Entrudo carnavalesco
jornal Turma da Barra
 

*Murilo Milhomem


            Enturdo era assim que o carnaval se chamava quando chegou por aqui, por volta de 1641. Trazido pelo invasor português, a festa nada mais era do que uma brincadeira em que os foliões jogavam água e lama uns nos outros.
            Jogavam também gema, farinha, barro ou cal. Os mais atrevidos chegavam a lançar urina e outros produtos nada recomendáveis.
            Uma brincadeira de mau-gosto, que frequentemente acabava na delegacia. Por várias vezes as autoridades tentaram acabar com a festa mas em vão. Campanhas chegaram a ser feitas na imprensa com este fim. Sem sucesso: o Entrudo já havia virado mania nacional.
            Do Entrudo participava principalmente gente do povo, escravos inclusive, devidamente liberados pelos senhores. Gente de posse também brincava, só que em recintos fechados. Utilizava, é claro, líquidos perfumados no lugar dos produtos que tanta encrenca provocava.
            O Entrudo durou até meados do século 19, quando aos poucos passou a ser substituído por outras formas de brincar menos agressivas. O chamado Zé Pereira, uma espécie de bloco de sujo dos dias atuais foi uma delas.
            Quem introduziu essa mudança no carnaval foi José Nogueira Paredes, um sapateiro de origem portuguesa. Tudo teve início quando, num sábado de carnaval, José Nogueira reuniu um grupo de amigos e saiu pelas ruas do Rio de Janeiro com zabumbas e tambores.
            Aos poucos a brincadeira se espalhou por toda a cidade. Estava decretado o início do fim do Entrudo e garantido a sobrevivência do carnaval do Brasil.
            Certas características do Entrudo continuam presentes no carnaval brasileiro. É o caso da maisena, utilizada fartamente pelos foliões. Os empoados é o que há de mais representativo nesse sentido. Para participar do bloco o produto é indispensável.
            Pelo menos, por parte dos blocos, existe uma tendência ao retorno do carnaval de antigamente. Uma idéia a ser seguida também pelo executivo local, que tem insistido nas bandas voltadas para o carnaval baiano.

*Murilo Milhomem é jornalista, mora no Guará (DF)

(TB/30jan/09)

 

 

O efeito Bachelet
jornal Turma da Barra
 

*Murilo Milhomem


            O resultado da disputa presidencial no Chile ligou o sinal de alerta na cúpula da campanha de Dilma Rousseff. É que lá, Michelle Bachelet não conseguiu emplacar seu sucessor, apesar da alta popularidade que desfruta. Como Lula, também conta com mais de 80% de aprovação, segundo as pesquisas.
            Até aqui a preferida do presidente continua patinando na casa dos 20%. Um índice pífio se se levar em conta o forte uso da máquina pública a favor da ministra. São bilhões de Reais com obras do PAC para dar musculatura a sua candidatura.
           
Além de Lula e do PAC, Dilma aposta no apoio do PMDB para tentar chegar lá. Mais uma vez o partido se apresenta dividido para a disputa. Parte dele deseja candidatura própria e parte quer dividir o palanque eleitoral com os tucanos. A rejeição de Lula ao nome de Michel Temer ao cargo de vice é outro fator complicador.
           
A quem aposte no muro como resultado de toda essa difícil equação. Foi assim nas últimas eleições, quando oficialmente o PMDB não apoiou ninguém. Cairá nos braços de quem vencer, seja Serra ou Dilma.
           
Caso Dilma não decole, Lula terá de buscar forçosamente uma alternativa mais palatável,  capaz de obter êxito numa campanha que promete ser de baixo nível. Dilma definitivamente não aglutina, pois lhe falta aquele tempero indispensável para a missão.
           
Descontentamentos também existem nas fileiras petistas. No Maranhão, a aliança de Lula com Sarney tem tirado o sono dos militantes. A ordem de Lula é apoiar Roseana nas próximas eleições, custe o que custar. O grupo do deputado Domingos Dutra, um entrave à idéia, foi recentemente desalojado do comando do partido.
           
No PSB, Ciro Gomes também ameaça com candidatura própria. Para desgosto de Lula, que não quer ver os aliados em trincheiras separadas, colocando em risco o projeto de permanência no poder. Se depender de Lula, Ciro será candidato ao governo de São Paulo.
           
Aliás, de acordo com os especialistas, um dos motivos para a vitória da oposição no Chile teria sido justamente a divisão ocorrida no grupo de Bachelet. E é isso que Lula quer evitar a todo custo, mesmo que tal atitude provoque fortes descontentamentos no PT.

*Murilo Milhomem é jornalista, mora no Guará (DF)

(TB/26jan/09)

 

O meu carrinho de pilha
jornal Turma da Barra
 

*Murilo Milhomem

            Dois meses antes do Natal, cobrava ostensivamente da minha mãe o envio de uma carta a Papai Noel. O meu maior sonho era receber de presente um carrinho movido à pilha. Um presente caro para os padrões da época e vendido apenas numa única loja da cidade.
            Minha ansiedade aumentava com a aproximação da data tão aguardada. Papai Noel por vez aparecia de carne e osso e tirava do saco o meu presente, normalmente um carrinho de plástico. Não o tão sonhado carrinho de pilha, mas grande era a emoção. Afinal de contas, não havia presente que substituísse a alegria de ter com Papai Noel.
            Anos havia que Papai Noel col
ocava o presente debaixo da minha rede. Talvez estivesse muito ocupado para fazer a entrega de casa em casa, por causa da grande quantidade de cartas recebidas. Neste caso, a alegria não era a mesma, pois ficava a frustração de não ter com ele.
            No dia seguinte, saía a brincar pela rua com o meu presente. As outras crianças também faziam o mesmo. Outras nem isso, porque simplesmente não estavam incluídas na lista de Papai Noel. Entre os presentes, nenhum carrinho de pilha. Carrinhos de plástico, apenas.
            Até que um dia qualquer, descobri que Papai Noel não existia. Uma surpresa e uma frustração para mim: meu sonho de um dia ter um carrinho de pilha havia ido por água abaixo. A partir daí, o Natal perdeu a graça. Perdeu aquele encanto que só existe nos contos de fadas.
            Os natais passaram a ser vistos sob a ótica perversa do capitalismo, já que a data se transforma cada vez mais em um grande mercado persa. Descobri que, mesmo o Papai Noel, meu ídolo de então, tem ligações com a Coca Cola. As cores de sua roupa são idênticas às do refrigerante mais consumido no mundo.
            Outro indício da descaracterização da figura bondosa de Papai Noel pode ser vista nos shopping, onde pode ser visto diariamente nesta época festiva. Lá, para uma simples foto ao lado dele, cobra-se o abusivo preço de 10 reais. Ho, ho, ho!
            Que no próximo ano, a começar por Papai Noel, os homens tenham boa vontade e incluam a moral e os bons costumes nas suas agendas.
            Boas festas para todos!

*Murilo Milhomem é jornalista, mora no Guará (DF)

(TB/17dez/09)

Opa! O cego vai passando
jornal Turma da Barra
 

*Murilo Milhomem

            Por onde quer que João passasse, era grande a algazarra dos moleques. Sem papas na língua e, sem enxergar nada em volta, pronunciava os mais variados tipos de palavrões. Uma boca pra lá de suja, que assustava até mesmo aqueles já acostumados.
            O bastão mais parecia uma arma. Com ele, disparava ataques a ermos. O alvo, nem sempre era o desejado. Às vezes atingia quem não tinha nada a ver. Aí a confusão se generalizava.
            Na verdade, João tinha tudo aquilo com uma grande diversão. Não só para ele. Para os moleques também. Quando passava e o silêncio imperava, arrumava um jeito de logo chamar a atenção: opa, o cego vai passando!
            E, de tanto ver ele passar, de tanto ouvir ele xingar, de repente senti saudades do João. Um cego malcriado e sem papas na língua. O João que marcou época por várias gerações seguidas e se transformou numa figura folclórica.
            Saudades de um João que pouco dele se sabe. Que vivia num casebre próximo à bica. Um casebre que, como o João, também nem existe mais. Não existe mais porque o tempo tragou e de volta não traz. 
            De um João ninguém que não se sabia nem o sobrenome. Chamavam-no simplesmente de João Popó. Uma figura impagável, como todas os demais que por lá passaram e ficaram registradas para sempre em nossas mentes.
            Além dele, João Popó, nomeio outros personagens que integram esse filme, Um filme sem título nem roteiro que ninguém mais vai assistir: Maria Tamanquinha, Pé-de-Curica, Verônica, Boneca da Beata, Toniquinho, Velho Tucandeiro e tantos outros.
            Aos que não listei aqui, mil perdões. São tantos, que muitos deles o tempo já se encarregou de apagar da minha mente. Não importa! todos são protagonistas do filme. A todos a minha sincerta homenagem.

*Murilo Milhomem é jornalista, mora no Guará (DF)

(TB/29nov/09)

O cabeça de cuia e eu
jornal Turma da Barra
 

*Murilo Milhomem

            As águas dos rios Corda e Mearim contam muitas estórias. Uma delas foi importada do vizinho Piauí e se refere ao Cabeça de Cuia, bastante temido pela meninada da minha época.
            Trata-se da figura folclórica mais popular de Teresina. Lá, tem uma data no calendário oficial para o Cabeça de Cuia, a última sexta-feira de abril de cada ano. Um monumento também foi levantado para homenageá-lo. Fica no bairro Poti Velho e é um dos locais mais visitados da cidade.
            Uma surpresa, pois o Cabeça de Cuia me meteu muito medo quando eu era menino. Os pais utilizavam a figura contra os filhos que queriam tomar banhos nas águas barrentas e perigosas do rio na época das cheias. De nada adiantava, é claro, pois prevalecia o espírito de aventura da turma.
            Pular do galho mais alto era sinônimo de virilidade. Pular da ponte representava o ouro olímpico de nossos dias, mesmo que isso significasse de repente cair em cima do próprio Cabeça de Cuia. Não importava.
            Uma probabilidade pouco provável, por que a lenda conta que o Cabeça de Cuia tinha de devorar sete Marias virgens para tornar a praga da sua mãe sem efeito. No caso, ali, não existia uma única mulher.
            O Cabeça de Cuia tinha nome. Se chamava Crispim. Tinha também uma profissão, era pescador. Portanto, um trabalhador como outro qualquer. Perdeu a cabeça por causa de um prato de comida. Com raiva, atacou sua mãe com um osso de boi até a morte.
            Daí a praga da velha. Se transformaria num monstro com uma cabeça enorme, do tamanho de uma cuia. As águas do Poti e Parnaíba seriam seu destino. Enquanto não devorasse as sete Marias virgens ficaria errante, dentro delas.
            Como se vê, jamais o Cabeça de Cuia poderia trafegar nas águas do Corda e Mearim. Mais os boatos da época afirmavam que sim. O monstro teria sido visto rio abaixo por algum ribeirinho. Um outro pescador, do mesmo naipe dele, o Cabeça de Cuia.
            Pura mentira! Ninguém acredita em estória de pescador. Na época eu não sabia. Acreditava piamente na existência dele, o Cabeça de Cuia. Mesmo assim fugia à beira do rio, para dar meus saltos da ponte.

*Murilo Milhomem é jornalista, mora no Guará (DF)

(TB/15nov/09)

 

Artigo
Finalmente uma boa notícia
jornal Turma da Barra
 

*Murilo Milhomem


            O TB publicou que a sede do antigo aeroporto de Barra do Corda ainda existe. Existe e está em bom estado de conservação. Foi encontrada nos fundos de uma casa, que utiliza o local para guardar bregueços.
            O antigo aeroporto ficava no Altamira. Persistiam, no entanto, dúvidas sobre o verdadeiro local onde funcionava. Crônica do saudoso Suarez Pinto, relata o dia em que o primeiro avião pousou no local, provocando um enorme reboliço na cidade. Vale a pena ler.
            Outra notícia boa, é que já tem gente se movimentando para preservar as instalações do minúsculo prédio. Trata-se de Álvaro Braga, o descobridor do precioso achado. Álvaro, já deu início a uma campanha com tal objetivo. Conta com o total apoio do Instituto Histórico e Geográfico barra-cordense, recentemente criado.
            Um objetivo por demais nobre, pois nos últimos anos o que se tem visto é justamente o contrário. Prédios históricos da cidade sendo demolidos para atender à ganância de mercantilistas insaciáveis.
            O próprio clero, tradicionalmente sensível a questões preservacionistas, tem dado mau exemplo. No final do século passado, alterou a fachada de prédios históricos como o complexo de prédios atrás da igreja Matriz e o convento das freiras para colocar pontos de comércio.
            O Instituto Histórico e Geográfico de Barra do Corda foi criado pelo incansável Nonato Silva. Tem entre suas metas cuidar para que as constantes agressões nesta área não se repitam. É um bom começo, mesmo sabendo que são imensas as barreiras a transpor.
            Ficam aqui duas sugestões. Não vi até agora nenhuma manifestação da secretaria de Cultura sobre o assunto. É dever do poder público local também proteger a nossa história. Comprar a casa histórica do aeroporto e torná-la propriedade do município poderia ser um bom caminho. Afinal de contas, não ficaria bem um patrimônio no fundo de um quintal.
           
Uma outra, seria o mapeamento de todos os pontos históricos da cidade, para garantir uma melhor conservação desses locais. Em ambos os casos, parceria entre o Instituto e a secretaria de Cultura seria bem-vinda.

*Murilo Milhomem é jornalista, mora em Brasília

(TB/15/jun/09)

Caema por que não Maravento?
jornal Turma da Barra
 

*Murilo Milhomem


            Que tal mudar o nome da nossa gloriosa Caema?
           
Fica decretado a partir de agora que a empresa passa a se chamar Maravento. Água que é bom, nada. Esgoto na cidade, idem. Nas torneiras vento, muito vento. No final do mês a infalível conta.
           
Coincidência ou não, o problema acontece justamente após as eleições. E o pior de tudo é que ninguém se dispõe a atacar o problema de frente. O que mais me impressiona é o mutismo do executivo local, totalmente insensível às reclamações da população.
           
O Ministério Público resolveu agir, provocado por um abaixo-assinado patrocinado por uma emissora de rádio. Enquanto uma solução não vem, o jeito é ir se aliviando nas dadivosas águas dos velhos Corda e Mearim. Como nos bons tempos.
           
Com uma diferença. Naquela época, as águas ainda não eram poluídas e a população era menor, bem menor. O precioso líquido era transportado em latas, na cabeça. Quem podia, pagava os serviços de carregadores.
           
Nestes casos, já citei aqui o saudoso Toniquinho, que carregava a água numa canga. Para os mais exigentes, uma carroça para o transporte. Aos mais jovens, cabe uma nota explicativa: canga é um pau com duas latas penduradas por cordas, uma em cada extremidade.
           
Ainda não se ouvia nem falar na Maravento, digo, Caema. Era um conforto somente acessível para quem morava em cidade grande. A novidade chegou na Barra nos meados dos anos setenta. Veio para por fim às ultrapassadas latas d'água.
           
O que poderia ser uma perspectiva de ingresso em formas de consumo do mundo moderno, logo se revelou justamente o contrário. Por falta de investimento, aos poucos a água foi aos poucos sendo substituída por vento. E o que pior: com um vento bastante salgado, pois vem incluído mensalmente na conta do consumidor.
           
Se bem que recursos para investir no negócio até que apareceram. O problema é que desapareceram nos esgotos da corrupção. Já os esgotos destinados às coletas de dejetos da população, continuam a céu aberto.

*Murilo Milhomem é jornalista barra-cordense, mora no Guará - DF

(TB/20/outl/08)