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Matéria 1

 


A cidade que chora
 

*Cezar Braga

            O nosso editor nos conclama a escrever sobre mais um aniversário de Barra do Corda.
            Minha pequena e bela cidade! Sábado, dia três de maio do ano de dois mil e oito, ela completa 173 anos.
            Gostaria de não escrever sobre minha cidade neste momento, mas os laços que me ligam a ela são fortes demais para que eu me omita.
            São 173 anos, muito a lembrar por uma história bonita, pouco a comemorar hoje em dia...
            Volto os meus pensamentos para alguns anos atrás e relembro o dia, aliás, a madrugada que aqui cheguei, relembro os momentos ditosos que vivi a percorrer tuas ruas simples e a banhar-me nos seus rios de águas tão puras e naturais.
            Barra do Corda já foi a “Princesa do Sertão”, o oásis do centro do Maranhão,  a luxúria dos viajantes.
            Minha pequena e bela cidade! Muitos cantam tuas belezas naturais: Os rios Corda e Mearim, tuas serras enfeitadas de ipês, sua mata ciliar repleta de jitirana, tuas flores diversas, enfim tua fauna e tua flora, os teus sabiás e curiós, a Cachoeira, o encontro dos rios, o Alto alegre (palco de um drama horrendo), as aldeias indígenas o povoado do Suja-Pé, lugar pitoresco para o piquenique de fins de semana, etc.
            Chego a rir ao lembrar-me do corre - corre das moças e rapazes quando a luz, a motor, dava o sinal para que todos ficassem de sobreaviso que ao terceiro sinal a luz apagaria de vez. As pessoas que se encontravam nas ruas saiam apressadas para casa e as ruas ficavam desertas. O silêncio reinava, só se ouvia e via um assovio aqui e acolá, um casalzinho de namorados a se beijar, o canto de algum pássaro noturno, as estrelas, o luar. E eu a devanear...
            Aos poucos o progresso foi chegando e edificando por aqui. Não mais ruas de areia (tão bem descritas pelo eminente barra-cordense Galeno Brandes, o literato). A pavimentação foi se efetuando gradativamente (mais uma vez lembramos Galeno Brandes, o Prefeito) e hoje já podemos sentir orgulho das nossas ruas calçadas e arborizadas, colégios, praças...
            Minha querida e bela cidade! Onde estão os teus filhos valentes? Onde se escondem, que não marcham em frente e resgatam sua cidadania? Agora, na era da globalização teus filhos fogem em busca de emprego, em busca do pão, os que ficam se submetem à tirania dos falsos monarcas mascarados de democratas.
            Mas infelizmente os investimentos em cultura, educação, lazer e desenvolvimento sustentável, que quando existem são insuficientes. A cidade apesar do grande potencial turístico, da diversidade de artistas, do clima maravilhoso, ainda vive na obscuridade, assistindo ao comodismo dos seus filhos que empobrecidos se submetem ao poder do sistema que esmaga e oprime.
            O que me faz sofrer é aqueles que fazem mal à minha cidade. O que me constrange é que as conquistas cessaram. E isso me faz chorar.
            Hoje não sei se sou que choro, ou se é minha querida e bela cidade que chora?
            Choro porque a saúde pública está um caos, ou chora minha cidade pelos filhos abandonados, por aqueles que se vão, deixando seu corpo vazio?
            Choro porque os investimentos em desenvolvimento não passam de factóides, ou chora minha cidade porque as promessas dadas como certa há tão pouco tempo, dormem nos papéis amarelados dos tais “compromissos” de campanha?
            Choro porque somos preteridos nos investimentos educacionais, ou chora minha cidade por ter eleito políticos que esqueceram dela?
            Choro copiosamente, quando tudo começa aparecer na mesma velocidade que avançam os dias em direção ás eleições municipais. Quando constato que precisamos suportar três anos de letargia para que o volume de realizações tenha algum sentido eleitoral.
            Mas, sou otimista por natureza. Gosto de coisas boas, torço com entusiasmo e desejo, veementemente, que se realizem.
            Sigo acreditando, apostando em dias melhores. Sou assim, fazer o quê?
            Até hoje me enfezo se alguém fala mal da minha pequena e bela cidade. Fico possesso quando vejo gente escrevendo que as cidades da região é que são boas, que aqui nada dá certo, nada funciona. Isso não é verdade, até porque há muita gente boa realizando, independentemente de poder público.
            Somos uma cidade com um passado grandioso, único. E o futuro pode ser promissor. Para isso, temos que planejar os dias que virão, mas sem nos esquecer do presente, de plantarmos nas urnas as sementes dos frutos que pretendemos colher amanhã.
            E acredito no limiar de um novo dia, onde o povo unido em harmonia poderá desafiar os dragões do continuísmo e sem medo, oportunizarão um novo tempo, novos paradigmas, mudanças significativas para o nosso belo rincão.
            Mas Barra do Corda... Ah Barra do Corda!
           
Barra do Corda tem um clima próprio, um brilho que vai além do encontro dos rios, um mistério tão inteligível quanto suas histórias e inexprimível até para os poetas: o calor de seu povo!

*Cezar Braga é engenheiro civil, mora em São Luís