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Matéria 1

 


A exploração do carvão vegetal que o PV não ver

jornal Turma da Barra

“Meus inimigos estão no poder”
Cazuza

*Raphael Castro

 

     Ir à Barra é sempre uma forma de exercitar o olhar, ativar a reflexão, pensar, criticar etc. Para quem mora fora, como eu, e gosta tanto da sua cidade natal, sempre queremos que nela estejam acontecendo coisas boas, principalmente aquelas no âmbito da administração pública. 
     Quando cheguei lá, na quinta, 29, para as comemorações de 70 anos do aniversário do meu avô, tive duas impressões que me marcaram bastante: 1) A grande quantidade de adesivos afixados em carros e motos com os dizeres “43. PV – Este é meu partido”; 2) Barra do Corda virou um canteiro de obras. Mas em ambos os casos, acredito que não temos motivos para comemorar. 
     Primeiro porque nós ainda estamos longe, muito longe, daquilo do que os teóricos da ciência política chamam de um mínimo de democracia direta participativa. É óbvio que todo cidadão tem o direito de manifestar suas preferências políticas (eu não sou contra isso), mas também deveria haver um outro movimento, aquele que se realiza no âmbito da reflexão crítica sobre o valor que tem o seu próprio voto e sobre a administração pública de nossa cidade. 
     Se algum leitor descuidado ainda não sabe, o “43”, ou o PV, é o Partido Verde. É também o partido político do prefeito da Barra, Manoel Mariano de Sousa - Nenzin. Foi por essa legenda que, já nas eleições de 2004, ele fora eleito. 
     O certo é que ao longo de quase três anos e meio de mandado, as causas ambientais (que teoricamente o PV tem como uma de suas bandeiras principais defender) foram praticamente deixadas de lado na administração da nossa cidade. Os rios Corda e Mearim, por exemplo, estão a cada dia mais sendo assoreados. O fato do rio Corda ter ganhado o título de uma das sete maravilhas do Maranhão em 2007 não foi o bastante para despertar ações da prefeitura para melhor ser cuidado. Nem uma placa sequer foi colocada em algum ponto da cidade informando que o rio é uma das sete maravilhas do Maranhão.
     Mas acredito que o problema ambiental de maior grandeza existente na Barra atualmente, refere-se à intensa produção do carvão vegetal, oriundas, na Barra, principalmente das matas nativas. 
     O quadro abaixo mostra como a produção de carvão vegetal (em toneladas) em Barra do Corda manteve-se estável entre os anos de 1990 a 2001 (variando entre 1.707, valor mínimo, a 2.550, máximo). E a partir do ano 2002 essa produção vem aumentando de forma assustadora, principalmente nos anos de 2005 (38.446 toneladas) e 2006 (39.352 toneladas).

Quantidade produzida na extração vegetal por tipo de produto extrativo
Município = Barra do Corda - MA
Variável = Quantidade produzida na extração vegetal (Tonelada)
Tipo de produto extrativo = 7.1 - Carvão vegetal
Ano
1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006
1.882 1.880 1.885 1.887 1.890 1.937 2.550 1.707 1.715 1.741 1.742 1.820 13.328 9.099 9.154 38.446  39.352

Fonte: IBGE - Produção Extrativa Vegetal

     A exploração vegetal em Barra do Corda se dá devido à grande quantidade de áreas verdes existentes no município. Esse carvão é exportado para cidades como Imperatriz e Açailândia, por exemplo, onde é utilizado como insumo energético para a produção do ferro-gusa. Os dados do IBGE ainda não dizem respeito à produção relativa aos anos de 2007 e 2008, onde esses números muito provavelmente devem sofrer um aumento significativo.
     Acredito que a administração pública deveria se preocupar mais com essa exploração desordenada das matas nativas, visto que “quando hᔠreflorestamento, ele é feito com o eucalipto, árvore que não faz parte da mata nativa da região.
 
     Os eleitores que andam com os adesivos em seus carros e motos deveriam fazer uma reflexão a respeito do valor de está num partido muito específico (como o PV), que foi criado para lutar e defender causas ambientais. 
     O outro motivo que quero chamar a atenção é para o fato de Barra do Corda ter se transformado num canteiro de obras (Centro, Tresidela e Altamira). No Centro, por exemplo, a prefeitura finalizava o asfaltamento das ruas (o que vai aumentar a temperatura dali em uns 3 a 4º C), na Tresidela estava sendo construído uma nova Feira. Vários pontos da cidade foram asfaltados ao longo de 2007, praças e escolas também foram construídas. A cidade está cheia de outdoors da prefeitura afirmando que promessas feitas em campanha foram cumpridas. 
     Isso de certa forma é bom, faz bem para a cidade e melhora a qualidade de vida da população. Mas não nos enganemos e não nos esqueçamos que a administração de Manoel Mariano foi muito diferente daquela de seu primeiro mandado, considerada, em alguns pontos, regular. 
     Barra do Corda esteve abandonada durante os primeiros três anos e meio dessa segunda administração, e é curioso saber que em meados de 2007 para cá nossa cidade se transformou num canteiro de obras. Coincidentemente às vésperas das eleições que se aproximam em outubro. 
     Isso tudo é para dizer que à margem dos partidarismos acríticos muito forte e presentes na Barra, nós ainda estamos de olho, e sempre refletiremos sobre nossa cidade, porque a queremos cada vez melhor. 
     Uma consideração final: Quando pensei em me filiar a um partido político, em meados de 2007, o Partido Verde foi o primeiro nome que me veio à mente, porque nenhum outro partido político parecia ser tão pertinente para refletir sobre as questões de Barra do Corda. Mas por motivos políticos e ideológicos (e por saber que apesar do prefeito da Barra ser desse partido, não ocorre uma política efetiva de defesa contundente do meio ambiente) acabei não me filiando a ele.

*Raphael Castro é estudante de Ciências Sociais da UFMA, mora em São Luís

(TB/5/jun/2008)

 

 

O dia em que meu avô
virou flamenguista

jornal Turma da Barra

 

*Raphael Castro

 

                Eu costumo dizer que as coisas das quais eu mais gosto eu as chamo de doces. O meu carnaval deste ano foi assim: doce, especial, inesquecível...
                Fácil explicar o principal motivo: consegui tirar meu avô Dorgival Castro de casa pra sair no mesmo bloco que eu também sairia, o “Não é da sua conta”.
                Esse bloco tradicional fez sucesso na Barra dos anos 60, 70 e 80. Este ano foi reativado, graças ao esforço e empenho de algumas pessoas, tais como Gilson Pacheco, Armandinho, Ênio Pacheco, Pablo Oliveira, João Carlos, Antonio Carvalho, Deurivan Martins, Heider Moraes, entre outros. 
                Um dos principais motivos da volta do “Não é da sua conta” foi o recente falecimento do professor Raimundo José, um dos membros-fundadores do bloco. Inclusive o bloco saiu este ano em sua homenagem. Fora impressa uma grande faixa, que ficava à frente do bloco, com a fotografia do professor. O bloco saiu somente na segunda 4, com início lá pelas 16h e término aproximadamente às 21h, na Pizzaria do Ênio. 
                O momento auge do “Não é a sua conta” aconteceu por volta das 19h, quando o bloco parou em frente à atual sede do cartório, na rua Aarão Brito, perto dos Correios, quando houve discursos do Cezar Braga, Dorgival Castro, Sidney Milhomem Filho e Gilson Pacheco.
                Foi ali que meu avô e o Cezar sugeriram cantar, no que foram seguidos acompanhados pela bateria e por todos, o hino do Flamengo, time pelo qual o professor era apaixonado. Foi assim que o meu avô, tomado pela emoção da homenagem e do seu reencontro com o tradicional carnaval de rua da Barra (uma consideração: quando ele chegou à cidade, no início da década de 70, era neste bloco que ele saia vestido de mulher, com a fantasia e a inscrição: “boneca cobiçada”), após tanto tempo afastado, que ele, um vascaíno convicto, cantou, com mais convicção ainda, o hino do Flamengo, principal arqui-rival do Vasco.
                Como folião, andando pelas ruas da Barra com a imagem do professor Raimundo José, percebi a emoção das pessoas com aquela homenagem. Eu mesmo várias vezes me emocionei por ter a oportunidade de segurar a faixa com a foto do professor, que não conheci pessoalmente.
                Felicidade é muito pouco para dizer da alegria de sair no “Não é da sua conta”, no primeiro ano dessa nova fase do bloco, de participar daquela homenagem tão especial e de ter a oportunidade de brincar o carnaval ao lado do meu avô e vê-lo tão feliz com aquilo tudo.
                Mas houve um outro carnaval, o, digamos, “oficial”, o da Tresidela. Tenho algumas breves considerações. 
                O carnaval da Barra, como sempre, atrai um grande número de turistas, principalmente de São Luís, Brasília e, novidade, de Imperatriz (foram muitos imperatrizenses e alguns mostravam em suas camisas “Imperatriz na Barra”). E esses turistas, fato inconteste, movimentam a economia da cidade de forma positiva, usufruindo de bares, hotéis, restaurantes e lanchonetes, supermercados etc. 
                A crítica que se fez ao novo local, a Tresidela, não foi em vão. Aquele local não tem sentido de ser, os foliões não se identificam com ele para pular o carnaval. As pessoas ficam sem identidade, sem saber qual é o seu lugar naquele espaço.
                Apesar da relativa boa estrutura que foi montada pela prefeitura. Afinal, é muito fácil construir do nada (lembremos que nada havia naquele espaço do carnaval antes, era uma área vazia). Os banheiros, por exemplo, foram insuficientes. Contudo, a idéia de levar sanitários químicos foi excelente, até mesmo porque são mais higiênicos, mas foram poucos, o que ocasionou filas. 
                A prefeitura tem que inovar também nas bandas que tocam no carnaval e sair dessas do “Circuito Marafolia”, que não são de boa qualidade. Em São Luís, quando meus amigos me perguntavam quais eram as bandas que iriam tocar na Barra, eu respondia: são as mesmas que vocês vêem tocando todos os finais de semana na capital maranhense. 
                O que chama os foliões para o interior do Maranhão são as bandas que vão tocar. Os outdoors que haviam em São Luís mostravam que, dos investimentos que os prefeitos fazem para atrair turistas para seus municípios, um dos principais é levar bandas que mais fazem sucesso nacionalmente, principalmente as de forró. Como o carnaval barra-cordense é feito em boa parte para os turistas (pelo menos eu penso assim, já que são eles que movimentam sobremaneira a economia e ainda divulgam a cidade) isso tem que ser melhorado. 
                A qualidade do som ficou muito aquém do esperado. Apesar de ter várias caixas de som no meio do espaço cultural onde fora realizado o carnaval, estas só foram sincronizadas com o som principal, o do palco, somente no terceiro dia da festa. Antes elas tocavam até outras músicas diferentes daquela da banda que se apresentava. Mas mesmo assim, do meio para o fim, o som estava muito baixo.
                Também foi interessante notar que houve um carnaval lado a lado ao oficial, ali naquela pequena rua que dá acesso à entrada da escola CNEC, na Tresidela, havia músicas sendo tocadas nos sons de carros. E deu bastante gente naquele espaço, principalmente turistas.
                Para finalizar e não ficar somente nas críticas, um ponto positivo foi o fato da prefeitura ter contratado seguranças particulares e tê-los enviado a vários balneários da cidade, tais como as Tabocas, Litorio e Pousada do Rio Corda. Mais positivo ainda foi o fato da incorporação de mulheres nesse batalhão de seguranças. 
                Mas depois de ver a lógica e o funcionamento do carnaval na Tresidela, concluo que o carnaval da Barra é no centro.

*Raphael Castro é estudante de Ciências Sociais da UFMA, mora em São Luís

(TB/13/fev/2008)

 

 

Carnaval da Barra é no centro
jornal Turma da Barra

 


*Raphael Castro


            Fiquei assustado ao saber que mais uma vez o carnaval da Barra será mudado de lugar. Desta vez, programado para ser realizado na Tresidela. O que mais me assusta nisso tudo, porém, é o fato da população barra-cordense, mais uma vez, não ser ouvida, ser deixada de lado das decisões que lhe dizem respeito.
            Nessa decisão que beira ao autoritarismo, o prefeito Manoel Mariano de Sousa – o Nenzim - nos impõe, nos outorga, a nós foliões, sem mais nem menos, aonde devemos ou não brincar o carnaval. Eu me pergunto: que direito o prefeito tem de mexer em nossas tradições culturais sem nos dar ouvidos?
            O carnaval barra-cordense é atualmente a instituição cultural de maior visualidade da cidade, basta ver a repercussão e atração que exerce pelo estado e país afora. Isso para nós, barra-cordenses, é de uma grandeza e de uma importância ímpar. Assim, a prefeitura não tem o direito de tratar o assunto despoticamente, alterando nossas tradições ao seu bel-prazer. Não tem o direito, pois os critérios técnicos elencados não justificam tais mudanças.
            Para finalizar, notem como este poema de Eduardo Alves da Costa, intitulado "No caminho com Maiakovski", retrata bem a nossa realidade:

"Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.

Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada."

                Carnaval da Barra nunca deveria ter saído da praça Melo Uchôa. Carnaval da Barra é no centro.

*Raphael Castro é barra-cordense, estudante de Ciências Sociais da UFMA

Nota: Este texto originalmente fora publicado no jornal impresso "Acorda", edição de novembro de 2007.
(TB/24/nov/2007)

 

 

Enio Pacheco:
um exemplo a ser seguido

jornal Turma da Barra

 


por Raphael Castro

 


            É comum percebemos que algumas vezes os poderes públicos do nosso país não funcionam como deveriam, em nossa cidade isso é flagrante. Ministério Público, IBAMA, em partes a Prefeitura Municipal, não cumprem o seu papel como deveriam, em beneficio e defesa da sociedade e do meio ambiente. Quando esses órgãos não cumprem o seu papel, ou não funcionam como deveriam, entram em cena as organizações não-governamentais (estas também as vezes não funcionam) ou pessoas bem intencionadas e com projetos coletivos que beneficiam a sociedade – como é o caso do ambientalista Ênio Pacheco.
            Em meados de setembro estive de férias em Barra do Corda e fui - como de costume -, visitar o trabalho do Ênio na reconstrução da ilha central, que fica logo após o encontro dos rios Corda e Mearim.
            A primeira vista fiquei assustado com tamanha evolução em tão pouco tempo, visto que não se passou um ano desde a minha última visita à ilha e ela já estava completamente transformada.
            Logo de entrada, o que se percebe é a formação de um grande banco de areia na parte inferior da ilha (trabalho este natural, realizado pelos próprios rios, mas ainda devido a reconstrução da ilha), que com o passar do tempo tende a aumentar. Outra coisa que impressiona é a extensão da ilha, que graças ao trabalho do Ênio teve seu tamanho expandido. Por último, chama a atenção a diversidade (várias espécies plantadas) e a altura da vegetação. Fica difícil até caminhar dentro da ilha. O Ênio disse que optou por plantar árvores características de Barra do Corda na ilha, tais como gameleira, mamuna, tuari, ingarana, ingá, taboca, dentre outras.
            Em setembro fez cinco anos que ele começou esse trabalho, quase que diário, de reconstrução da ilha, que ele define como um “trabalho de formiguinha”. Naquele tempo havia apenas uma árvore afixada numa pequena porção de terra, ambos em processo de deterioração. Hoje o cenário é completamente diferente, a ilha está belíssima, cheia de vida. E falta pouco para os términos dos trabalhos: a sedimentação do concreto e das pedras do lado do rio mearim e a construção de mais um porto desse mesmo lado do rio.
            Adultos e crianças freqüentam a ilha, jogam bola no banco de areia, brincam, fazem churrascos e alguns até dormem lá. Ao ver as crianças brincando, o Ênio afirma que são elas o verdadeiro motivo que o incentivou todo esse tempo a reconstruir a ilha (ele quer dar a elas a mesma felicidade e prazer que sentia em seu tempo, quando se divertia ali).
            Não podemos deixar de denunciar para as autoridades públicas da cidade (Ministério Público, Polícia Militar, IBAMA e Prefeitura Municipal), o fato de que algumas pessoas estão tirando areia da ilha, num ato que além de ser criminoso, é da mais extrema insensatez e má-fé. Autuações em flagrante já foram feitas, mas é necessário ficarmos sempre de olhos abertos.
            Para realizar esse projeto, o Ênio sai pedindo dinheiro de porta em porta para empresários da cidade, destes, alguns lhe dão o entullho para serem colocados na sedimentação da ilha.
            O projeto idealizado e construído pessoalmente pelo Ênio não prescindiu em nenhum momento do apoio da Prefeitura Municipal de Barra do Corda. Com iniciativas próprias, esse homem, que é um apaixonado pela natureza, tornou um sonho distante realizável. O Ênio não deixa de ser um exemplo a ser seguido quando os poderes públicos (principalmente em nossa cidade) não atuam. Por isso o nosso elogio, respeito e gratidão.

*Raphael Castro é estudante de Ciências Sociais da UFMA.

Nota: Este texto originalmente fora publicado no jornal impresso "Acorda", edição de outubro de 2007.
(TB/30/out/2007)