Artigo
A imponente igreja Matriz
jornal Turma da Barra
*Manoel Monte
São 18h. Os sinos da monumental igreja matriz de Barra do Corda soam com incrível força. A revoada de morcegos risca o céu pontualmente. Sentado na praça, me pego delirando entre pensamentos, lembranças e desejos.
Se eu pudesse voltar no tempo, talvez tivesse aproveitado melhores meus tempos de criança. Meus dias de correria pela praça, de esconde-esconde pelo pátio da igreja... Talvez tivesse tido coragem de subir até a torre da matriz. Nunca consegui subir além do 4o degrau. Minhas pernas não obedeciam, tremiam me condenavam a não realizar tão forte desejo. Por anos, senti-a-me um tanto frustrado. Depois, diante das outras frustrações da vida, essa perdeu um pouco da intensidade. Mas hoje me pego arrebatado por uma vontade inabalável de vencer os meus limites.
Ao entrar na igreja, me deparo com afrescos, vitrais e imagens. A construção é belíssima, gótica... Lentamente chego aos degraus que me levam à torre. Um a um, vou transpondo meus obstáculos. As velhas tábuas, que durante anos de infância, me assustavam ao ranger, hoje não me amedrontam mais. Chego enfim a torre. Os sinos são ainda mais belos do que eu imaginava. O vento lambe meu rosto e me dá uma incrível sensação de liberdade. Observo a cidade. Fico vendo-a escurecer, se acalmar, adormecer... Olho o relógio. Quase meia noite. O silêncio profundo da noite só é quebrado pelo grito da rasga-mortalha que sobrevoa a cidade, como um fiel capataz. É minha única companhia nessa noite solitária.
Desço as escadas. Hora de voltar pra casa. Dou a última olhada na imponente guardiã de Barra do Corda. Sem pronunciar uma única palavra, apenas com sua magnitude, ela me ensina mais uma lição de vida. Na vida, nada é impossível. E amanhã, será outro dia um dia em que nossa maravilhosa Barra voltara a ser encantadora como os bons tempos.
Manoel Monte Arruda é intelectual barra-cordense, mora em Santos (SP)
(3/maio/2008)