Cinco poemas
de Kissyan Pereira Castro

jornal Turma da Barra

O poeta barra-cordense Kissyan Pereira Castro, 26 anos,
está a lançar o livro de poesia "Vau do Jaboque".
Mora no bairro Incra, na Barra, é estudante de Letras da UEMA, 
membro titular do Clube dos Escritores de Piracicaba - SP.
O TB destaca cinco poemas do poeta, 
um dos ganhadores do prêmio professor Nonato Silva, 
concurso poético organizado pela Arcádia Barra-Cordense em 2005




SAGRAÇÃO

“Entre a relva verde

que do rio bebia,

brotaram cipós.

Eram tantos que cobria

do rio toda a borda

e te chamaram Rio Corda”.

 

Enquanto tange

                        o Rio

a lira matinal,

sinto também

            que a vida

é água que foge.

 

Salpicam-me

estas águas

                        como se não

                        houvera

ais nas cicatrizes.

 

Rio Corda,

 

o próprio canto entregas

            ao Mearim,

            o próprio corpo,

e segues em tua ânsia fria

de inapagáveis passos.

 

Leva-me, Rio,

quando eu for

            da existência apenas

uma percepção azul,

                        boiando.

Quero o destino sideral

                        de tuas águas:

ser todas as gotas,

                        todas as

raízes,

todos os fios de luz

            a ecoar nas manhãs

de minha terra.

Teu curso de epopéia

resistirá a mim,

                       

(O pensamento

do Rio

me reinventará.)

                       

            continuará ardendo

entre os cântaros plúmbeos

da espuma,

            sem o gume das pontes,

e os bambus acesos

                        encobrindo

os trabalhos do tempo.

 

            São outras vozes

as que o Rio leva,

e só os filhos

            deste chão

                        entendem

sua claridade.

            O cordino é quem toca

            o silêncio das pedras

e dele colhe

a pétala de cada dia.

 

(Demos as mãos!

            Barracordemo-nos todos!)

 

São outras vozes

            as que o Rio leva,

única construção

que o tempo

                        indistrói.

 

Aqui o verde imperial

            povoa o hálito

do dia.

                        E a noite

é ver estrelas

            molhadas pelo Rio.

O céu,

de um maduro contínuo,

contempla minha infância

                        no rosto

            das águas.

Devo aceitar este latejo

de água

                        que me golpeia,

para que onde esteja

            a mão aflita

            eu lhe acuda

com uma gota úmida deste Rio.

 

Ó Rio de meu sangue,

                                   Rio Corda,

            na paz de tuas margens

            ponho este  poema

e canto.

E por que nasceu do Rio,

                                               prossegue…

De mãos dadas

                        vamos juntos.

 

 

RE-VESTIMENTO

Os móveis emprestam-me

seu idioma

            de látex.

Arvoram-me olhos

                        desmatados

                        à liturgia das aves,

frutas de alvar

sexo.

Na sala os móveis

            lenham cicatrizes,

            curam machados,

ousam outra

                        arquitetura

            na paisagem:

à nudez de Cristo

                        descruzam-se em asas,

e deitam ao chão

            sua túnica

                        de folhas.

 

 

A MÁQUINA DO TEMPO

O atropelo da fila

à palavra,

            escada acima,

                        senha e tudo,

é rojão. Hoje nada

cabe na palavra

            (ou cabe tudo?) (desem-

prego?). O tráfego (tráfico?) na BR

                        até o nome

custa sofrê-lo.

                        Reelaborar

                        relâmpagos

no golpe,

lubrificar as já gastas

            engrenagens

                        no gargalo da pronúncia,

reviscerá-la

            mesmo no pré-operatório.

Re nome ar  tudo.

                        Distinguir no raio x

                        a fratura do vento,

imobilizá-lo em cada vértebra

no instante súbito da pomba (sem

            que suspeite),

            apanhá-la ainda

            no vôo (ou o que

seja) antes

                        que paire à face

                                               das águas.

 

GÔNDOLA DIFUSA

Desde agora o pensamento

transpõe o mármore do verbo.

A agonia de negar o desejo

exala-se,

porém o grito se abafa.

Logo a sombra mestra se retira

e deixa apenas sua ressonância

violenta.

Desde agora o medo ou mulher

apodera-se do meu silêncio.

Então volto de alguma parte

em mim que por vezes

se afoga.

Desde agora a claridade,

o apego ou distância

retrocedem,

retrocede o canto.

Devo sentir o rasgo da chuva

e reconhecer-lhe o tempo urdido,

longe do equívoco e do rio,

encerrado no vazio que me penetra

como incêndio.

Devo assim tornar-me em exalação

ou castigo quando de repente

passos ondas instante,

percorrem jardins de fumo

sob

tuas pálpebras no escuro.

Até que

através de ossos eu circule

e durma e fique o grito

nas areias de meu país.

 

 NÓ CEGO

 

Até ao barro me Barra

esta Corda onde moro.

 

Tudo me acorda e

            mearinha

nesta Barra,

                        até o barro.