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Matéria 1

 

Editorial
Revista da Literatura Barra-Cordense
Edição: dezembro 2006
jornal Turma da Barra


Literarum radices amaras, fructus dulces:
As raízes da cultura são amargas, mas seus frutos são doces
(Cícero e Catão)


*Nonato Silva
 

            A inteligência comanda o mundo. Forma o caráter. Floresce a ética. Desterra a inércia. Faz-se a alavanca de Arquimedes. O ovo de Colombo. Mantém a simbiose do bem. Avantaja-se ao mal. Porque "nada purifica, a não ser a inteligência" (Wilde).
            Aqui não se admite retor. A frase e o estilo deslizam mansamente, tal qual cisne em águas tranqüilas, na leveza e na concisão da criação da inteligência.
            E o próprio Catão ainda repisa a matéria filosófica, ampliando a sentença, em seu magnífico monóstico: Doctrina est fructus dulcis radicis amarae: a erudição é o doce fruto de uma raiz amarga.
            Dentro deste conceito e sob este ângulo de visão é que se deu em Brasília, no dia 3 de setembro de 2006, o 5° Encontro Cultural de Barra-Cordenses radicados em na capital de República, e também provenientes da cidade-terra-mãe, bem como de outras paragens.
            O já tradicional evento foi organizado e patrocinado pelos líderes maiores, Gilson Pacheco Soares e Raimundo Nonato Brasil, coadjuvados por, entre outros, Heider Moraes, Murilo Milhomem e Nonato Silva.
            Foi uma festa ao estilo cordino, muito concorrida, com uma freqüência de 3 mil pessoas.
            A solenidade iniciou-se com uma missa festiva, oficiada pelo padre caxiense José Belo Moraes Filho da Paróquia São Pedro Apóstolo, em Ceilândia. Foi uma cerimônia tocante, abrilhantada pelos saxofonistas Ananias da Providência Araújo e Línton Araújo, conterrâneos. O celebrante pronunciou uma sucinta, porém, erudita e edificante homilia que sensibilizou misticamente a assembléia piedosa, contrita e silente.
            Após a santa missa, serviu-se um lauto almoço, acompanhado de comidas e bebidas típicas, como sói acontecer nos eventos maranhense-barra-cordenses.
            E aí a moçada entregou-se à festança-dançante, ao som animado de várias bandas, quando imperou o folclore de nossos pagos, próprio da terra de Maranhão Sobrinho e gonçalvina.
            E a literatura cordina não tem hiato nem intervalo, pois os "atenienses barra-cordenses" aí estão firmes, sem prosônimo nem vasconso, difundindo sabedoria e cultura, em estilo que convém aos filhos da "Princesa do Sertão".
            Por isso, com relação ao encontro, escreveu Eduardo Galvão: "O Encontro é um exemplo de nascimento de uma nova fase, ou talvez um renascimento das idéias de outrora, que há anos se traduziam apenas em palavras e desejos. Agora começam acontecer fatos concretos, de forma mais profissional."
            É que novas e antepassadas constelações fulgiram e fulgem nos céus da intelectualidade cordina.
            Realmente, os literatos da "Atenas Maranhense" têm muito em que se emular, e muitíssimo em que se mirar, dentro do seu próprio casulo: Maranhão Sobrinho, Isaque Comes Ferreira, Olímpio Cruz, Wolney Milhomem, Clodoaldo Cardoso, Galeno Brandes, Pedro Braga Filho, Nicanor Azevedo, sem olvidar os nossos maiores antepassados que nos abriram o caminho, e nos assistem com sua moral e sua ética, máxime, os bravos paladinos que fizeram O Norte, implantaram nossa indústria e nosso comércio.
            E a Cidade de Melo Uchoa continua hasteando "o pendão da esperança" e o vexilo das vitórias.

*Nonato Silva é editor da LBC - Revista da Literatura Barra-Cordense
Nota: Para adquirir a revista, ligue: (61) 3242-6060

 

 

Barra do Corda
171 anos
jornal Turma da Barra


Urbs nescia vinci: a Cidade que não sabe ser vencida


*Nonato Silva
 

            Barra do Corda!
            Tu, Cidade santa, - porque nasceste sob o histórico signo da Invenção da Cruz redentora, o abençoado 3 de maio de 1835 - completas, vigorosa e galhardamente, o teu 171º aniversário, entre fogos de ovações merecidas.
            Encarnas tu o brilho faiscante de uma estrela, a estrela de um mago que, por ela, foi conduzido a esta divitíssima paragem onde tu, por um determinado ontológico, transcendente e profético, te assentas sobranceira, com uma coroa de glórias na cabeça e um cetro de vitórias na mão.
            Teus alicerces são inabaláveis porque cavados numa fé de uma simples pessoa, cuja tez tostada pela canícula de um sol das secas nordestinas, é índice de grandeza e luta. Trata-se de Manuel Rodrigues de Melo Uchoa, de quem tenho a honra de ser bisneto, que te plantou, onde estás sorrindo o sorriso de progresso, adubando-te com sua tenacidade e regando-te com o suor de sua inteligência realizadora - esse heróico cearense tal qual o Peri do Guarani de José de Alencar, que, no fragor da cheia do Paraíba, arrancara uma palmeira com uma mão e sustentava Cecília com a outra, símbolo da Cidade que acabava de edificar.
            Barra do Corda, tu és "o eco do tempo", na retórica de Pierre Véron. Para ti "um dia de anos é sempre um dia de recordações", assevera o poeta português Júlio Diniz. E Sofocleto, em Silogismo: "Los compleaños son el alquiler que pagamos por la vida": os aniversários são o aluguel que pagamos pela vida.
            Aí dormes acordada, sonhando o teu futuro de triunfos e virtudes, embalada pelo cantarolar das águas frias e cálidas dos rios Corda e Mearim que te abraçam com carinho, visualizando o teu crescente progresso.
            Teu patrimônio cultural e literário faz-te soberana e forte, no ocaso e no verdor dos poetas e prosadores, cuja riqueza deslumbra e encanta pelo trinado do verbo correto e escorreito, na óbita castiça do bem escrever e bem falar, na beleza da lusofonia. E o hálito da intelectualidade beijou-te a fronte altiva, nas carícias de tua inteligência.
            Então urbs nescia vinci: tu és a Cidade santa que não sabe nem cogita ser vencida.
            E o sol, que te doira a fronte, jamais terá ocaso.
            Uma vez que "a cidade é o mestre dos homens" (Somônides).
            Allons! Allons!

*Nonato Silva é editor da LBC - Revista da Literatura Barra-Cordense
Nota: Para adquirir a revista, ligue: (61) 3242-6060

 

 

Amor à vida
jornal Turma da Barra

O 'TB' transcreve matéria do Jornal de Brasília,
edição de sexta-feira, 2 de dezembro


por Lúcia Leal

            O maestro Nonato Silva, atualmente regente e compositor do coral do Ministério da Educação (MEC), é um grande exemplo do cidadão brasiliense que alcança uma idade elevada com saúde, disposição e bom humor.
            "Como disse Rustand, 'a velhice só chega para quem perde o interesse'", reproduz as palavras do pensador francês o senhor de 87 anos, apaixonado por literatura.
            A frase, lida ainda na universidade, estimulou Nonato Silva a nunca parar de estudar e trabalhar. Para ele, ter chegado a sua idade se sentindo capaz e com espírito jovem é consequência de sua mente estar sempre em atividade. Interessado por canto e instrumentos musicais desde criança, em Barra do Corda (MA), sua terra natal, Nonato se formou em música na Academia Santa Cecília de Roma, na Itália, em 1939.
            Além disso, fez doutorado em Filologia Românica, um curso do conhecimento da origem das palavras das línguas neolatinas. Ele também é jornalista e advogado e ainda foi padre por muito tempo. Com tantas formações, lecionou durante muitos anos. Em Brasília desde 1956, Nonato trabalhou no MEC, onde se aposentou. Há dez anos é casado pela segunda vez, com Maria Petrina Santoucy, 73 anos,tem um filho e dois netos.
            Ele afirma que sua saúde está muito boa. O único problema é uma deficiência na audição em um dos ouvidos. "Mas o médico disse que se não fosse a música, eu seria surdo. Ele aguça o sentido. Além disso, não bebo regularmente, não fumo e nem faço extravagâncias na minha alimentação", revela.

(TB/2.dez.05)

 

 

Editorial
Revista da Literatura Barra-Cordense
jornal Turma da Barra

O 'TB' transcreve o editorial da edição nº 24,
de setembro, da Revista da Literatura Barra-Cordense

A leitura faz o homem completo. A conversação fá-lo ágil. O escrever dá-lhe precisão.
(Francis Bacon)


*Nonato Silva


            Este conceito de Bacon é-nos, deveras, sincero e sedutivo, de convicções amadurecidas. Arrasta-nos à leveza do pensar e escrever, ao apanágio da imaginação, como produto sazonado da inteligência - essa clâmide que acoberta a criação literária.
            Por isso, cabe, atualmente, à História da Literatura barra-cordense, um lugar proeminente entre a ciência da cultura e do espírito.
            Os clarões da História Literária da Atenas Maranhense expressam, de uma maneira feliz, um fenômeno, há muito conhecido: o grito do escritor cordino, pompeando o desenvolvimento harmonioso do espírito humano, em condições com o passado e com as prospectivas do futuro.
            A ignorância, o descaso, a indiferença não farão o passado sucumbir, à míngua, de vez que o escritor heleno-barra-cordense procura espelhar-se na História para construir o presente, visando ao que há de vir.
            Daí, decorre a importância de levarem-se ao alcance do leitor comum instrumentos literários que possibilitem aparelhar-se culturalmente neste relevante e competente papel de construir e instruir.
            Então, o trabalho literário do escritor, no passado e no presente, torna-se atual, por revelar, a cada passo, a familiaridade do autor com os avanços da cultura; honesto, nas interpretações fidedignas da psicologia humana; claro, no empenho em transmitir conhecimentos que, porventura, estivessem sepultos no esquecimento.
            Assim, se desterra o esquecimento - esse fantasma da cultura. E projeta-se, sempre, um facho de luz na penumbra. E mantém-se, por tudo, um vigia-mestre na orla cultural, técnica e científica.
            E vale o preceito de Carlos Drummond de Andrade:
            "Escrita: arte de destelhar a casa sem que os transeuntes percebam".
            E Oscar Wilde dogmatiza: "Para escrever só existem duas regras: ter algo a dizer e dizê-lo".
            Este é o lema do escritor de Barra do Corda, convertida na Hélade da atualidade, em dádiva purpurina da decantada Grécia.
            Atestam-no a ABL, ABC, Casa da Cultura, verdadeiros laboratórios de talentos. Tudo sem blindagem.

*Nonato Silva é editor da LBC
Nota: Para adquirir a revista, contate o editor pelo telefone: (61) 3242-6060

 

 

Frei Paulo reza missa
de aniversário
jornal Turma da Barra

 


Imagem da missa

Frei Paulo (Raimundo Nonato da Silva)

            Para comemorar os 87 anos, frei Paulo de Barra do Corda, o barra-cordense Raimundo Nonato da Silva, rezou missa em seu próprio apartamento na noite de sábado 13 em Brasília.
            O ato foi presenciado por familiares e amigos. Também por três padres, ora casados: Luís Pereira (capuchinho), Feliberto e Smith (redentoristas).
            Em Brasília, há mais de 100 padres casados. No Brasil, mais de 5 mil. E no mundo, 104 mil.
            Após a celebração da missa, foi cantado o "parabéns para você".


Imagem da missa
sentado, à esquerda, frei Paulo
em pé, à direita, frei Luís Pereira

 


Imagem da missa

 


Nonato Silva e dona Petrina

 

 

 

Crônica
Ave Barra do Corda!
jornal Turma da Barra


*Nonato Silva

         Barra do Corda,
         Bom-dia!
         Há 170 anos soltavas os primeiros vagidos que ecoavam sob o azul do céu do lindo, lindo mês de maio, bem como nos centros verdes da floresta virgem que te servia de muralha protetora.
         E as eternas águas dos rios Corda e Mearim, onde deslizavam os cisnes brancos de tua paz e tranqüili
dade, cantavam a doce canção das águas para acalentar-te, ninar-te, no seio da mata panorâmica, misturado ao canto sonoro do passaredo. Águas que te guardam c
omo os gansos do Capitólio.
         Ouso dizer-te, orgulhosamente, o que Lúcio Costa afirmou de Brasília: “És uma cidade que jamais serás velha”.
         Barra do Corda, aí estás, cidade tronco do Maranhão, gonzo de primeira ordem, “linda e próspera cidade”, na visão de Raimundo Viana Guará (Memórias do Sertão, pág 28)
         E reúnes literatura e artes, num conúbio harmônico, cuja melodia tonifica o coração de teus filhos.
         Geraste-nos, no cerne da cultura dos poetas convincentes, e nós a dedilharmos-te a harpa helênica do lirismo e da ternura.
         Nem murcha nem murcharás e jamais te perderás na poeira do tempo.
         Por isso, canto-te, “nas doces cordas da lira”, a sempre donzela.
         “Sim, renascias para a luz da História,
         num berço de esmeraldas e diamante “ (D. Aquino Correia)

         A Donzela

         Barra do Corda, debutante e bela,
         Crisálida latente de bonança,
         Nascida sob um céu prenhe de estrela,
         Bonina em flor, crisanto de esperança!

         Como é risonho e límpido vê-la,
         Esvoaçando qual gaivota mansa,
         Ao reflorir os beijos de donzela,
         Ao desfraldar os tempos de criança!

         Cântico de esperança, amor e crença,
         Pra ti, Barra do Corda, a vida inteira,
         Retumbe, e brade, e vibre em glória imensa.

         Forte, sólida, olímpica cultura
         Te orne, em favônios de aura bem fagueira,
         Para levar-te à mais suprema altura”

         Ave, Barra do Corda!
         Glória a ti, aos que te criaram, aos que te teceram, bruniram a vida e te conservam carinhosamente.
         Ave, 3 de maio de 2005!

*Raimundo Nonato da Silva é editor da Revista da Literatura Barra-Cordense, mora em Brasília

 

LBC
Revista da Literatura Barra-Cordense
jornal Turma da Barra



O TB publica matérias da Revista da Literatura Barra-Cordense,
edição nº 22, de abril de 2005.
Editor-chefe: professor Raimundo Nonato Ribeiro da Silva


"Cultura é o sistema de idéias vivas que cada tempo possui."
(Ortega y Gasset 1883-1955)


Editorial
Nonato Silva

            A "Princesa dos Sertões" continua, de velas pandas, a singrar o mar da cultura.
            Multiplicam-se, meritoriamente, os mananciais da cultura cordina. Ali estão a Biblioteca Municipal - O Farol -, a Casa da Cultura "Professor Galeno Brandes", a Academia Barra-Cordense de Letras. E, recentemente, institui-se a "Arcádia Barra-Cordense", patroneada por Isac Martins, fundador do jornal O Norte, em 12 de novembro de 1888.
            E a garimpagem continua, apontando mais pepitas: Assis Soares de Oliveira, Francisco Walter Meneses, Alda Lopes Brandes, Sidney Milhomem Filho, Nonato Cruz, João Pedro Freitas da Silva, Murilo Milhomem, Aristides Milhomem, Sebastião Pinheiro Martins, Luís Pires (Luisinho), William Figueira, Antônio Rodrigues, José Merval Xavier Cruz, Suarez Pinto Cavalcante e outros.
            Na música, cabe, ainda, salientar componentes da Euterpe Barra-Cordense, como Caetano da Providência Araújo, José Rosa, Ismael Salomão e outros. Sem omitir o clarinetista Jaó Bílio.
            Sucedânea da Euterpe Barra-Cordens, foi criada por Frei Adriano de Zânica a banda São Francisco, regida pelo maestro Moisés da Providência Araújo. Integravam-na, em fundação, com brilho, Antônio Araújo Chaves, Raimundo Nonato Ferreira, Antônio Ribeiro da Silva, José Ribeiro da Silva, Lourival Marinho de Sousa, Floro Austregésilo Brandes, Francisco Leda, José da Providência Araújo, Ivan Ribeiro Lopes, Raimundo Ferreira Sobrinho, Manuel Bernardo da Silva, Carlos Augusto de Araújo Franco, Antônio César de Miranda, José Pequeno, Carlos Alberto Leda.
            O maior orador barra-cordense de todos os tempos, e o inspetor-escolar Luís Gonzaga Rolland, merecem capítulo à parte.
            Eis a "Atenas Maranhense" em plena floração!
            E a "Arcádia Barra-Cordense", pela mão segura de seu presidente, Cezar Nobre Braga, e digna diretoria, está dizendo e realizando o porquê de sua existência. Já promoveu duas tertúlias - saraus - e faz reuniões freqüentes. Está, com o aplauso do povo, promovendo o 1° Concurso de Poesia Cidade de Barra do Corda, prêmio Nonato Silva, cujo regulamento vem publicado nesta edição.
            Sem oba-oba, a ABC está urdindo bem a teia do seu programa culto-literal, através de atos e ações, em clarinatas, cuja sonoridade muito agrada a um povo ávido de cultura, máxime, literária. E varreu, sabiamente, de seu vocabulário, a palavra imobilismo, porque pensar e fazer são indissociáveis nos homens de ação.
            Por isso e por outras, a "Princesa dos Sertões" tornou-se o coração literário da Terra Gonçalvina, convicta de fazer da leitura e da escrita o caminho do saber, tendo em vista que "o livro é um pássaro com mais de cem asas para voar", na voz afinada de Ramón Gómez de La Serna. E esta convicção encarna o "nenhum povo culto pode viver sem literatura" (Latino Coelho, 1825-1899).
            Tudo isso, sem exagero, porque "quem exagera o argumento prejudica a causa" (Friedrich Hegel, 1770-1831).
            E a seção Recordar é viver traz um grandioso editorial de autoria de Isac Martins que, pelo assunto e conteúdo tratados naquela época, pasma o leitor atento e consciente de hoje.

RECORDAR É VIVER
(Matéria abaixo foi extraída do jornal O Norte de 5 de julho de 1924, num. 302, pág. l).

A Magistratura e o espírito de classe
Editorial escrito por Isac Martins

            Vem da mais remota antigüidade a idéia de associação das classes desamparadas para defesa de seus direitos e resistência às injustiças em que possam ser envolvidas. Começaram, assim, as conquistas de liberdade, timidamente iniciadas pelos servos da
            Idade Média contra os rigores do feudalismo. À proporção que a civilização avança, mas se estreitavam os laços de solidariedade entre as classes oprimidas, até que a Revolução Francesa de 1789 as libertou do jugo dos senhores da gleba.
            As cidades livres, que foram os pródomos da democracia atual, vieram do espírito de classe, organizando-se em partidos, aglomerando prosélitos e dando combate às autocracias reinantes.
            À proporção que as idéias de liberdade se foram dilatando, maior terreno ganhava no seio das nações politicamente organizadas o direito de associação. Surgiram os partidos políticos defendendo os seus programas e com o evoluir dos conhecimentos humanos o espírito de classe se foi arraigando na consciência dos fatores do trabalho e triunfando sobre os detentores das suas prerrogativas.
            Da arena política, em que por muitos séculos se deteve combatendo o absolutismo dos senhores feudais, a campanha às aberrações dos princípios de igualdade passou ao campo da atividade particular, formando associações consolidadas pela justiça dos seus direitos.
            As greves nos tempos modernos, o comunismo, o socialismo, o bolchevismo, insurgindo-se contra o capitalismo e combatendo os privilégios de casta, revelam nitidamente a ação poderosa dessas agremiações, vencendo em favor da comunidade os obstáculos propostos aos seus ideais pelo parasitismo.
            Não só para assegurar o bem-estar como para defender seus interesses, por toda a parte pululam associações de advogados, de artistas, de auxiliares do comércio, de operários, maquinistas, motoristas, estivadores e tantas outras espalhadas nos centros de atividade.
            Em nosso estado, especialmente na capital, elas se registam em grande número, sendo notáveis os benefícios colhidos pela Associação Comercial, pelo Centro Caixeiral, pelo Centro Artístico e outras que ali estimulam os sentimentos de solidariedade dos seus associados. Recentemente, sob a inspiração de Alfredo de Assis, foi criada a dos Advogados, visando assegurar os privilégios conferidos à classe pelas academias de direito.
            É de estranhar, porém, que a Magistratura, a mais elevada das classes que o honram com o saber e o labor o Maranhão se conserve até agora afastado dos princípios consolidadores das agremiações sociais.
            Pela espinhosa missão que desempenha no meio da sociedade, de que é a suprema garantia, obrigada a intervir e decidir os pleitos em que se chocam interesses controversos, sujeita às investidas das ambições sopesadas pelo direito e pela justiça; vítima de ódios partidários, acirrados por indébitas pretensões dos que a encaram, não como a personalidade jurídica incumbida de manter o equilíbrio das relações sociais, mas como instrumento capaz de satisfazer as suas paixões; garantidora da vida, paz e propriedade dos seus jurisdicionados e que, pelo prestígio do seu elevado cargo devia merecer o acatamento e respeito do meio em que exerce nobilitantes funções; é, não raro, vítima de ultrajes e infâmias, assacadas pelos que se sentem prejudicados com a imparcialidade da sua autoridade.
            Assiste, pois, à magistratura o dever de se organizar em sociedade defensora da sua honra, da sua probidade e dos direitos que lhe são assegurados pelas instituições em vigor. Sentimo-nos, pois, desvanecidos com a honra de levantar esta idéia, filha, aliás, de uma confabulação íntima que mantivemos com dois magistrados íntegros - os Drs. Acrísio Rebelo e Walfredo Lira - e dos quais recebemos a honrosa incumbência de dar-lhe circulação pelas colunas do nosso modesto jornal.
            Aos interessados, aos ilustrados membros de um dos três poderes do Estado, ao qual cumpre executar e aplicar a lei, cabe o dever de levar por diante o nobre tentâmen.

Nota da Redação da LBC: Veja que beleza de correção da Língua Portuguesa, e firmeza de estilo! Quanta cultura e erudição!

 

 

LBC
Revista da Literatura Barra-Cordense

jornal Turma da Barra



O TB publica matérias da Revista da Literatura Barra-Cordense,
edição nº 21, de março de 2005.
Editor-chefe: professor Raimundo Nonato Ribeiro da Silva

Uma casa sem livros é uma casa sem dignidade
(De Amicis 1846-1908)

Editorial
Nonato Silva

            Barra do Corda-MA é assim mesmo.
            Mais uma entidade cultural, cercada de publicações e livros; ali acaba de ser instituída. Trata-se da Arcádia Barra-Cordense, com a finalidade e o objetivo de promover o estudo e a divulgação, entre outros, do idioma nacional, bem como da literatura barra-cordense e nacional, adotando a filosofia das organizações não-governamentais.
            É sempre bom lembrar o dito de Camilo Castelo Branco (1825-1890): "Crítica que principia por nós é a melhor de todas" . Isto ao lado do que preceitua Humberto de Campos (1886-1934): "O autor, em geral, é mau crítico de si mesmo".
            Barra do Corda, ninho e nicho de cultura, fez chegar, ali, o gérmen da literatura, com seus dignos fundadores, como a glória da "Princesa dos Sertões", do estado timbira e do país.
            O marco inicial e revelador dessa literatura foi, sem dúvida, o jornal O Norte, apanágio de beletristas exímios, no contexto da época e seqüências. A este paladino da imprensa, fundado 12 de novembro de 1888, embelezaram-no, cultural e literariamente, os inteligentes plumitivos Isaac Martins dos Reis, Dunshee de Abranches, Frederico Figueira, Antônio Rocha Lima, Deoclides F. Sousa, Lino Leal, Francisco Câmara, José Florêncio Moreira, Mariana Luz, Melquíades Ferraz, João Bento Moreira Ferraz, Alfredo de Assis Castro e outros.
            Com um pé no século XIX, viram-se despontar pontífices das letras barra-cordenses, formando glória da "Princesa dos Sertões", tais como Maranhão Sobrinho (1879-1916), Marcelino César de Miranda (1875-.....), Clodoaldo Cardoso (1895-1970), Isaque Gomes Ferreira (1895-1967), Padre Odorico Maia (1894-1975), entre outros.
            No bojo de século XX, floriram Nicanor Azevedo Barros (1907-2001), Olímpio Martins Cruz (1909-1996), Pedro Braga Filho (1918-1978), Wolney Milhomem (1927-1992), Galeno Edgar Brandes (1930-1994), Raimundo Braga Martins, Raimundo Nonato Ribeiro da Silva, Mons. Hélio Maranhão, Sidney Milhomem, Antônio Almeida, Mário Silva Ferreira, Francisco Brito, Lorena D'Alcântara Peres da Silva, José Tavares da Silva, Tâmara Maria Ribeiro Pinto Oliveira, Cícero Sousa Oliveira, Francisco Brandes, Mônica Rodrigues Ferreira, Osmar Monte, Virgílio Galvão Sobrinho, Mariinha César de Miranda Guimarães, Itamar Cavalcante, Jesus Franco, Raimundo Nonato Pinheiro, sem olvido de outros.
            Atualmente há, ainda, o que se pode chamar a Escola do Turma da Barra, acolhendo uma plêiade excelente de cronistas, contistas, poetas, ensaístas que muitíssimo honram a literatura da Cidade de Melo Uchoa. Entre outros, somam-se: Allander Passinho, Alex Macedo, André Milhomem, Angélica Alencar, Artur Arruda, Benedito Martins, Cezar Braga, Humberto Madeira, Janderson Araújo, Júlio Sá, Luciana Martins, Luís Carlos Rodrigues da Silva, Mauro Miranda, Miramny Guedelha, Natanael Maninho, Rafael Castro, Robert Menezes, Robson Roberto de Almeida, Rogério Brandes, Rubem Milhomem, Urias Matos.
            Diante de tudo isso pode-se afirmar, sem falso ufanismo, constituir-se Barra do Corda Atenas Maranhense.
            É que "literatura, como a nobreza, está no sangue", como pondera o ensaísta e crítico inglês Guilherme Hazlitt (1778-1830). De vez que seus retratos literários mostram grande subtileza de critério.
            Outras artes são executadas pelos barra-cordenses. Na pintura e nas plásticas despontam Antônio Almeida, Primavera Arnaud e Pedro de Oliveira Barros. Na música, Moisés Araújo, José da Providência, José Mário, Línton Araújo, Ananias Araújo, Galeno Brandes e muitíssimos outros virtuoses. No lazer, Barra do Corda incorpora o melhor carnaval do interior do estado. Basta dizer que, no carnaval deste ano, estiveram ali 12 ônibus e uma van de 10 passageiros conduzindo turistas para o reinado de momo. Não pode ser esquecida a Casa do Artesão.
            LBC manterá uma seção Recordar é viver, transcrevendo aspectos literários, históricos, sociais, notícias, comentários, contidos nas ricas páginas do bravo paladino O Norte.
            Efusivos parabéns à Arcádia Barra-Cordense e seus árcades.
            É que, no pensar de Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810) a cultura:
            "cerca, vence, abrasa
            as cidades mais fortes".
            (Marília de Dirceu, Lira XXVII).

Arcádia
Da redação de LBC

            Era uma região montanhosa da Grécia antiga, na parte central do Peloponeso, habitada pelos árcades, povo de pastores , e, que, nas ficções dos poetas, era representada como um país e paraíso da inocência e da felicidade campestres. Daí, passou a significar sociedade literária, por seu isolamento favorecer o pensar e o poetar. Isolamento esse secundado por planaltos extensos, lagos e vales profundos, servindo de elemento natural a ajudar a explicar a sua posição na história e na língua gregas, na defesa dos seus falares.
            A tanto, referem-se à Arcádia Homero, na Ilíada, com o "catálogo das naus", bem como Virgílio, nas suas eternas Bucólicas.
As arcádias mais importantes foram a de Roma e Lusitana ou Ulissiponense, de Portugal.
            Depois da morte da rainha da Suécia (1689), os artistas e literatos que se reuniam no seu palácio, em Roma, estabeleceram a Arcádia, nome tirado da obra-prima do poeta latino e italiano Jacob Sannarazzo, Arcádia, de caráter pastoril e bucólico.
            Sannarazzo propunha-se restaurar a poesia italiana, pela simplicidade do estilo.
            Os árcades, encarnando os maiores literatos italianos, reuniam-se ao ar livre, no bosque parrásio. E, em 1725, os árcades romanos firmaram residência definitiva no Janículo.
            Por sua vez, a Arcádia Lusitana, academia literária, foi fundada em Lisboa, em 1756, por Antônio Diniz da Cruz e Silva e Manuel Nicolau Esteves Negrão. E cada sócio ou árcade devia adotar o nome e o sobrenome de um dos pastores celebrados pelas musas grega e latina. Essa Arcádia reunia-se em sessão particular uma vez por mês.
            Também havia a Arcádia Ultramarina, sociedade literária, fundada no Rio de Janeiro, em data incerta, mas anterior a 1769, da qual faziam parte Basílio da Gama (1740-1785), Alvarenga Peixoto (1744-1793), Caldas Barbosa (1740-1800) e outros.
            Como se observa, os árcades cordinos instituidores da Arcádia Barra-Cordense - ABC - tiveram muito bom gosto, tino histórico e facilidade na escolha e adoção do nome.
            Et in Arcadia ego, isto é, orgulha-me ser árcade.
            Parabéns!

RECORDAR É VIVER
O Grêmio Maranhão Sobrinho

            Deverá proceder-se amanhã, às 14 horas, no palacete municipal, conforme publicação constante de nossa edição anterior, à eleição dos cargos da diretoria para o ano administrativo que começa em 28 do fluente.
            - Produziu boa impressão a audição, em 28 do pretérito, do hino "Maranhão Sobrinho", letra de Isaac Ferreira e música do Dr. Adelman Corrêa, cantado por distintas senhoritas e acompanhado pela "Euterpe barra-cordense", sob a regência do hábil musicista, sr. Rafael Damasceno.
            - Foram inscritos no quadro social, mediante a necessária aquiescência, a senhorita Madalena Maranhão e os Srs. Raimundo Leonílio Maranhão e Manoel José Salomão, aprovados em sessão de 8 de junho findo.
            - Por uma comissão previamente nomeada e composta dos Srs. Pedro Braga, Leônidas Leda e Florêncio Brandes, foram apresentados cumprimentos de boas-vindas ao consócio Euclides Maranhão.

O futebol

            Parece que jamais deixará de existir entre nós, essa apreciada e deleitável diversão esportiva que, inventada pelos ingleses, despretensiosamente, talvez, apenas para se preservarem mais contra a ação rigorosa do seu clima frigidíssimo, tornou-se, afinal, o mais belo de todos os ramos do desporto, adotado, exercitado, admirado, aplaudido por todo o mundo elegante e chic.
            Aqui, em nosso meio, implantada a admirável criação britânica, prosperou ligeiro, e, como uma planta, viçosa nos primeiros tempos, sob a cultura dedicada dos moços, muito atraiu as vistas da sociedade que se ia já habituando aos deleites constantes do "match", e a imprensa que já lhe concedia, por meio deste órgão, a crônica de todos os sábados.
            Vieram os desânimos, depois. O futebol aqui esfriou; esfriava, geralmente, em todo o Estado. Mas tinha posto raiz no ânimo de alguns admiradores; não morreu completamente. Vive, porém, sujeito a tempestades freqüentes: anima-se, esmorece. Nestes dias, parece, deram-lhe alguns banhos, de inverno; reverdeceu: amanhã iremos ter um "match" animado, no campo do "Namaioara". A banda de música "Euterpe Barra-Cordenses", então dirigida pelo competente mestre Rafael Damasceno, irá abrilhantá-lo. Espera-se, sem dúvida, o indispensável concurso das famílias.
(Extraído de O Norte, edição de 5 de julho de 1924, pág. 2).
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Nota da redação: Conservou-se a integridade do texto. Houve, apenas, adaptação gráfica. Que beleza! Veja-se como se fazia jornalismo naquela época. Vale a pena Recodar e Viver, como se anunciava no Editorial.
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