Carta
Carta aos maranhenses
atingidos pela enchente
jornal Turma da Barra
O TB transcreve carta do presidente da CNBB maranhense, dom Xavier Gilles,
aos maranhenses, atingidos pela enchente, publicada no dia 13 de maio.
Dom Xavier é bispo da cidade maranhense de Viana
"Solidariedade com os atingidos pelas enchentes
“Tal como a terra faz surgir nova planta, canteiro onde germinam as sementes, assim o SENHOR Deus fará brotar a justiça, que será seu louvor por todas as nações”. (Is. 61,11)
Irmãs e irmãos caríssimos,
Neste momento de grande preocupação e tristeza pela situação das vítimas das enchentes ocorridas nesses últimos dias no Maranhão, renovo o convite para mobilizar as nossas consciências e construir urgentemente caminhos de solidariedade e de socorro imediato. É necessário que participemos da campanha para arrecadar recursos financeiros que serão destinados ao atendimento imediato dos desalojados e desabrigados, providenciando alimentação, remédios, colchões, roupas e, no meio prazo, também e sobretudo, à recuperação de casas, das fontes de água potável, das roças e das demais atividades produtivas. A Caritas está sendo, no Regional e nas Dioceses, o instrumento privilegiado para organizar a solidariedade da Igreja com as famílias atingidas pelas enchentes.
Cabe, porém, indo além dos santos e prioritários sentimentos de fraternidade, uma necessária e urgente reflexão sobre as causas desta calamidade, que impropriamente a mídia e o senso comum definem como natural. Esta provocação visa alargar os horizontes da fraternidade, apelando para uma responsabilidade evangélica, ética e política, que não seja meramente pontual e emergencial.
As enchentes, como as periódicas estiagens, fazem parte de um cenário de agressões cada vez mais violentas e aceleradas ao clima, ao Cerrado, à Floresta, aos nossos rios, fontes, mananciais e lençóis freáticos. As grandes empresas não só mataram e continuam matando, de varias formas, os povos do Maranhão, mas matam e desmatam a terra, a Vida, a Criação de Deus, em nome do “desenvolvimento”, do “progresso”, do lucro e da ganância. Os projetos da pecuária e dos monocultivos da soja, cana-de-açúcar, eucalipto; os investimentos nos agrocombustíveis (bio-diesel e etanol) são os únicos responsáveis por estas e outras tragédias sócio-etno-ambientais que assolam o nosso Estado.
Concordo com quanto afirmado no recente apelo da Caritas Regional: “A cada ano o quadro se agrava. Isso nos mostra que os impactos são crescentes e acumulativos. Isso nos revela também que medidas paliativas, imediatistas, assistenciais e emergenciais embora importantes, necessárias e urgentes, não são suficientes para resolver os problemas causados anualmente pelas cheias dos principais rios que cortam o Maranhão.”
Diante de tais desafios, precisamos:
Colocar-nos a serviço de organizações e mobilizações populares conscientes e informadas para barrar a corrida cínica e irracional do capital e construir alternativas ao atual modelo de desenvolvimento hegemônico no Maranhão, procurando incentivar as experiências agroecológicas e a busca de energias limpas.
Cobrar o poder público, para que seja autenticamente público e a serviço do bem comum, do bem de todos. “Precisamos envolver, inclusive, o Ministério Público, os órgãos de controle ambiental, o poder executivo nas três esferas, e a sociedade civil para uma grande mobilização e reflexão, visto que, se o curso dos grandes projetos continuarem na mesma velocidade, as tragédias serão cada vez maiores, previsíveis e anunciadas anualmente. E quem mais sofre com elas são as populações mais empobrecidas, que são mais vulneráveis “.(Caritas Regional)
O poder público precisa ser interpelado e cobrado para que enfrente este quadro de uma forma estrutural e programática, com políticas públicas de segurança para territórios a risco; planos para moradias urbanas e rurais. A construção de alternativas passa pela intervenção do estado, também através da desapropriação e arrecadação de terras, estabelecimento de projetos de assentamento e desenvolvimento de mecanismos eficazes de apoio a iniciativas econômicas populares.
Devemos acrescentar a urgência de exercer o controle social sobre os recursos públicos destinados aos atingidos, sujeitos a prováveis manipulações e desvios por parte dos servidores públicos corruptos, que, infelizmente, não são exeções no atual quadro institucional.
Que o Deus da Vida nos acompanhe nesta caminhada.
Envio-lhes um grande abraço, renovando o convite para non prepararmos, na oração e na reflexão, para a X Romaria da Terra e das Águas, Codó, 5-6 de setembro de 2009.
Dom Xavier Gilles
Bispo de Viana
Presidente da CNBB NE V, Regional do Maranhão
São Luís do Maranhão, 13 de maio de 2009, dia de Nossa Senhora de Fátima e da Abolição da escravatura."(TB/17/mai/2009)
Carta
Bispo denuncia corrupção
nas eleições
jornal Turma da BarraO bispo de Viana, dom Xavier Gilles, presidente do Regional da CNBB do Maranhão,
divulgou carta em que faz reflexões sobre os últimos acontecimentos,
quando denuncia compra de votos e a gravidade
das questões fundiária e agrária
do Maranhão.
"Viana, Quinta-feira 1 de janeiro de 2009
... já não és escravo, mas filho .... Gal. 4,7 II Leit. Missa hoje
Caríssimas irmãs e caríssimos irmãos da Diocese de Viana,
Companheiras, companheiros militando nas Pastorais e nos Movimentos do nosso Regional Maranhão,Celebramos o início de um novo ano com a Solenidade dedicada a Maria de Nazaré, a Santa Mãe de Deus, a Rainha da Paz, modelo das discípulas e dos discípulos do Senhor Jesus, modelo para as testemunhas da justiça e para os construtores de fraternidade. Neste momento de Vida e Graça renovadas, quero lhes roubar um pouco de tempo para oferecer-lhes algumas reflexões sobre recentes acontecimentos, que interpelam e desafiam as nossas comunidades.
AS ELEIÇÕES MUNICIPAIS.
No ano passado, a CNBB, em parceria com o Poder Judiciário, com o Ministério Público e com a OAB, promoveu uma mobilização nacional para fiscalizar a campanha eleitoral e as votações. Também nos municípios do Maranhão, os Comitês 9840, com a participação valiosa de muitos católicos, atuaram com eficiência e eficácia neste precioso e urgente serviço à moralização da política e ao protagonismo democrático da sociedade civil. Porém, este esforço chocou-se com o aumento exponencial da prática iníqua da compra de votos e do uso da maquina administrativa e do dinheiro público a serviço da campanha eleitoral de muitos candidatos. Temos a impressão que estas eleições foram as mais corruptas destes últimos anos e isto é motivo de grande decepção e preocupação, porque os políticos que praticam ilícitos graves durante a campanha eleitoral acostumam ser administradores inconfiáveis e corruptos.
Mais uma vez, quem sofre é o nosso povo, porque os recursos que deveriam servir para a construção do bem comum e a implementação de políticas públicas,- cada vez mais urgentes frente ao empobrecimento e ao sofrimento da população-, são cínica e diabolicamente desviados para o patrimônio familiar dos administradores.
Com pesar, devemos também apontar que, em muitas Comarcas, Juízes e Promotores não se fizeram presentes no dia das eleições. Acrescentamos mais uma questão constrangedora: em muitos Municípios, até ontem ainda não sabemos quais dos candidatos foram eleitos e temos até caso de dúplice diplomação pelo Poder Judiciário. A incerteza jurídica ou a dependência política do Judiciário evidentemente não favorecem o caminho de democratização da sociedade.
Permanece, assim, o desafio de continuar a vigilância sobre as administrações municipais. Permanece o chamado evangélico em defesa da vida que se traduz também na capacidade do povo da cidade e do campo de se organizar e articular para pressionar, cobrar e exigir o respeito de seus direitos através de políticas públicas sérias e eficazes.2. O GOVERNADOR DO ESTADO E O JULGAMENTO DO TSE.
A preocupação com a missão cidadã da moralização da política nos guiou também durante as primeiras fases do julgamento do nosso Governador Jackson Lago pelo TSE. Apesar de termos consciência das questões históricas e simbólicas que atravessam a dialética entre o Governo e a Oposição, que governou - e freqüentemente desgovernou - o Estado por mais de quarenta anos, devemos defender a tese que toda denuncia que diz respeito à corrupção administrativa e a crimes eleitorais deve seguir o iter processual estabelecido pelas leis vigentes. Encarar estes fatos de uma forma meramente emocional ou cegamente partidária seria desconsiderar a necessidade de manter os princípios da ética e da legalidade republicana como pontos firmes de toda atividade política.
3. A VIOLÊNCIA NO ESTADO.
O ano de 2008 foi também marcado por episódios de violência coletiva que nos alertam sobre a situação de ressentimento e revolta de amplos setores do nosso povo. Os linchamentos, a depredação e o incêndio de prédios públicos – muitas das vezes resultados de inescrupulosa manipulação de políticos - revelam a insatisfação e a descrença popular nas instituições. Não se trata, nestas circunstâncias, de legitimas manifestações populares para reivindicar necessidades e direitos ignorados ou não atendidos pelo poder público; ao contrario, revelam-se como eventos trágicos e inconseqüentes, sem consciência e sem projeto.
A Campanha da Fraternidade da Quaresma 2009 verterá sobre o tema da Segurança Pública. Desde já, acho necessário fazer um apelo para que as nossas comunidades sejam protagonistas de um mutirão em defesa da paz. Possa crescer em nosso meio a consciência de que a abordagem repressiva dos fenômenos criminais não somente é ineficaz, mas agrava as desigualdades e as tensões de uma sociedade que privilegia uma minoria e exclui a maioria da população.
Temos a difícil tarefa de contribuir evangélica e pacificamente para a formação ética e política das nossas comunidades e para canalizar o legitimo ressentimento do povo para objetivos fraternos: a ampliação do leque angusto das práticas democráticas e as lutas para a exigibilidade dos direitos econômicos, sócias, culturais e ambientais.
4. A VIOLÊNCIA INSTITUCIONAL E PRIVADA CONTRA AS COMUNIDADES CAMPONESAS.
Enfim, devo comunicar-lhes informações - que a mídia estadual, a governista como a da oposição, ignora sistematicamente - sobre a gravidade das questões fundiária e agrária no Maranhão.
O ano de 2008 não foi simplesmente mais um ano perdido nos descaminhos da Reforma Agrária; com efeito, se olharmos o número das áreas regularizadas e dos novos assentamentos, descobrimos que a agricultura camponesa e os povos tradicionais foram abandonados pelos Governos ao Deus dará.
Assistimos a um aumento dos conflitos em todo o interior do Estado com a volta da pistolagem e de despejos judiciais executados por Policiais Militares e milícias particulares dos latifundiários. Os dados fornecidos pela Comissão Pastoral da Terra revelam números assustadores, que nos lembram a conjuntura dos anos 80. Além disto, em muitas regiões do Estado, as famílias assentadas foram abandonadas pelos Governos Federal e Estadual.
É inevitável a nossa crítica a setores expressivos do Poder Judiciário, que expedem liminares de reintegração de posse e ordens de despejo de duvidosa legalidade e de incontestável ilegitimidade.
È inevitável o nosso apelo à Secretaria de Segurança Pública e ao Governo do Estado para que retomem a prática de consultar o Ministério Público, Sindicatos, Movimentos Sociais e Pastorais, diante da iminência de despejos judiciais.
Não podemos, em fim, não apontar para as responsabilidades e omissões do MDA-INCRA e do ITERMA.
É bom lembrar que todos estes conflitos fazem parte de uma conjuntura caracterizada pela expansão dos monocultivos de grãos, cana-de-açúcar e eucalipto, que agridem e destroem o nosso cerrado, as nossas águas e obrigam milhares de camponeses maranhenses a novos êxodos, para reforçar a massa dos migrantes assalariados em regime de super-exploração e de trabalho análogo ao escravo.
O que acabo de lhes escrever poderia gerar em nós sentimentos de impotência e desânimo, mas nós somos filhos e filhas de Deus, irmãos e irmãs de Jesus de Nazaré, o Ressuscitado, que venceu o medo, o pecado e a morte.
Contemos com a presença do Espírito, animador de toda profecia e Advogado dos pobres de Javé.
Um grande abraço e a minha bênção.
Feliz Ano 2009
Dom Xavier Gilles é bispo de Viana e presidente do Regional Maranhão e presidente da CPT"(TB/10/jan/2009)