizá-lo.
A Academia Maranhense de Ciências, como bem gosta de lembrar o Sofiane, vem 100 anos - um século - depois da fundação da Academia Maranhense de Letras. É no mínimo um fator de questionamento do porquê da demora.
Hoje os maranhenses somos obrigados a sacrifícios imensos, se comparados com outras regiões do mundo. Você sabe das que falo: as que estão no noticiário, revirando o cérebro, o espaço, o DNA. Ou daquelas que fazem a história de seus países e constroem os seus cidadãos. Daquelas que, às custas dos recursos de seus filhos, construíram um grande futuro e saboreiam um imenso presente.
Ainda que tenhamos indicadores que devam ser atacados imediatamente pelos governantes, não se deve desprezar a viabilidade pensante, científica e tecnológica do Maranhão. Para citar poucos, a pesquisa em energia na UFMA. Em materiais no Cefet. E meteorologia na Uema.
Ora, todos sabemos da pobreza no interior e na capital do Estado. Claro que devemos discuti-la, mas tomando-se o devido cuidado de não imitar o mendigo de Saint-Exupery no livro Cidadela, visando comover os transeuntes. Na surdina, ele cultivava suas feridas, para que elas aparecessem sempre imundas.
A AMC se propõe a discutir o Maranhão. Principalmente o Maranhão-Ciência. O Maranhão que ainda não é conhecido. É verdadeiramente simbólico que tenha transcorrido um século para que nascesse essa academia. O fato é que produzimos muito pouca ciência. Claro que devemos lembrar do grande Souzinha. O Joaquim Gomes de Souza. O matemático. Mas principalmente autodidata. Que não viu limites geográficos. Culturais. E hoje é patrono da AMC. Nada mais justo.
Mas é bom que a AMC venha agora. No momento em que a tecnologia se expande a passos de ema. Em que avança firme e enérgica protegendo a fragilidade humana e cuidando de suas necessidades. Cada vez mais barata, democratizou-se definitivamente e revoluciona o planeta, tal qual a valente dama da revolução francesa imortalizada na pintura de Delacroix, a Liberdade. De bandeira na mão, ela passa por cima da ignorância - nossa maior inimiga. Que deve ser combatida, que tem de ser evitada. Temos um grande futuro pela frente.
Finalmente, gostaria de agradecer à generosidade da AML, hoje nas mãos de meu amigo Lino Moreira. Encerro por aqui. É muita alegria.
*Allan Kardec Duailibe Barros Filho é PhD, professor da UFMA
(TB/18/jun/2008)
Artigo
1808 e Obama
jornal Turma da Barra
*Allan Kardec FilhoOs dois fatores combinados a escassez de recursos demográficos e financeiros e o atraso nas idéias políticas e nos costumes haviam transformado Portugal numa terra nostálgica, refém do passado e incapaz de enfrentar os desafios do futuro. (...) Era como um animal sedentário e obeso, com um coração enfraquecido, sem forças para irrigar todas as partes do corpo monumental.
Você é capaz de substituir a palavra Portugal acima, certamente. Buscar na memória o animal sedentário e obeso. A cidade ou repartição que se encaixa exatamente nessa descrição. Coração enfraquecido, sem condições de irrigar todas as partes do corpo. Sim, meu amigo, essa sentença me chocou!
Estou lendo o livro 1808, de Laurentino Gomes. Monumento. Impressionante a descrição daquela época. A invasão de Napoleão. A fuga da Família Real portuguesa para as terras tupiniquins. Gomes tenta igualmente (pelo menos até onde li) recuperar um pouco a imagem de D.João VI. Do político que veio para o Brasil tentar sustentar um reino em frangalhos.
A narrativa é impressionantemente moderna. Como dizia, vejo a cada hora sinais da sociedade atual. Por exemplo, falando de Salvador da época. O deslumbramento da paisagem, porém, se convertia em decepção quando o visitante entrava na cidade. E continua com as palavras de gente da época, Maria Graham. Extremamente estranha e atual. Como a sarjeta corre no meio da rua, tudo ali se atira das diferentes lojas, bem como das janelas. Ali vivem e alimentam-se os animais.
Em determinado momento, parei a leitura e liguei o computador. 200 anos separavam esse gesto. Barak Obama, filho de mulçumano com uma branca americana. Novamente os Estados Unidos vivem um movimento nacional de esperança. Que vai de encontro à tragédia que foi o governo Bush tanto em política externa como ações internas. Como diria um assessor de Hillary Clinton é difícil lutar contra um movimento.
Obama não é um homem qualquer. Talvez seja alguém diria o homem certo na hora certa no lugar certo. Mas é um verdadeiro incendiário do mundo que queremos respirar. Afogados como estamos, infelizmente, no marasmo da estagnação inclusive de pensamento. Como o Portugal de antigamente, deixamos de ter esperança. Deixamos de apostar no jovem. Seria por causa das facilidades tecnológicas? Não sei dizer.
Gomes cita o grande poeta Antero de Quental. Saímos de uma sociedade de homens vivos, movendo-se ao ar livre, e entramos num recinto acanhado e quase sepulcral, com uma atmosfera turva pelo pó dos livros velhos. É a nossa hora histórica. Pouca filosofia, pouco pensamento. Pragmatismo acima das cabeças, afogando o raciocínio.
Há estórias interessantes, como por exemplo sobre o Correio Braziliense. Engraçado, a Coroa Portuguesa até então não deixava ninguém ter opinião. O jornal foi obrigado a ser impresso em Londres. O que o rei fez? Por um acordo secreto, D. João começou a subsidiar Hipólito (o dono do jornal) na Inglaterra e a garantir a compra de um determinado número de exemplares. O público só soube agora, 200 anos depois.
Sim, o momento é extremamente grave. Continuamos como instalações sanitárias da Idade Média e algumas cidades com tecnologia da Idade da Pedra. Mas vejo na crista da onda de Barak Obama um sinal de esperança. Uma flecha que é lançada do outro lado do abismo para que o novo se descortine no horizonte. O futuro vem aí.
*Allan Kardec Duailibe Barros Filho é professor da UFMA
(TB/27/fev/2008)