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Matéria 1

 

Artigo
O Maranhão não  é uma mentira
jornal Turma da Barra

O TB transcreve artigos do jornalista Edmilson Sanches,
publicados no jornal Açaí Folha, de Açailândia (MA) sobre o padre Antonio Vieira
e a polêmica quanto ao significado da palavra “Maranhão”.
O TB sugere sua leitura:


O Maranhão não  é uma mentira
Parte (1)

Por Edmilson Sanches

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Padre Vieira: o salmo da mentira.

     Pelo menos na Imprensa maranhense não vi destaque aos quatrocentos anos de nascimento do padre Antônio Vieira, completados no dia 6 de fevereiro  -- data que deu início ao “ano vieirino”, a ser lembrado e comemorado, até 6 de fevereiro de 2009, por altas rodas culturais em Portugal e no Brasil e quiçá outras plagas.

     Vieira  -- muita gente sabe --  esteve no Maranhão, viveu e trabalhou no Maranhão, escreveu no e sobre o Maranhão... e, diriam alguns, “falou mal” do Maranhão. Tenho para mim que foi com Vieira e a força de sua oratória e retórica e a enormidade de seu prestígio que se deu início a essa estória de relacionar o belo nome “Maranhão” à palavra “mentira”. A palavra “Maranhão” é mais antiga do que nosso estado e, mais ainda, tem raiz etimológica diferente da de “maranhão” (aumentativo de “maranha”, com que alguns forçam a barra e impingem-nos a relação ou analogia ou sinonímia, por despeito pessoal, grosseria literária ou pobreza cultural). Duas palavras terem as mesmas letras não implica mesma “paternidade” lingüística, mesma origem etimológica nem, muito menos, mesma significação e sentido).

     Maranhenses fomos abençoados com posição estratégica e riquezas naturais, embora, como “contrapeso” e “contrapartida”, tenhamos dado vida e guarida a um magote de políticos  -- vivos e mortos -- que são uma desgraça (o que, por incompetência ou vontade, omissão ou ambição, herança ou hereditariedade, continuísmo ou continuidade, tem nos deixado na rabeira, entre os piores  -- senão o pior --  da Federação em vários, em diversos, em muitos indicadores sociais e econômicos, sem falar em aspectos morais, éticos, atitudinais e coisas quetais).

     Juntada a desgraça política a seu corolário  -- a miséria socioeconômica --, temos e damos o aval das “teses” dos que forçam e reforçam que “Maranhão” e “mentira” são tudo a mesma coisa, palavras de igual sentido, farinha do mesmo saco.

     Não adiantam argumentos de que o nome do nosso estado, “Maranhão”, pode vir do nheengatu (“mara-nhã”), do tupi (“para” + “na, ana” + “jhó” ou “mbarã-nhana” ou “pará-nhana”), com significado de “rio semelhante a um mar”, “rio que corre como um mar” etc. Não adianta ir mais longe e buscar origens pelasgas, onde se teriam abeberado os fenícios, que, em sua passagem por estas bandas, teriam deixado com os tupinambás esse legado lingüístico. Nada disso adianta contra a verdade que é mentira repetida.

     E Vieira foi o foguete propulsor que, à base de combustível lingüístico e retórico, levou e elevou às alturas essa “coisa” de “M” de “mentira” e “M” de “Maranhão” e outros emes mais.

     Neste seu quarto século de nascimento, que possam os estudiosos, junto com as revisões e reedições da obra vieirina, ficar sabendo que o Maranhão não é um estado de mentira  — pelo menos não mais nem menos do que mente a mente demente e a mente decente de coestaduanos dos outros 25, 26 estados do Brasil e de outros terráqueos em mais ou menos duzentos países do mundo. Sozinho pelo menos... o Maranhão não é uma mentira.

     Nas próximas edições do “Açaí Folha” (re)publicarei textos acerca das origens da palavra “Maranhão”. Além de informações, eles trazem reflexões e posições pessoais sobre o assunto. Se possível, acompanhe.

 

O Maranhão não  é uma mentira
Parte (2)

 

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Manga (fruta) e manga (parte de vestimenta): iguais e diferentes.

      Convidado para fazer o discurso de abertura na instalação do Comitê Pró-Maranhão do Sul do município de Senador La Rocque, no sábado, dia 26/05/2001, fui indagado, por escrito, pelo deputado federal Sebastião Madeira sobre essa estória de dizer que o nome do Maranhão significa “mentira”, como dissera um universitário na mesma solenidade.  
 
      Posso afirmar que o nome do nosso Estado nada tem a ver com a palavra “maranha”, cujo aumentativo se aplica a mentira grande, forçando um significado que sequer é o principal entre os inúmeros que a palavra “maranha” tem.  
 
      A etimologia (origem) da palavra “maranha” e a da palavra “Maranhão” são diferentes, nada têm a ver uma com a outra, em tempo, no espaço e na língua de origem das duas palavras. Estou concluindo um alentado artigo sobre o assunto.  
 
      Infelizmente, o poder de multiplicação do mal é muito grande. As pessoas têm uma insalubre “queda” para sair por aí espalhando o que não presta, em detrimento do que é o justo, o correto, o bom, o verdadeiro. Não se deve confundir as origens de “maranha” e “Maranhão”. Elas vêm de línguas diferentes. É como a palavra “manga”: a “manga” que significa fruto da mangueira é uma palavra que vem da língua chamada malaiala, falada na região de Malabar, na Ásia (aliás, por sua vez, a palavra chegou à Ásia por meio do idioma tâmil, uma das mais cultas línguas faladas no sul da Índia e no país Sri Lanka, o antigo Ceilão). Já a palavra “manga” que significa aquela parte da vestimenta (camisa, vestido) por onde se enfia o braço vem da língua latina. Ambas as palavras chegaram ao português com a mesma forma, embora venham de fôrmas diferentes. Em tâmil, “manga” vem de “mankay” (“man” significa “mangueira” e “kay” significa “fruto”). Agora, em latim, a “manga” (de camisa) vem de “manica”, que, por sua vez, deriva de “manus”, que significa “mão”.  
 
      Assim é o caso de “maranha” e “Maranhão”: chegaram à Língua Portuguesa por meio de idiomas diferentes e significam coisas também diferentes. Confundir (por pobreza mental ou discurso político) “Maranhão” com o pouco comum aumentativo de “maranha” é o mesmo que dizer que duas pessoas que tenham o mesmo nome (por exemplo, José Pereira da Silva) sejam uma única e só pessoa, vindas do mesmo lugar e com a mesma personalidade. Não; embora possam ter o mesmo nome, as pessoas têm histórias diferentes, vidas diferentes, personalidades diferentes, um pode ser bom e o outro, ruim.  
 
      A mesma coisa acontece com as palavras, pois palavra e gente têm tudo a ver. Afinal, no princípio, era o Verbo.

O Maranhão não  é uma mentira
Parte (3)

A verdade existe. Só se inventa a mentira.
(Georges Braque)

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Prefácio ao livro Topônimo Maranhão: Apagando a Mentira (acima), de José Herênio, em 2004.

     Há 350 anos, em 1654, padre Antônio Vieira, um sermonário de larguíssimos recursos retóricos, pronunciava em missa em São Luís palavras que, ao longo dos tempos, vêm marcando em brasa a sensibilidade do povo maranhense. A respeitabilidade, os méritos do grande orador sacro atraíram, no correr dos séculos, os estudiosos e curiosos, além de simples leitores. De uma forma ou de outra, o interesse pela obra vieirense e sua divulgação contribuíram para a disseminação de uma incômoda associação que vincula o nome do estado (Maranhão) ao substantivo “mentira”. Junte-se a isso as controversas hipóteses para o ter-se dado o nome de “Maranhão” ao estado brasileiro e à inconclusa etimologia dessa palavra, à qual alguns teimam não apenas agregar, por metonímia e aumentativo, um desairoso sinônimo de inverdade, mas intentam transformá-la na própria mentira, uma grande mentira.

     Três séculos e meio depois do pronunciamento de Vieira, surge uma obra que também fala alto à consciência maranhense e reúne dados e fatos lingüísticos e históricos que concluem que já é hora de romper os laços semânticos que elam o nome do estado à mentira.

      José Herênio de Souza, autor de Topônimo Maranhão: Apagando a Mentira, sabe o quanto lhe custou de tempo, esforço e outros recursos para chegar à realidade do livro impresso. Igualmente, à parte a pessoal satisfação de legar essa enorme contribuição aos estudiosos da matéria, à verdade histórica e, claro, ao amor-próprio dos maranhenses, ele sabe do penoso caminho que seu trabalho tem pela frente, para ir retirando, com bisturi, as grossas camadas de conceitos e preconceitos importunos que se aderem sobre tão adiposo assunto. Como entende o próprio autor: “(...) algo deve ser feito para que adjetivações depreciativas sejam relegadas a plano secundário”.

      José Herênio não se omite de mostrar um pouco do que sente em relação à maneira como se construíram e como vingaram “hipóteses e ilações vagas” sobre a “identidade toponímica” da terra maranhense, por ele consideradas “soluções bastante controversas e de certo modo ingênuas”. E, duro, considera: “Mas, bem pior, foi terem-se dimensionado tão-só as ilações desairosas que deram guarida a sinonímias agressivas, derivadas de linguagem vulgar, acolhendo termos deturpados e descabidos, que redundaram em adjetivações pejorativas, em desfavor de nossa gente”.

      Da coleção de razões para o nome “Maranhão” ter sido dado ao nosso estado, o autor reservou-se o direito à própria escolha, defendendo-a e a interpretando. “A história não se faz somente com dados, mas também com interpretações” -- a frase é de Gregório Marañón, notável médico e escritor espanhol, cujo sobrenome torna-se, aqui, um curioso e bem-vindo elemento de coincidência, o que, de certa forma, faz mais oportuna sua citação.

      Ao tempo em que colige a diversa – e, em muitos casos, adversa --  exemplificação de origens para a nominação do estado do Maranhão, José Herênio oferece ao leitor um passeio de turismo histórico, mostrando-nos lugares de Portugal, país que nos trouxe e nos tirou e também nos legou costumes, língua, nomes...

       A partir de agora, este livro torna-se, senão ponto de partida, no mínimo referência obrigatória, indescartável, para os que se aventurarem a continuar as buscas, já que, na avaliação do próprio autor, esta não é uma obra fechada nem o tema, esgotado.

      Lingüística... História... No princípio, era o substantivo, que, por meio do verbo, fez-se falsa verdade. O Maranhão não é uma mentira. As razões de seu nome são outras e, como se demonstra neste livro, estão além do fundo falso que a maioria não soube descobrir.

      Se há uma mentira de fundo em nosso estado, ela é a mesma que se assenhoreia país adentro e afora: é a mentira política, a mentira dos (des)governos, que, de modo quase genocida, vem negando vida e dignidade à maior parte da população brasileira. A maior mentira não está no nome, mas na ação, ou na falta dela, na negação dela.

       É do irlandês Oscar Wilde a frase: “Todo mundo pode fazer história. Só um grande homem pode escrevê-la.”

      José Herênio é um grande homem.

 

O Maranhão não  é uma mentira
Parte (4)

 

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Capa do livro “Topônimo Maranhão”.

     Topônimo Maranhão: Apagando a Mentira é livro de autoria do carolinense-imperatrizense José Herênio. É um trabalho de fôlego. Exigiu tempo, esforço, dinheiro e outros recursos e quetais, que consumiram ou onde se aplicaram paciência, força de vontade, mente apurada e acurada... e dedos no teclado do computador.

     Essencialmente, acredito que o livro nos remete a três questões: I) Por que o estado do Maranhão recebeu esse nome? II) Qual a origem dessa palavra? III) Como enraizou-se no in/consciente coletivo essa estória de que, sem trocadilho, vivemos em um estado de... mentira?

     As duas primeiras perguntas justificam-se porque, está evidente, o topônimo “Maranhão” ou o substantivo do qual ele poderia ter derivado são anteriores à, digamos, “criação” do estado. O terceiro questionamento busca saber o “marco regulatório”, o momento a partir do qual ocorreu a associação de idéias, a relação metonímica   -- ou o que seja – que vem apenando o topônimo Maranhão, agregando-lhe uma pesada carga semântica absolutamente inverídica e, além do mais ou por isso mesmo, injusta.

     Como disse em texto de 2001, estou convicto de que “maranhão” e “Maranhão”, se são indivíduos vocabulares constituídos de mesmas letras, não são a mesma coisa, têm pais e países distintos. Ainda que chegássemos à protolíngua, à língua-mãe, ainda assim, nessa origem remota, “Maranhão” não é nem significaria “mentira”. Sou fortemente tentado a acreditar na versão de Ludwig Schwennhagen, que, no seu livro Fenícios no Brasil, estudou a antiga história do nosso país a partir de 3.105 anos antes (contando de 2005), no período 1100 antes de Cristo (a. C.) até o ano da “descoberta”, 1500. (O jornalista e escritor Vítor Gonçalves Neto, o mais caxiense dos teresinenses, faz referência a Schwennhagen e seu livro na obra Roteiro de 7 Cidades.)

     Schwennhagen apresenta fortes indícios e razões, que dizem que a palavra “Maranhão” vem mesmo de “Mara-Ion”, expressão que significa “o grande rio da terra”. O nome veio a nós pelos tupinambás, a partir de herança dos fenícios, que andaram por aqui antes de Cabral e seus ascendentes serem projeto de gente. “Mara-Ion” é termo da língua pelasga (os pelasgos eram um antigo povo que ocupou a região da Grécia e da Itália antes do século 12 da nossa era).

     Desqualificar, por antecipação ou precipitação, esse tipo de possibilidade e os muitos estudos que a sustentam e fortalecem é desconhecer que antigas e mesmas civilizações construíram e habitaram cidades em diversos continentes. Cite-se, só para exemplificar, o povo anasazi, que habitou os Estados Unidos entre os anos 850 a 1250 e construiu observatórios astronômicos e templos de pedras que, viu-se depois, estavam presentes, com obras idênticas ou assemelhadas, também em outros países (México), inclusive de outros continentes, como a Europa (Reino Unido) e a África (Egito). Certamente não foi por telepatia (ou foi?) que se comunicaram, transferindo símiles detalhes dessas construções...

Sim: antes da chegada de Pedro Álvares Cabral havia vida inteligente no Brasil  -- nossos índios e, antes deles, povos ancestrais que, favorecidos até pelas correntes marítimas, chegaram ao Maranhão e Piauí, para citar só estes estados, e aqui gravaram nomes e fincaram marcas profundas, em um rico legado que a Arqueologia, a Paleontologia, a Antropologia e outras ciências estão revelando e, aos poucos, desvelando para o nosso conhecimento e convívio.

 

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Padre Vieira pregando aos índios.

     Por que, como unha encravada, aprofundou-se, causando-nos dor ou desconforto cívico, essa relação equivocada da palavra “Maranhão” relacionada a mentira? Como e por que isso aconteceu? Vale lembrar, para ficar só nos maiores estados brasileiros, que a palavra “paulista”, além de designar, como gentílico, o que nasce em São Paulo, significa também “teimoso”, “birrento”, “turrão”, pessoa “muito desconfiada”, “carne dura” do boi (o lagarto), “amansador de burro”  -- e nem por isso se desenvolveu uma cultura de semântica negativa ou incômoda em torno desse adjetivo e substantivo. Por sua vez, “carioca”, além de designar quem nasce no Rio de Janeiro, é palavra para “café fraco ou aguado” e liga-se a significados como “raça de porcos”, “bebedouro para porcos”  -- e, ainda assim não estão os costumes, os chavões, a literatura, o imaginário eivados dessas associações menos cômodas.

     José  Herênio, em seu livro Topônimo Maranhão: Apagando a Mentira, recolhe excertos do Sermão da Quinta Dominga da Quaresma, do padre Antônio Vieira. Trezentos e cinqüenta anos se passaram desde aquela pregação e uma diminuta parte dela continua pregada na consciência maranhense. Parece que foi Vieira quem deu a largada para a corrida dessa desfavorável carga semântica “Maranhão/mentira”.

     Vieira era orador excepcional, disso o sabia Europa, Maranhão e Bahia. E é como recurso de oratória  -- e não como verdade lingüística ou histórica –  que devem ser vistas as passagens (na segunda parte do Sermão) que ligam o nome do estado à falta de verdade. Lembremo-nos de que é de Vieira também outra observação importuna: ele pespegou e, por causa dele, “pegou” o dito que atribui ao maranhense o vício do ócio. Está na terceira parte do mesmo Sermão (que é dividido em sete partes – sete, que, na simbologia popular, é conta de mentiroso...).

      Na origem, a mentira e a ociosidade eram “atributos” do povo de Creta, a maior das ilhas gregas, terra do Minotauro e seu labirinto, onde a civilização minóica floresceu, no período 3.000 a. C.—1.100 a. C. Foi deste modo que o apóstolo Paulo referiu-se àqueles gregos: “Os cretenses são sempre mentirosos, bestas ruins, ventres preguiçosos” (Bíblia, Tito, I, 12). Vieira excluiu do versículo a referência a “bestas [feras] ruins” e, em latim (Cretenses semper mendaces, ventres pigri), carimbou nos ilhéus maranhenses a apostólica e ociosa observação.

Ficaram como herança injusta as palavras do notável pregador português. Bem recebido no Maranhão, para onde viera a contragosto, pois adorava a vida cortesã  (1), padre Vieira sabia que às suas prédicas e práticas não encontraria quem replicasse. Aquele povo ali, na igreja, povo simples, à exceção dalguns portugueses bem nascidos, indígenas, e, no púlpito, o culto padre, representante de Deus naquele ermo insular.

 

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Padre Vieira: o salmo da mentira.

           Padre Antônio Vieira, cuja data de nascimento completa 400 anos neste mês, sabia que a expressão “terra onde até o Sol mente” (referência às “inconstâncias do clima”) era uma apropriação sua da frase: “En el Brasil, hasta los cielos mientem”, dita pelo almirante espanhol dom Fradique de Toledo y Osório, marquês de Uvaldeça, que libertou a Bahia do poder dos holandeses, em 30 de abril de 1625  -- cerca de 30 anos antes do famoso sermão.

     Foi injusto Vieira, pois ele próprio reconheceu que também em Roma “se experimentam a cada dia as mesmas mudanças” [climáticas]. Que “em Lisboa muita mentira se diz”. Que “tudo mente, e todos mentem”.

     Para Vieira, parecia que o problema não era mentir, ou mentir muito, e sim como “espalhar”, “repartir” as mentiras, pelo que as mentiras seriam mais graves se menos casas houvessem para serem “espalhadas”, como acontecia no Maranhão (os verbos “espalhar” e “repartir” são de Vieira). A gravidade da mentira, pelo visto e lido, estaria na divisão estatística, não na diminuição da personalidade/espiritualidade.

     Assim, pode-se creditar ao poder da palavra de Vieira, à força de suas analogias e construções verbais e ao valor que aos Sermões se atribui até hoje a fixação, por repetição, dos conceitos desairosos acerca do Maranhão e do maranhense. Como ressalta Fernandes da Costa: “E essa voz repercute-se, há mais de dois séculos, nas altas esferas da inteligência portuguesa (...)”.

     Mas pode-se buscar a remissão desse pecado vieirense no mesmo sermão da Quinta Dominga da Quaresma. Na penúltima parte dessa pregação do século 17, Vieira, falando aos maranhenses, como que revê: “(...) Parece-me que estais dizendo (...) que tenho dito muitas afrontas à vossa terra. Porém eu digo (...) que antes a tenho desafrontado.” “(...) Provei que mentem todos os que dizem mal de vós. Vós bem sabeis, melhor que eu, que tudo são mentiras (...)”.

     Padre Vieira falou e disse.

     E José Herênio pesquisou e confirma: é preciso apagar a mentira do topônimo Maranhão.

     “Porque é uso do mundo dizer mal dos bons”.(2)

*Edmilson Sanches é jornalista, também vereador em Imperatriz, atualmente candidato a deputado federal
edmilsonsanches@uol.com.br

 

Notas

(1)   Padre Antônio Vieira “era invencivelmente cortesão”, diz um seu biógrafo, Gonçalo Alves, também padre, estudioso da obra vieirense. Embora concorde com as palavras de André de Barros, jesuíta e biógrafo de Vieira, o padre Gonçalo Alves não deixa de anotar pecadilhos do sermonário, como ressentimentos, fingimentos, duplicidades de postura, com gênese em seu elevado amor-próprio e vaidade.

(2)   Frase de padre Vieira, na sexta parte do Sermão da Quinta Dominga da Quaresma. Todas as citações e referências relacionadas a Vieira têm como base as Obras Completas do Padre António Vieira, tomos IV, V e VI (Sermões, volume II), editadas por Lello & Irmão (Porto, Portugal, 1959). Antônio Vieira nasceu em Lisboa (Portugal), em 6 de fevereiro de 1608, filho de “fidalgos de nobre linhagem”. Embarcou no dia 22 de novembro de 1652 para o Maranhão, onde chegou “em princípios de 1653”. Ficou até junho de 1654, quando retornou a Portugal. Voltou para o Maranhão no ano seguinte e desta vez ficou até 1661, novamente retornando para Portugal. Vinte anos depois, em 1681, com 73 anos, veio para a Bahia (Brasil), onde faleceu com quase 90 anos, em 18 de julho de 1697.

(TB15ago2010)